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Sem Bolsonaro, extrema direita aposta no PL Antifacção para 2026

Sem Bolsonaro, extrema direita aposta no PL Antifacção para 2026

Sem Bolsonaro, extrema direita aposta no PL Antifacção para 2026

Muitos fatores sociais, políticos e tecnológicos explicam a ascensão da extrema direita no Brasil desde meados dos anos 2000. No entanto, três promessas foram centrais para explicar sua força na esfera pública: recuperar a economia, estancar a corrupção e combater o crime.

A promessa econômica ganhou tração em função das crises vividas no final do primeiro governo Dilma Rousseff. Naquele período, o brasileiro voltou a conviver com níveis elevados de inflação, especialmente de alimentos. Também houve queda significativa nos níveis de emprego e renda, esvaziando a sensação de bem-estar e as expectativas de mobilidade social fomentadas durante os governos Lula 1 e 2.

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As razões dessa crise (como de toda crise) eram múltiplas, incluindo o fim do boom das commodities e as instabilidades políticas e no ambiente de investimentos geradas pela operação Lava Jato. Mas também incluíam o intervencionismo e o que, à época, era comumente chamado de o “decisionismo” de Dilma – uma abordagem à qual o setor privado resiste, ainda que dela tenha se beneficiado depois da crise de 2008. Fato é que ficou impossível dissociar a crise de Dilma e, por extensão, do PT.

Já a promessa anticorrupção encontrou espaço em função da descoberta, em 2014, de um esquema de ilícitos de grandes proporções (a citada Lava Jato). O tema se tornou cada vez mais central pela forma como foi politizado não só pela imprensa, mas também – como depois ficou escancarado – pelo próprio juiz Sergio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol à frente da operação.

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A “corrupção” da Lava Jato (entre aspas, porque nem tudo era propina) não era uma exclusividade do PT. Alcançava praticamente todos os partidos – e, inclusive, individualmente, muitos dos políticos que faziam discursos inflamados em favor da operação. 

Onyx Lorenzoni, que discutia as 10 medidas em almoços com procuradores e depois chegou a ser ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, foi acusado de receber pagamentos tanto da Odebrecht quanto da JBS. Desses últimos, foi livrado por um providencial acordo de não-persecução penal. A conta salgada, mais uma vez, ficou para o PT e para Lula.

A terceira e última promessa estava ligada à segurança. Que segurança foi – e continua sendo – um problema no Brasil, não há dúvida. A violência, especialmente a letal, havia crescido ao longo dos anos 2010 – em grande parte fomentada pela expansão de organizações criminosas. 

Os governos democráticos, inclusive o do PT, não fizeram o suficiente. Priorizaram agendas econômicas e sociais – no caso do PT, aliás, sob uma percepção equivocada de que o combate à pobreza e à desigualdade teria resultados no plano da segurança. Faltou-lhes a ousadia necessária para confrontar a fragmentação de competências imposta pela Constituição de 1988 que, em matéria de segurança, manteve o status quo da ditadura.

Mas às vésperas de novas eleições em 2026, está cada vez mais difícil para a extrema direita trabalhar com esse roteiro.

No campo econômico, fracassou a previsão de Paulo Guedes, ex-ministro da Economia de Bolsonaro, de que o Brasil se tornaria uma “nova Venezuela” em seis meses. A inflação está controlada, o desemprego é o menor em anos, o dólar caiu e a bolsa se recuperou.

Derrite conversa com o presidente da Câmara, Hugo Motta, durante a votação do PL Antifacção (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

No que diz respeito à corrupção, a extrema direita perdeu autoridade ao patrocinar a chamada “PEC da bandidagem”, que mobilizou setores progressistas e ampliou a percepção de oportunismo legislativo.

Restava, então, o tema do crime. Aqui, a extrema direita já atuava na defensiva. Rompendo com uma inércia histórica, o governo apresentou uma PEC para promover a articulação entre União e estados, além de um projeto de lei com foco no combate a organizações criminosas. 

Também deflagrou uma operação – a Carbono Oculto – que desmontou um sofisticado esquema de falsificação de combustíveis e lavagem de dinheiro do qual participava o Primeiro Comando da Capital, PCC.

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, do PL, quis sair para o contra-ataque com uma operação sanguinária, mas que gerou algum apoio popular. E o secretário de segurança pública do governo de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Guilherme Derrite, foi destacado para relatar o PL Antifacção apresentado pelo governo. 

A movimentação visava abrir caminho para Tarcísio como candidato à Presidência. Mas a estratégia fracassou.

‘Derrite e a extrema direita entregam apenas munição retórica, destinada a manter a própria tropa mobilizada’.

Derrite propôs classificar facções criminosas como organizações terroristas, abrindo precedentes arriscados para a soberania e afetando interesses econômicos. O empresariado reagiu. O texto ainda restringia atividades da Polícia Federal, a PF, reconhecida pela excelência, e, em um dos rascunhos, até a capacidade de membros do Ministério Público investigarem o crime organizado. Mídia e especialistas bateram.

Na noite de terça-feira, 18, a Câmara aprovou uma sexta versão do PL. Além de insistir em reduzir o papel e a relevância da PF, o texto se limitava a aumentar penas. Recebeu ainda aditivos claramente inconstitucionais, como a previsão de que presos provisórios não votem. Quem não foi condenado não pode sofrer privação de direitos políticos.

O resultado é um projeto cujo efeito concreto no combate às facções é nulo. Mas sua pretensão política é inequívoca: preservar a última trincheira discursiva da extrema direita. 

Por ora, ficamos assim. O país cobra coordenação federativa, inteligência e políticas consistentes de segurança pública, mas Derrite e a extrema direita entregam apenas munição retórica, destinada a manter a própria tropa mobilizada. O inimigo real agradece.

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