Prefeitura empenhou R$ 362 mil para a 99 na véspera da greve, mas site do voucher não funciona
O site voucher.saoluis.ma.gov.br, indicado pela própria Prefeitura de São Luís para cadastro de acesso ao benefício de transporte por aplicativo durante a greve dos rodoviários na capital, não funciona. Quem tenta acessar a página recebe de volta um erro de DNS (Servidor de Nomes de Domínio, em tradução livre) indicando que o endereço sequer está registrado ou configurado nos servidores do município.
A verificação foi feita pelo Atual7 nesta quarta-feira (4), após relatos nas redes sociais feitos por usuários do sistema de transporte público coletivo. Na prática, o sistema oficial de cadastro simplesmente não existe.
Os relatos sobre a falha estão sendo publicados pela população de São Luís em postagem do prefeito Eduardo Braide (PSD) no Instagram sobre a ativação dos vouchers e em publicações nos perfis da prefeitura promovendo shows para o Carnaval e, principalmente, numa divulgação antiga exatamente a respeito dos vouchers, feita pela vice-prefeitura em fevereiro de 2025.
Na publicação de Braide, após um seguidor compartilhar o endereço informado pela prefeitura para acesso ao voucher, diversos usuários denunciaram que o site não funciona ou que mesmo quem já possui cadastro não estaria recebendo o benefício.
“[O] meu também não chegou. Sou cadastrada desde a primeira vez”, respondeu a usuária Noéle Corrêa. “É com muita tristeza que vim informar o 99 voltou ao normal. Hoje amanheceu cobrando e eu gastei meus últimos trocados”, reclamou outra usuária, identificada como Monik Almeida.
No perfil da vice-prefeitura, a usuária Fabiana Baêta também relatou a situação. “Prefeito Eduardo Braide, os vouchers não estão funcionando. Pelo menos o meu nessa greve nunca funcionou e, pelo que vejo, de várias pessoas. Por favor, precisar trabalhar”, lamentou.
Desde a segunda-feira (2), quando a greve dos ônibus entrava no 4º dia, o Atual7 questionou a gestão municipal sobre a indisponibilidade do sistema, como são definidos os valores das corridas vinculadas ao voucher e se existe algum mecanismo de controle para evitar cobranças excessivas. Os questionamentos foram enviados aos gabinetes do prefeito Eduardo Braide e da vice Esmênia Miranda (PSD), além da SMTT (Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte) e Secom (Secretaria Municipal de Comunicação). Nenhum dos procurados retornou.
A greve dos rodoviários em São Luís completa nesta quarta o 6º dia consecutivo. Desde a última sexta-feira (30), quando a paralisação foi deflagrada após os trabalhadores recusarem proposta de reajuste de 2%, nenhum ônibus urbano circulou na capital, mesmo com determinação do Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região (TRT-MA) para manutenção de 80% da frota, sob multa diária de R$ 70 mil ao Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Maranhão. Cerca de 700 mil passageiros dependem do sistema.
No semiurbano, um acordo firmado nesta terça-feira (3) previa retomada das operações, mas os rodoviários voltaram a paralisar momentaneamente por volta das 8h desta quarta, insatisfeitos com pontos do acordo. A próxima audiência de conciliação sobre o transporte urbano está marcada para quinta-feira (5), às 9h.
A cada nova paralisação do transporte público urbano, a gestão Eduardo Braide recorre ao credenciamento da 99 Tecnologia para oferta de vouchers de transporte por aplicativo. A medida foi criada pela Lei Complementar nº 07/2025, aprovada em votação relâmpago em fevereiro de 2025, e utilizada em todas as greves desde então.
Dados do Portal da Transparência da Prefeitura de São Luís mostram que, ao longo de 2025, a gestão municipal pagou quase R$ 9 milhões à 99 Tecnologia, de um total de R$ 24,7 milhões empenhados, dos quais R$ 15,2 milhões foram anulados sem qualquer explicação detalhada para controle social.
Para a greve atual, a SMTT empenhou R$ 362 mil em favor da 99 Tecnologia no dia 29 de janeiro, véspera da deflagração do movimento paredista. O valor ainda não foi liquidado nem pago.
Em dezembro de 2025, o ministro Nunes Marques, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu o dispositivo municipal que permitia à Prefeitura de São Luís descontar os gastos com a 99 dos subsídios devidos às concessionárias de ônibus. Braide não explicou, até o momento, de qual fonte orçamentária os novos vouchers estão sendo custeados.
A retenção de subsídios já provocou paralisações antes mesmo da greve geral. Em novembro de 2025, a empresa 1001 (Expresso Rei de França) parou por 12 dias por atraso de salários, afetando 15 bairros e 30% da frota. Na época, o TRT-MA determinou que o município repassasse integralmente os valores devidos. Em dezembro, porém, houve nova paralisação da 1001, por 5 dias, pelo mesmo motivo.
Desde o início da gestão Eduardo Braide, em 2021, a população de São Luís ficou sem transporte público urbano em quase dez ocasiões, entre greves gerais e interrupções isoladas de empresas. Com a greve atual, a capital maranhense acumula mais de 90 dias sem transporte público em cinco anos.
A Constituição Federal atribui ao município a competência para organizar e prestar o serviço de transporte coletivo urbano (art. 30, inciso V). A Lei Federal nº 8.987/1995, que regulamenta as concessões previstas no art. 175 da CF, define serviço adequado como aquele que satisfaz condições de regularidade, continuidade, eficiência, segurança, atualidade, acesso universal, cortesia na sua prestação e tarifas acessíveis.
O contrato de concessão firmado pelo então prefeito Edivaldo Holanda Júnior em 2016, com validade de 20 anos, previa 847 ônibus em operação, frota 100% acessível e 80% climatizada até 2023. Não há dados públicos disponíveis que permitam verificar se essas metas foram cumpridas.
Atual7


