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Roubos caem, mas letalidade violenta sobe em Niterói

Roubos caem, mas letalidade violenta sobe em Niterói

Roubos caem, mas letalidade violenta sobe em Niterói

Três dos quatro indicadores estratégicos que orientam as políticas públicas de segurança e são ligados aos crimes contra o patrimônio, roubos de veículo, de rua e de carga, voltaram a cair em Niterói em outubro, movimento consistente no segundo semestre. Na contramão desse cenário, a letalidade violenta subiu no mês, segundo os últimos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).

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O roubo de veículos registrou a maior queda proporcional. Foram sete casos em outubro de 2025, contra 58 no mesmo mês do ano passado, redução de 87,9%. No acumulado de janeiro a outubro, o indicador também melhorou, passando de 255 para 205 casos, uma redução de 19,6%.

Doutor em sociologia e direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor de processo penal Ozéas Lopes Filho avalia que o desempenho tem relação direta com a reorganização do policiamento na cidade:

— É resultado de ações de política pública de segurança, que inclui o Niterói Presente, câmeras espalhadas pela cidade e policiamento ostensivo, em alguns espaços até com características de policiamento comunitário. Os resultados aparecem. Niterói é uma das ilhas no estado do Rio por conta desses fatores de integração entre as polícias e a prefeitura.

O roubos de ruas também caíram em outubro. Foram 72 registros, contra 115 em outubro de 2024, uma queda de 37,4%. No acumulado, porém, o crime segue acima do período no ano anterior, 981 contra 920, alta de 6,6%, devido ao pico registrado no primeiro semestre. Desde julho, o indicador apresenta quedas sucessivas.

O roubo de carga se manteve estável na comparação mensal, com três ocorrências em outubro deste ano e quatro em outubro do ano passado, e caiu levemente no acumulado: 16 para 15 casos.

— Roubos de carga, roubos de rua, roubo de veículos, todos os crimes patrimoniais estão em queda, muito por conta desse monitoramento, do Niterói Presente e da presença policial coordenada. Mas falta bastante para termos certeza de que as curvas de baixa se manterão — diz Lopes Filho.

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Na contramão dos crimes patrimoniais, a letalidade violenta subiu. Foram seis mortes em outubro de 2025, contra uma no mesmo mês de 2024. No acumulado, porém, o indicador segue com redução de 14,5%. Foram 47 ocorrências este ano e 55 no mesmo período do ano passado.

O antropólogo e coronel reformado da PM Robson Rodrigues, do Laboratório de de Análise de Violência da Uerj, conta que representantes da prefeitura de Niterói estiveram na universidade na última quinta-feira para apresentar o Pacto Niterói Contra a Violência. Ele diz que o modelo lembra iniciativas feitas em outros estados, como Pernambuco, baseadas em integração e monitoramento constante.

— Pelo que vimos, há um desenho racional sendo construído. Eles estão monitorando indicadores, entendendo os fatores que influenciam o crime e tentando agir de forma integrada. É um caso interessante de se estudar — avaliou Rodrigues.

Ele ressaltou que a Uerj, como instituição independente, vai analisar com isenção os dados e os resultados apresentados.

— Não são só ações típicas de policiamento. Há ações de prevenção também. Policiamento e prevenção juntos formam uma estratégia muito eficaz, e há experiências bem-sucedidas na América Latina nessa linha — afirmou.

O pesquisador disse ainda que será necessário observar se operações estaduais mais intensas na Região Metropolitana podem influenciar a letalidade no município:

— Há um aumento de operações no estado. Precisamos entender até que ponto isso pode explicar variações e se isso vai se refletir em Niterói.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que o 12º BPM vem adotando “medidas voltadas à prevenção de crimes”, com base no monitoramento diário da mancha criminal e no direcionamento de equipes para áreas de maior incidência. Segundo o comando, a queda de indicadores estratégicos reflete o policiamento ostensivo e a integração com outros órgãos de segurança.

A Polícia Civil afirmou que realiza “sucessivas ações da Operação Torniquete”, voltada para reprimir roubos, furtos e receptação de cargas e veículos, delitos que, segundo a corporação, financiam facções criminosas. A instituição destacou também o uso de inteligência para monitoramento de grupos criminosos e o trabalho conjunto com a PM. “Desde o início da operação, foram mais de 680 presos e 500 veículos recuperados”, informou em nota.

Já a prefeitura disse que os resultados positivos refletem planejamento, investimentos permanentes e integração com as forças de segurança. Citou o Centro Integrado de Segurança Pública (Cip), que opera com mais de 600 câmeras e portais de monitoramento 24 horas e já contribuiu para recuperar mais de 650 veículos, e, entre as ações, destacou a ampliação das vagas do RAS da Polícia Civil e investimentos em efetivo e viaturas.

Segundo o município, o Pacto Niterói Contra a Violência, cujo segundo ciclo está em elaboração para 2026, tem como objetivo aprofundar estratégias de prevenção, inteligência e integração entre órgãos.

De quarta a sexta-feira, Niterói vai sediar 30ª Cúpula da Rede Mercocidades, evento internacional que reunirá no Caminho Niemeyer representantes de municípios latino-americanos para debater caminhos sustentáveis, pacíficos e resilientes para o futuro urbano. Como parte da programação, o Fórum de Segurança Pública em Perspectivas Transversais será realizado antes da abertura, na terça, com participação aberta ao público e foco em boas práticas e projetos relacionados ao tema da cúpula. A proposta é promover conexões de experiências regionais e internacionais sobre segurança urbana e inclusão.

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