Prefácio de Flávio Bolsonaro em livro chinês revela seus planos
Título: Prefácio de Flávio Bolsonaro em obra chinesa revela seus objetivos
Encontrei-me em uma livraria online à procura do livro “O cadete e o capitão”, uma investigação realizada pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho sobre a trajetória de Jair Bolsonaro nos quartéis do Exército, quando fui apresentado a uma edição de “A arte da guerra”, de Sun Tzu.
Apenas compreendi a sugestão do algoritmo ao ler o prefácio assinado por Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República, na capa verde e amarela da versão do clássico livro chinês.
Custando apenas R$ 10 e sem encontrar resenhas na internet, decidi adquiri-lo. Nesta primeira edição de Cartas Marcadas em 2026, compartilho minhas impressões sobre o conteúdo encontrado.
Prometo que nas próximas semanas teremos as reportagens investigativas habituais da newsletter Cartas Marcadas. Contudo, não poderia ignorar a leitura mais sem sentido que realizei nos últimos anos, escrita por um personagem que se tornará protagonista em 2026.
Primeiramente, um detalhe relevante: a edição do livro é de 2021, indicando que o texto de Flávio foi escrito antes do lançamento do ChatGPT, o que justifica suas apenas três páginas. Essas páginas, por um lado, são insuficientes para justificar o valor pago, e por outro, são excessivas para o seu conteúdo efetivo.
Os problemas tornam-se evidentes rapidamente. O texto apresenta erros ortográficos, frases extremamente longas e um uso excessivo de letras maiúsculas — PAZ VERDADEIRA, GUERRA, VIDA, MORTE — como se precisasse gritar para convencer alguém de que está transmitindo algo profundo. Spoiler: não está.
No entanto, o mais intrigante não é a negligência na escrita. O que mais chama a atenção é a interpretação de Sun Tzu por Flávio, que dá a impressão de ter lido apenas o título do livro.
Segundo o filho mais velho de Jair Bolsonaro, “A arte da guerra” sugere que a vida é uma batalha constante, que a dúvida é uma fraqueza e que a paz é apenas comodismo.
Devo admitir que nunca havia lido a obra clássica de Sun Tzu. Decidi explorá-la para compreender a interpretação de Flávio. Trata-se de um livro breve, com menos de 100 páginas. Não levei mais do que uma semana para concluí-lo. Posso assegurar que o general chinês não expressa nada semelhante ao entendimento de Flávio.
A obra de Sun Tzu valoriza, na verdade, o oposto do que o senador do PL acredita. Não se trata de enaltecer a guerra, mas sim de valorizar a inteligência estratégica, a vitória sem combate e, principalmente, a prevenção de conflitos desnecessários.
No prefácio de Flávio, no entanto, o chinês é retratado como um defensor da guerra. De acordo com a visão do senador, o estrategista enxerga o mundo como um lugar de inimigos constantes, batalhas contínuas e vencedores e perdedores eternos.
“Ninguém duvida que a vida é uma guerra. Temos dúvida disso? Acho que não, e acredito mais, defendo que não temos direito a essa dúvida”, afirma ele em um trecho do prefácio. “Ninguém pode esperar sucesso na vida se encará-la de forma passiva”, declara em outro momento.
Trata-se de uma leitura que distorce o pensamento original para torná-lo compatível com o bolsonarismo, uma ideologia que depende do conflito constante para se manter.
A escolha da família Bolsonaro de apostar em Flávio como nome para 2026, em detrimento do supostamente mais moderado Tarcísio de Freitas, também ajuda a elucidar o projeto delineado nessas três páginas.
Ao priorizar o filho, a família sinaliza que compreende algo essencial sobre sua base de apoiadores: sem a retórica da violência, do inimigo e do confronto, o bolsonarismo perde sua força.
A ascensão recente de Flávio nas pesquisas indica que esse diagnóstico é compartilhado por seu eleitorado mais fiel. O prefácio, portanto, não é apenas um amálgama de clichês, mas também funciona como um manifesto de campanha, prometendo que, sob seu comando, a política continuará sendo tratada como uma batalha.
Ao finalizar a leitura, descobri que a extrema direita global há algum tempo incorporou Sun Tzu em seu repertório simbólico, descontextualizando frases e transformando um tratado complexo em uma mera apologia à guerra.
No ensaio “Hate reads”, publicado na revista britânica Aeon, o escritor e professor Andrew Marzoni observa que a obra foi incluída na chamada “‘America First’ reading list”, lista de leitura associada ao slogan “America First” utilizado por Trump em sua campanha de 2017, que resume políticas visando colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. Essa lista, divulgada pelo ativista conservador Milo Yiannopoulos, faz parte de um esforço mais amplo da extrema direita norte-americana para construir um repertório cultural próprio.
Frases como “toda guerra é baseada no engano” e “conheça seu inimigo e conheça a si mesmo”, extraídas do clássico chinês, são disseminadas descontextualizadas como chaves para vencer uma “guerra cultural” contra a imprensa, universidades e adversários políticos.
Essa interpretação distorcida da obra de Sun Tzu também se reflete na ascensão de Donald Trump. Conforme uma reportagem da Vice, o presidente dos Estados Unidos recomendava a obra de Sun Tzu em seus livros de autoajuda e negócios, demonstrando sua afinidade com o pensamento do general chinês.
O prefácio de Flávio se enquadra nesse contexto: não há tentativa de interpretação histórica, mediação cultural ou reflexão profunda. Há apenas a apropriação de um nome clássico para conferir um verniz intelectual a seu discurso belicoso.
“O general Sun Tzu estudava e conhecia os pontos fracos e fortes de seus inimigos e, como nos ensina em sua obra, desorganizar o inimigo, gerar confusão, era uma arma poderosa e mortal no combate”, escreve o senador, utilizando vírgulas de forma peculiar.
A frase final do texto exemplifica as generalidades e clichês presentes no texto de Flávio Bolsonaro sobre a obra de Sun Tzu: “A luta não é para amadores, precisamos estar preparados, inclusive para vencer a maior das batalhas: A VIDA”.
Por R$ 10, não obtive nenhuma nova aprendizagem com o texto de Flávio Bolsonaro sobre a obra de Sun Tzu. Contudo, foi uma leitura interessante para recordar como certos projetos políticos carecem de profundidade. Talvez isso seja mais revelador do que o prefácio pretendia ser.
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