Manifestantes entoaram slogans contra o regime dos aiatolás em várias cidades iranianas, mostram vídeos nas redes sociais. Trump diz que Irã “anseia por liberdade” e que os EUA estão “prontos para ajudar”.Manifestantes voltaram às ruas de cidades do Irã para protestar contra o regime dos aiatolás na noite deste sábado (10/01), entoando slogans antigovernamentais, apesar dos crescentes temores de uma repressão brutal no país, que está isolado do mundo por um bloqueio da internet.
ONGs relataram dezenas de mortes desde o início dos protestos, há duas semanas, inicialmente devido ao alto custo de vida. A República Islâmica enfrenta uma mobilização sem precedentes em três anos e um de seus maiores desafios desde sua fundação, em 1979.
Apesar do bloqueio da internet, que já entrou no terceiro dia, vídeos esporádicos de Teerã, Mashhad, Isfahan, Yazd e várias outras cidades foram enviados via Starlink ou por meios alternativos e publicados nas redes sociais, mostrando que os protestos continuam.
De acordo com um vídeo autenticado pela agência de notícias AFP, uma manifestação começou no final da noite de sábado num bairro da zona norte de Teerã. Fogos de artifício foram lançados sobre uma praça enquanto os manifestantes batiam panelas e entoavam slogans em apoio à dinastia Pahlavi, deposta pela Revolução Islâmica de 1979. Outros vídeos mostram manifestações em outras partes da capital.
Mais de cem mortos
O número de mortos subiu para ao menos 116, incluindo forças de segurança, segundo uma organização não governamental (ONG) criada por exilados iranianos, a Ativistas pelos Direitos Humanos no Irã, com sede nos Estados Unidos. A ONG acrescentou que o número de prisões chegou a mais de 2.600, com base em informações de uma rede de ativistas no Irã.
Não é possível verificar a veracidade desses números. A televisão estatal iraniana tem apenas anunciado as mortes entre as forças de segurança, enquanto garante que o regime mantém o controle sobre a nação, sem mencionar os manifestantes mortos, descritos como terroristas.
Os iranianos estão sem acesso à internet desde quinta-feira, após uma decisão das autoridades, segundo a ONG de monitoramento de segurança cibernética Netblocks. Esse apagão visa “ocultar a violência infligida durante a repressão”, alertaram os cineastas dissidentes iranianos Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof.
Pena de morte
Após uma grande mobilização na quinta-feira, novas manifestações ocorreram em Teerã e outras grandes cidades na noite de sexta-feira para sábado, de acordo com imagens verificadas pela AFP e transmitidas nas redes sociais via satélite.
No distrito de Saadatabad, em Teerã, iranianos entoaram slogans antigovernamentais, incluindo “morte a Khamenei”, em referência ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
O antigo príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do último xá e figura proeminente da oposição iraniana exilada nos Estados Unidos, conclamou os iranianos no sábado a “se prepararem para tomar” os centros das cidades e convocou uma greve geral.
O procurador-geral do Irã afirmou neste sábado que qualquer pessoa que participe de protestos contra o regime será considerada “inimiga de Deus”, acusação que pode ser punida com a pena de morte.
Trump: EUA estão prontos para ajudar
No sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou em sua rede social Truth Social que o Irã “anseia por liberdade” e que os Estados Unidos estão “prontos para ajudar”. Anteriormente, ele havia ameaçado “atacar o país com força” caso houvesse uma repressão violenta.
De acordo com o jornal The New York Times, o presidente dos EUA foi informado nos últimos dias sobre as opções disponíveis para possíveis ataques. O jornal, citando fontes anônimas, enfatiza que ainda não foi tomada uma decisão final, mas que o governo está “considerando seriamente” uma nova intervenção, após o bombardeio de três importantes instalações nucleares iranianas em junho.
Em Teerã, o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Qalibaf, afirmou que os militares americanos e Israel serão alvos legítimos em caso de ataque por parte dos Estados Unidos. Qalibaf, um deputado linha-dura que já concorreu à presidência, fez a ameaça enquanto deputados invadiam a tribuna do Parlamento gritando “morte aos EUA!”
Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou o total apoio da Europa às “mulheres e homens iranianos que exigem liberdade”, denunciando a repressão violenta.
Em Londres, a bandeira da República Islâmica foi brevemente substituída pela bandeira da antiga monarquia, adornada com um leão e um sol, na fachada da embaixada iraniana, por um manifestante durante um protesto com centenas de pessoas.
Protestos num país enfraquecido
O governo iraniano não enfrentava um nível de protesto como esse desde as manifestações desencadeadas pela morte sob custódia, em 2022, de Mahsa Amini, uma jovem curda presa por violar o rígido código de vestimenta para mulheres.
Os protestos ocorrem num país enfraquecido pela guerra com Israel em junho e pelos golpes infligidos a vários de seus aliados regionais, bem como pelas sanções relacionadas ao seu programa nuclear, restabelecidas em setembro pela ONU.
as (AFP, Lusa, Efe)
