Quem é a idealizadora da Ice de Floripa
Quem é a mentora por trás do ICE de Floripa?
A tensão entre Israel e Irã começou a aumentar em junho de 2025, quando a vice-prefeita de Florianópolis, Maryanne Mattos, estava no país em uma comitiva de prefeitos acompanhada pela embaixada de Israel no Brasil. Nesse mesmo período, o país liderado por Benjamin Netanyahu bombardeava Gaza diariamente, em um conflito com o povo palestino. A visita oficial tinha como propósito conhecer técnicas de segurança, e Maryanne recebeu cerca de R$ 10 mil em diárias da prefeitura para passar dias em um abrigo de proteção contra os ataques aéreos.
“Está tudo tranquilo, não há necessidade de ficar no abrigo, podemos circular livremente. Aqui eles avisam com antecedência, dando tempo para todos se abrigarem. Recebemos dois alertas durante a madrugada, às 3 da manhã, indicando possíveis ataques”, compartilhou nas redes sociais na época.
O “tudo tranquilo” coincidia com o início de um conflito armado, porém Maryanne retornou com uma proposta em mente: implementar em Florianópolis um modelo de voluntariado na segurança pública, similar ao adotado em Israel. Lá, os voluntários participam de diversas atividades, como defesa civil e patrulhamento. Segundo uma reportagem da Reuters de 2023, parte desses grupos atuou armada no início do conflito em Gaza.
“A ideia original de trazer esse projeto para cá partiu da minha vice-prefeita, Maryanne Mattos (PL). Ela esteve em Israel e percebeu a importância do movimento de voluntários e como eles contribuem para tornar as cidades melhores”, explicou o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, em entrevista ao ND Mais. O prefeito também ressaltou em discursos públicos que Maryanne trouxe a ideia e a legislação que se tornariam uma “referência em todo o Brasil”.
Desde o lançamento do ICE de Floripa em setembro de 2025 e seu início em dezembro, Maryanne tem conduzido intensas campanhas de divulgação do projeto. Com 21 anos de experiência na guarda civil e acumulando os cargos de vice-prefeita e secretária de Segurança e Ordem Pública, ela tem utilizado as redes sociais para apresentar cada fase de implementação do modelo.
O projeto de agentes voluntários na segurança pública tem gerado controvérsias em nível nacional, especialmente após a viralização de um vídeo que mostra cinco desses agentes abordando uma pessoa em situação de rua. O material está sob investigação do Ministério Público, e a Defensoria Pública também está averiguando as práticas do “ICE”, cujo nome foi associado à polícia de imigração de Donald Trump.
Quem é Maryanne Mattos?
Entusiasta de Israel ao ponto de celebrar seu aniversário com a bandeira do país, Maryanne Mattos era vereadora quando foi indicada pelo governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, para ser a candidata a vice de Topázio Neto (PSD) nas eleições de 2024. Anteriormente, ela concorreu a deputada estadual em uma chapa com a deputada federal Caroline de Toni, que se elegeu como a mais votada em Santa Catarina.
No entanto, Maryanne não conseguiu ser eleita, obtendo 4.420 votos, bem abaixo dos 196.571 que elegeram Ana Campagnolo, colega de partido que anos depois receberia a homenagem da então vereadora com a medalha Antonieta de Barros, destinada a reconhecer mulheres com trajetórias relevantes em Florianópolis.
Apesar de não ter obtido sucesso nas urnas, a indicação para vice-prefeita foi uma iniciativa de Jorginho Mello, que também emprega o marido de Maryanne, Estevão Roberto Ribeiro, como presidente na Fundação Escola de Governo (ENA). O salário de Estevão, apenas na ENA, é de R$ 24.576,97, e ultrapassa os R$ 54.200 quando somado ao que recebe como professor aposentado da universidade estadual.
O salário de Maryanne, porém, permanece um mistério. Mesmo desempenhando as funções de guarda municipal, secretária e vice-prefeita, seus dados funcionais estão bloqueados no Portal da Transparência de Florianópolis – devido a uma portaria que determinou que as informações da equipe de segurança da cidade fossem protegidas.
A imagem pública de Maryanne também está associada à religião. Além de gravar vídeos diante de uma imagem de Jesus Cristo, ela escolheu uma igreja local para compartilhar suas experiências de viagem a Israel, onde conheceu um sistema de segurança e retornou com uma experiência de turismo de guerra financiada com dinheiro público.
Batman e o culto às armas
Em sua passagem como vereadora, Maryanne se envolveu em uma polêmica. Ela foi a autora do projeto que propunha a instituição do “Dia do Batman” em Florianópolis. O projeto de lei de 2023, alvo de ironias na mídia nacional, sugeria que o dia 17 de setembro fosse incluído no calendário da cidade para “homenagear o personagem e discutir questões de segurança pública municipal”.
Embora a proposta não tenha sido aprovada, Maryanne costuma utilizar o Batman em suas ações. Ele inclusive foi convidado para sua última festa de aniversário, realizada no Jardim Botânico em um dia em que o local deveria estar fechado ao público. Além disso, o personagem já apareceu em suas redes sociais participando de ações como a blitz da balada, para identificar consumidores de álcool e distribuir adesivos para quem pode ou não dirigir.
Nas redes sociais, Maryanne é frequentemente vista fardada e com uma arma de fogo na cintura. Em diversas ocasiões, ela participou de operações, como a abordagem à população de rua, conhecida como “Operação Saturação”.
A vice-prefeita se alinha com a ideologia bolsonarista, adotando símbolos como armas para respaldar seu projeto. Além de exibir com frequência seu armamento, ela celebra a aquisição de pistolas para a Guarda Municipal e, em um evento público da Federação Nacional de Sindicatos de Guardas Municipais (Fenaguardas), criticou a restrição do porte de armas apenas para âmbito local dos agentes municipais.
No mesmo evento em que apresentou seu trabalho em Florianópolis, Maryanne incentivou que os guardas municipais ingressassem na política. “Ocupem os espaços políticos”, declarou, enquanto enaltecia a história da capital catarinense e lamentava a falta de aumento no efetivo em mais de duas décadas.
“O Sul é diferente”
A mentora por trás do ICE de Floripa também se manifestou de forma contundente sobre a chacina ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 2025. “Isso está acontecendo por termos um governo federal fraco”, afirmou, complementando em seguida: “Não podemos permitir que isso ocorra em nosso Estado. O sul do Brasil é diferente. Nosso Estado é diferente”.
De certa forma, suas palavras têm fundamento. Não há registros de “guardas informais” atuando em outras capitais do Brasil, nem de pessoas remuneradas sendo rapidamente recrutadas e denominadas “voluntárias”.
Conforme já mencionado, o efetivo dos agentes comunitários de Florianópolis é o menor do Brasil, com a guarda paralela sendo responsável por suprir a falta de profissionais capacitados. Também por meio das redes sociais, Maryanne afirmou que o projeto, inicialmente criado para a temporada de verão, continuará em operação.
“Nossa equipe seguirá auxiliando Florianópolis durante todo o ano, em diversas situações que a cidade necessitar. Estamos na capital considerada a mais segura do Brasil, e isso não é por acaso, é fruto de muito trabalho”, orgulhou-se ao comemorar o primeiro mês de atividades.
:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/X/L/2XMiSbQaG80S3YfuqLNA/publicador-api-valor-saftec-100-f7d8b87e-092f-4dde-8362-688251ca6633-20260306131554.jpeg)

