Reinventar a democracia – Meio
No recente artigo publicado no Financial Times, Martin Sandbu propõe uma revisão crítica da obra de Michael Sandel a partir de uma confissão intelectual geracional. Ex-aluno do filósofo em Harvard e participante direto do universo tecnocrático que moldou o liberalismo pós-1989, Sandbu retorna às advertências formuladas desde os anos 1980 contra a neutralização moral da política e questiona por que elas foram ignoradas justamente no momento em que pareciam mais pertinentes. O artigo não busca oferecer um diagnóstico definitivo do populismo contemporâneo, tampouco uma teoria geral da crise democrática; seu interesse está em iluminar, a partir da trajetória de uma geração, os limites históricos de um tipo específico de democracia liberal que se consolidou durante o ciclo da globalização e hoje mostra sinais claros de esgotamento.
É importante ressaltar desde já um equívoco comum. Não é sensato atribuir a uma doutrina política — como o liberalismo democrático que se destacou entre os anos 1990 e 2010 — responsabilidade moral por seus efeitos de longo prazo, especialmente quando funcionou, por décadas, de forma relativamente eficaz. Toda forma política surge em um contexto específico, responde a problemas específicos e, enquanto o faz, gera resultados que podem ser positivos. Nenhuma estrutura institucional é imutável; nenhuma solução histórica se mantém indefinidamente. Há sempre um momento em que o que “funcionava” deixa de ser adequado às novas circunstâncias e começa a falhar. O erro não está na operação passada, mas sim na tentativa de prolongar um arranjo cuja legitimidade histórica se esgotou.
É exatamente nesse contexto que o artigo de Sandbu se destaca como um ponto elucidativo para entender a crise atual da democracia liberal. O que entrou em colapso não foi a democracia liberal como um princípio normativo abstrato, mas um tipo histórico específico de liberalismo democrático, característico do ciclo da globalização. Não se trata do libertarianismo econômico em sentido estrito, nem de uma doutrina coesa ou explicitamente formulada, mas sim de um modelo prático que combinou a expansão de direitos formais, a integração econômica internacional, a estabilidade macroinstitucional e um deslocamento gradual da política para esferas técnicas, regulatórias e judiciais. Nesse contexto, a democracia passou a ser concebida menos como uma prática coletiva de autogoverno e mais como um mecanismo de gestão, apoiado por instituições autônomas, processos jurídicos e mercados autorregulados.
A participação política foi sendo substituída por delegação tecnocrática; o conflito, por governança; a deliberação pública, por expertise
Esse arranjo trouxe benefícios reais: previsibilidade institucional, crescimento econômico, redução de certos conflitos distributivos explosivos e ampliação das liberdades civis. No entanto, isso ocorreu à custa de um esvaziamento progressivo da dimensão cívica da democracia. A participação política foi sendo substituída por delegação tecnocrática; o conflito, por governança; a deliberação pública, por expertise. O cidadão passou a ser visto principalmente como um agente econômico e detentor de direitos privados, e não como um membro ativo de uma comunidade política compartilhada. O resultado foi uma democracia funcional, mas superficial; estável, porém distante; eficiente, embora carente de densidade política e de laços de pertencimento.
Nesse ponto, a revisão de Sandel proposta por Sandbu se torna relevante. A crítica de Sandel ao liberalismo predominante — especialmente à tradição iniciada por John Rawls — não se limitava a uma objeção filosófica abstrata. Ao questionar a neutralidade moral do Estado e a prioridade do “justo” sobre o “bom”, Sandel chamava a atenção para os efeitos políticos da exclusão das grandes questões de valor da esfera democrática. Quando a política deixa de deliberar sobre propósitos, méritos e o significado social do trabalho e da contribuição coletiva, essas decisões não desaparecem: elas são transferidas para mercados e especialistas. A neutralização moral, longe de resolver o conflito, apenas o torna invisível — até que ressurja na forma de ressentimento.
Os efeitos desintegradores desse modelo se tornaram progressivamente evidentes: desindustrialização, precarização do trabalho, desigualdades territoriais persistentes, uma sensação difusa de perda de controle sobre o destino coletivo. Diante disso, buscou-se, principalmente no âmbito acadêmico, uma reabilitação do republicanismo cívico como antídoto normativo a uma democracia excessivamente procedural. A intenção era reintroduzir virtudes públicas, participação, pertencimento e responsabilidade coletiva. No entanto, essa reabilitação ocorreu posteriormente, como uma correção teórica de uma estrutura já consolidada, e sem uma base social correspondente. Faltaram agentes, instituições e práticas capazes de traduzir esse ideal em experiências políticas concretas — especialmente em sociedades fragmentadas como a brasileira, onde a desconfiança mútua é estrutural e qualquer apelo ao “bem comum” é imediatamente suspeito de ser um projeto de uma facção. O resultado foi um discurso teoricamente refinado, porém politicamente inoperante: uma resposta de laboratório a uma crise que já se manifestava no tecido social.
O esvaziamento resultante teve uma consequência paradoxal. O colapso da legitimidade do modelo liberal-tecnocrático não levou automaticamente a uma reconstrução democrática, mas abriu espaço para formas regressivas de politização. A política emergiu não como uma ampliação do autogoverno, mas como uma negação da mediação institucional, sob a forma de lideranças personalistas, discursos antipolíticos e impulsos autoritários. Não é coincidência, como observa Sandbu, que os movimentos populistas contemporâneos mobilizem versões distorcidas das críticas de Sandel: atacam as elites, denunciam a meritocracia e invocam a dignidade do trabalho, mas o fazem em defesa de projetos excludentes e concentradores de poder. O vácuo normativo deixado pela democracia da globalização não foi preenchido por uma renovação cívica, mas por morais regressivas.
O que entrou em colapso não foi a democracia liberal em abstrato, mas a legitimidade histórica desse tipo específico de democracia
Daí a importância crucial de não limitar a democracia liberal ao modelo histórico que vigorou entre os anos 1990 e 2010. Essa associação defensiva — que equipara democracia liberal e democracia “neoliberal” como sinônimos — acaba por aprisionar a própria ideia de democracia liberal ao seu momento de esgotamento. Nesse caso, toda crítica ao liberalismo tecnocrático automaticamente se torna uma crítica à democracia liberal como um todo, abrindo espaço para soluções autoritárias que se apresentam como as únicas alternativas ao “fracasso” liberal. O que entrou em colapso, no entanto, não foi a democracia liberal em abstrato, mas sim a legitimidade histórica desse tipo específico de democracia.
Reinventar a democracia, nesse contexto, não é uma atividade acadêmica ou uma escolha ideológica opcional. É uma tarefa histórica inadiável. E essa reinvenção não pode ser apenas institucional ou procedimental. Ela também requer uma reinsuflação com conteúdo moral, algo que o modelo liberal-tecnocrático da globalização progressivamente neutralizou. Não se trata de restaurar uma moral substancial uniforme ou impor concepções fechadas do bem comum — o que seria impossível e perigoso em sociedades culturalmente fragmentadas e polarizadas como a nossa. Trata-se, antes, de colocar no centro da vida pública valores como solidariedade, responsabilidade compartilhada, pertencimento e destino comum, reconhecendo que o próprio conteúdo desses valores sempre será objeto de disputa legítima.
Nesse sentido, reinventar a democracia implica também identificar, afirmar e celebrar a existência de uma unidade política, entendida não como uniformidade cultural ou moral, mas como uma vontade de coexistir sob regras compartilhadas e de deliberar em conjunto sobre o destino comum. As democracias não subsistem apenas com direitos individuais e garantias legais; elas dependem de algum grau de reconhecimento mútuo, de identificação recíproca e de lealdade a uma comunidade política que se reconhece como tal. O grande desafio contemporâneo é justamente reconstruir essa unidade sem recorrer a formas autoritárias de gestão do espaço público, sem suprimir o pluralismo, sem converter o pertencimento em exclusão e sem transformar a vontade de unidade em instrumento de dominação.
A tarefa que se impõe não é abandonar a democracia liberal, mas libertá-la de sua forma historicamente exaurida — devolvendo-lhe densidade política, substância moral e capacidade efetiva de gerar pertencimento. No entanto, sabemos que essa libertação não é automática: em sociedades com baixa confiança e alta polarização, o vácuo deixado pelo modelo tecnocrático pode ser preenchido mais facilmente por lideranças autoritárias do que por uma renovação cívica. A contribuição do artigo do Financial Times está em tornar essa distinção compreensível e, ao mesmo tempo, em nos lembrar que o tempo para qualquer reinvenção é limitado.
*Cientista político, editor da revista Insight Inteligência e professor do IESP-UERJ


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