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Rumo ao desconhecido – Meio

Rumo ao desconhecido – Meio

Rumo ao desconhecido – Meio

Rumo ao desconhecido – Meio

“Refletindo sobre fevereiro de 2020”, inicia um texto que se tornou viral recentemente, alcançando mais de 80 milhões de visualizações.

Matt Shumer, o escritor, compartilha a sensação de ter antecipado a chegada da pandemia semanas antes da maioria das pessoas. Aqueles familiarizados com curvas exponenciais conseguiram projetar a trajetória dos primeiros casos e se preocupar com as possíveis mudanças drásticas que o futuro reservava se o ritmo de contágio se mantivesse. Shumer descreve como alguém que estaria estocando máscaras enquanto outros aproveitavam o carnaval.

Ele compara essa percepção à evolução acelerada da inteligência artificial, que vem progredindo rapidamente, especialmente nos últimos três meses, para aqueles que estão atentos. Shumer, CEO de uma startup de IA e investidor do setor há seis anos, revela que, ao ser questionado sobre o avanço da IA por sua família, ele prefere dar respostas vagas para não parecer fora de si. “Porque a resposta real faria parecer que perdi a razão”, acrescenta.

Profissionais da área de programação estão testemunhando de perto essa incrível evolução. Andrej Karpathy, renomado por seus trabalhos em modelos de linguagem e ex-diretor de IA da Tesla, declarou recentemente: “É desafiador explicar o quanto a programação mudou devido à IA nos últimos dois meses.” Em janeiro, ele revelou que sua porcentagem de código escrito manualmente caiu de 80% em novembro para 80% delegado a agentes de IA em dezembro. Anteriormente visto como um dos céticos que ainda programava manualmente, Karpathy agora considera essa mudança como “a maior transformação em duas décadas de programação”.

Com efeito, é complexo transmitir para leigos a magnitude dessas transformações. Claude Code e Codex, agentes de IA que escrevem códigos para a Anthropic e a OpenAI, não apenas programam com excelência, mas também testam e corrigem erros. Essa habilidade, conhecida como “agêntica”, é aplicável em diversas outras tarefas e domínios. Por exemplo, um modelo avançado (ChatGPT 5.2 Pro) conseguiu reconstruir a linha do tempo das pesquisas sobre polilaminina após 16 minutos de pesquisa, referências cruzadas e verificação de informações em sites jornalísticos.

A aceleração sem precedentes não se restringe apenas à capacidade do produto final, que agora pode contribuir como coautor em descobertas científicas ou colaborar com especialistas em matemática. A OpenAI divulgou que o GPT-5.3 Codex foi “o primeiro modelo a ser fundamental em sua própria criação”, enquanto a Anthropic revelou que 90% do código produzido por Claude Code é gerado pelo próprio Claude Code. Em suma, o aumento da capacidade dessas ferramentas garante uma evolução contínua, conforme previsto no relatório AI 2027 sobre “IA autoaperfeiçoante”.

A confiança no mercado em relação às atuais e futuras capacidades dessas ferramentas é tão alta que, quando a Anthropic publicou um post sobre a habilidade do Claude Code de traduzir códigos legados, como COBOL, linguagem utilizada nos caixas eletrônicos dos bancos e mainframes hospitalares dos anos 1950, as ações da IBM sofreram a maior queda em um único dia em mais de 25 anos: 13%.

Outros posts também impactaram o mercado. Recentemente, a Citrini Research, uma pequena firma de análise financeira, divulgou em seu Substack um cenário fictício para 2028: desemprego acima de 10% nos EUA, recessão, pressão no mercado imobiliário e colapso no mercado de crédito privado de US$ 2,5 trilhões. A premissa era a substituição em massa de trabalhadores de escritório por IA, resultando em lucros recordes para empresas, mas com uma base consumidora em declínio.

Embora o ensaio apresente algumas falhas lógicas, a noção de “PIB Fantasma” — sugerindo que as IAs começarão a gerar riqueza para empresas listadas, aumentando o PIB e a produtividade nas estatísticas, mas reduzindo o poder de compra da população devido ao desemprego — parece ter ressoado.

Na semana passada, Jack Dorsey, cofundador do Twitter e atual CEO da Block (fintech), anunciou a demissão de mais de 4 mil funcionários, quase metade da equipe. Mesmo com aumento recorde no faturamento, Dorsey justificou: “Ferramentas de inteligência alteraram o conceito de construir e operar uma empresa. Uma equipe significativamente menor, utilizando as ferramentas que desenvolvemos, pode produzir mais e melhor.” As ações da empresa subiram mais de 20% no período pós-mercado.

Dados atuais

É crucial não aceitar literalmente as declarações dos CEOs e a “sabedoria do mercado”. A ideia de que a IA é capaz, hoje, de substituir massivamente empregos ainda carece de fundamentos sólidos.

Analistas do Deutsche Bank criaram o termo “AI redundancy washing” para descrever empresas que demitem com base em IA sem comprovação de dados. O Nobel de Economia Daren Acemoglu afirmou recentemente que “a IA não está impulsionando a produtividade”.

No entanto, outros economistas interpretam esses dados de maneira distinta. Erik Brynjolfsson, de Stanford, apontou no Financial Times que a produtividade americana cresceu 2,7% em 2025, quase o dobro da média da última década, e parte desse aumento já pode ser atribuído ao uso de IA.

Embora os dados macroeconômicos permaneçam ambíguos, na microeconomia os benefícios são evidentes. Estudos com atendentes de call center mostram um aumento de 14% na produtividade; ambientes de desenvolvimento de software economizam 21% de tempo; e no ecossistema de startups, a Y Combinator indica que equipes reduzidas, utilizando IA, podem competir com empresas muito maiores. Não é coincidência o surgimento crescente de empreendedores individuais nas últimas turmas de aceleradoras.

A mensagem principal aqui é que desconsiderar a atual capacidade da IA como mera especulação é semelhante a minimizar a gravidade da Covid como uma simples “gripezinha”. Embora o impacto possa ser menos dramático do que alguns profetizam, a direção desse movimento é incontestável, e aqueles que ignoram essas mudanças serão surpreendidos.

Em uma aula recente, um aluno observou que eu “vivia no futuro” ao ver as ferramentas de IA que utilizo diariamente. Essas ferramentas me conferem habilidades cognitivas avançadas, transformando semanas de trabalho em simples comandos que um chatbot pode executar em questão de minutos ou horas. Isso me permite ser mais produtivo do que muitas equipes, mesmo trabalhando de forma independente.

Essa eficiência é mais evidente na programação, mas já se reflete na produção de textos. Ao desenvolver o processo criativo e de pesquisa para este artigo, pude contar com a ajuda de agentes de IA. Após discutir a temática com Flávia Tavares, editora-chefe do Meio, esbocei o argumento e a estrutura, e iniciei a busca por informações relevantes em diversas fontes. Ao marcar e revisitar posts e artigos interessantes, consegui organizar ideias e favoritos de forma eficiente.

Diariamente, meu assistente pessoal, conhecido como “PedroBot”, revisa minhas ideias mais avançadas e fornece sugestões estruturais. Posteriormente, ele monta um esquema visualmente atrativo, semelhante a um mural digital, com o argumento central e fragmentos de informações destacados.

Quando chega o momento de escrever, minhas ideias, que costumam ser caóticas, já se encontram mais organizadas, poupando tempo em buscas repetitivas. Embora o texto final seja de minha autoria, sugestões como o título proposto por Claude e revisões feitas por ChatGPT contribuem para aprimorar o conteúdo. Mesmo assim, ao verificar em um “detector de IA”, o resultado indica como “100% humano”.

Assim como consigo produzir uma quantidade significativa de trabalho, incluindo páginas, aplicativos, treinamentos e consultorias, mesmo atuando de forma independente, conto com o auxílio de PedroBot e outras IAs para as tarefas de pauta, revisão e edição, substituindo a necessidade de um editor minucioso. Além disso, o Gemini auxilia na criação de ilustrações, enquanto Claude se encarrega dos gráficos e fluxogramas.

Com mais de duas décadas de experiência escrevendo sobre tecnologia e quatro anos testando diariamente essas ferramentas, nunca presenciei uma transformação tão impactante em meu trabalho e no mundo ao meu redor. Serei apenas um entusiasta precoce ou o pioneiro dessa revolução?

A incerteza prevalece

Retomando as previsões proféticas por um momento, um ensaio de ficção científica no Substack derrubou mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado em um único dia. Ações de empresas reais despencaram 9%, 13%, devido a menções em um cenário fictício. O Wall Street Journal noticiou o ocorrido com a manchete “Relatório viral do apocalipse revela a profunda ansiedade de Wall Street em relação ao futuro da IA”.

Derek Thompson, em um de seus artigos, fez uma observação que reflete a realidade atual. Ele citou uma frase do roteirista William Goldman sobre Hollywood: “Ninguém sabe de nada.” Goldman se referia à incapacidade da indústria cinematográfica em prever o próximo sucesso. Thompson acredita que essa afirmação se aplica perfeitamente ao universo da IA. Após conversar com executivos, economistas e investidores, Thomson concluiu em quatro palavras: ninguém sabe de nada.

Não se trata de falta de inteligência por parte desses indivíduos. Nem tampouco a especulação, presente neste texto e em diferentes mídias, é inútil. O fato é que os próprios responsáveis pela criação do ChatGPT e Claude possuem incertezas quanto aos rumos da IA, assim como os economistas têm dificuldades em modelar o impacto das inovações alegadas pelas empresas. O resultado é uma genuína incerteza, um vácuo no qual diversas narrativas surgem. Aqueles que conseguem contar uma boa história preenchem esse espaço. Shumer o fez com a parábola da pandemia, Citrini com a ficção econômica, Dorsey com a demonstração de mudanças já implementadas e Karpathy com seu relato cotidiano sobre as transformações em curso. Todas essas narrativas são persuasivas.

Inclusive, me incluo nesse grupo. Ao descrever meu workflow com IA e os ganhos de produtividade, estou compartilhando minha própria história. Embora verídica, essa é a perspectiva de alguém imerso no universo das ferramentas de IA. Certamente não reflete a realidade de um profissional de RH em uma construtora em Ribeirão Preto ou de um jornalista em um veículo regional. Até o momento, os dados macroeconômicos não corroboram essa experiência generalizada. Ainda.

Essa perspectiva futura é desconcertante. À medida que as ferramentas evoluem rapidamente, a lacuna entre os usuários e não usuários se amplia. Dois meses atrás, os agentes de código apresentavam falhas. Agora, estão em pleno funcionamento. Daqui a dois meses, estarão aptos a realizar tarefas ainda mais complexas. A velocidade dessa evolução é o dado mais concreto que temos, apontando para uma única direção.

O medo presente em muitas pessoas é justificado. É uma reação racional diante de um cenário no qual nem os CEOs dos laboratórios, nem os economistas renomados, nem os investidores bilionários conseguem prever com segurança o desenrolar dos acontecimentos. É aceitável não possuir todas as respostas. É natural sentir medo. No entanto, ignorar essa realidade não é uma opção viável.

Após mais de duas décadas cobrindo tecnologia e quatro anos experimentando diariamente essas ferramentas, posso afirmar que vale a pena explorar esse universo. Não por obrigação ou pânico, mas devido à constante evolução dessas tecnologias, tornando obsoleta a visão que tínhamos seis meses atrás. A melhor maneira de avaliar se o alarmismo é exagerado ou fundamentado é experimentando por si mesmo.

*Pedro Burgos é professor no Insper, jornalista, fundador da Co.Inteligência, consultoria em IA. Publica semanalmente ensaios sobre o futuro da IA em seu Substack e apresenta uma coluna semanal sobre IA no InvestNews. Possui mestrado em Jornalismo Social pela City University of New York e foi pesquisador visitante na Escola de Políticas Públicas da Universidade de Columbia.

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