×

TCU pauta investigação sobre bancos por venda casada em financiamento do agro

TCU pauta investigação sobre bancos por venda casada em financiamento do agro

TCU pauta investigação sobre bancos por venda casada em financiamento do agro

TCU pauta investigação sobre bancos por venda casada em financiamento do agro

O plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) poderá analisar nesta semana uma proposta preliminar de fiscalização sobre a possível prática de venda casada no crédito rural. O tema voltou ao foco do setor agropecuário diante do cenário mais restritivo de financiamentos, com a alta de juros e endividamento no campo.

As acusações são de que as liberações de empréstimos aos produtores estariam condicionadas à suposta aquisição de outros produtos bancários, como seguros, títulos de capitalização, consórcios e investimentos, caracterizando a venda casada, prática proibida pelo Código de Defesa do Consumidor.

A fiscalização foi proposta pela deputada Coronel Fernanda (PL-MT) e aprovada pela Comissão de Agricultura da Câmara no final do ano passado. Agora, o TCU irá decidir se prossegue com a investigação das irregularidades. Além da venda casada, a intenção é analisar a transparência de taxas e encargos cobrados dos produtores nas operações de financiamento da produção, bem como a governança e os controles internos das instituições financeiras públicas federais na execução do crédito rural.

A fiscalização, que está na pauta do plenário do TCU desta quarta-feira (28/1), abrangerá as operações dos bancos federais e a atuação do Banco Central. Haverá ainda uma verificação específica das operações via Fundos Constitucionais de Financiamento do Norte (FNO), Nordeste (FNE) e Centro-Oeste (FCO). A sugestão dos técnicos do órgão é que o processo seja relatado pelo ministro Augusto Nardes, responsável por outras duas fiscalizações sobre o tema.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) afirmou, em nota, que a abertura da fiscalização ocorre em momento de juros elevados e restrição de financiamento no campo. Segundo a entidade, a investigação reforça alertas do setor sobre possíveis distorções nas operações com recursos públicos.

De acordo com a Aprosoja MT, “práticas irregulares de agentes financeiros têm aumentado significativamente o Custo Efetivo Total (CET) das operações e comprometido a finalidade do crédito rural como política pública de fomento”. Em ofício encaminhado ao TCU, a entidade mencionou cobranças adicionais, como estudos de operação, tarifas administrativas e custos em recomposições, que acabam onerando financiamentos lastreados em recursos públicos.

“O produtor percebe o acesso ao crédito rural como mais restritivo, mais caro e menos previsível, o que traz insegurança para o setor. Mesmo em linhas oficialmente enquadradas como crédito rural, tem sido comum exigências adicionais de garantias, travas operacionais, contratação de produtos acessórios que elevam o custo efetivo total, muito acima das taxas nominais divulgadas”, afirmou o coordenador da Comissão de Política Agrícola da Aprosoja-MT, Diego Bertuol.

Irregularidades

Outros dois processos abertos pelo TCU visam possíveis irregularidades no crédito rural. Um deles identificou, em relatório preliminar, financiamentos de quase R$ 30 bilhões concedidos a produtores rurais em situação irregular entre 2021 e 2024. Foram apontadas sobreposições de áreas das fazendas com florestas públicas não destinadas, unidades de conservação e terras indígenas, além de operações concedidas a imóveis com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) suspenso ou cancelado.

O Banco Central contestou os achados do órgão e a metodologia aplicada. Informações anexadas posteriormente ao processo pelo BC reduzem “drasticamente a quantidade de operações com irregularidades, de cerca de 149 mil apontadas pelo TCU para, aproximadamente, 2.272 operações”, diz despacho recente do tribunal. Com isso, o TCU decidiu realizar uma nova análise do tema.

A instituição afirmou, por exemplo, que a metodologia “incluiu indevidamente as 108.827 operações relacionadas à tipologia Unidades de Conservação, sendo que, quando aplicados filtros mínimos de consistência, o universo de operações realmente passíveis de apuração cai para apenas 878 (ou 0,8% do achado original)”. O BC argumentou que a metodologia do TCU aplicou normas vigentes em 2024 a operações de 2021, o que teria “superestimado” o número de financiamentos com irregularidades.

Nas informações enviadas ao TCU, o BC alegou que a auditoria pode “prejudicar o sistema de crédito rural e, em última análise, os produtores rurais”. Eventuais desclassificações das operações de crédito pelos impedimentos e a suspensão da isenção do IOF nesses financiamentos são apontadas como consequências generalizadas sobre os pequenos agricultores dos efeitos dos impedimentos socioambientais.

O documento do TCU relata que 91,5 mil operações concentradas em Áreas de Proteção Ambiental (APAs), como a Serra da Ibiapaba e a Chapada do Araripe, entre Ceará, Pernambuco e Piauí, possuem valor médio de transação de R$ 12 mil. Na avaliação do relator, o ministro Augusto Nardes, isso sugere “um risco de prejuízo desproporcional à população tradicional e aos pequenos agricultores caso as operações tenham que ser, de fato, desclassificadas”, escreveu no despacho.

Outro processo foi aberto no final de 2025 a pedido do deputado Afonso Hamm (PP-RS) com foco no alegado descumprimento de normas pelos bancos e cooperativas financeiras, como a imposição de condições ilegais para a renegociação de dívidas ou a renovação de contratos, especialmente no Rio Grande do Sul.

O ministro Nardes tem realizado audiências públicas no interior do Rio Grande do Sul para buscar subsídios para a auditoria. Ainda não há previsão de conclusão do caso. No pedido de fiscalização, Hamm afirma que as instituições financeiras negam prorrogações obrigatórias, o que aumenta “a insolvência, a inadimplência e as perdas de propriedades rurais”.

Procurados, o BC e o TCU não responderam. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que, no caso específico da venda casada, firmou “uma parceria em 2022 com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), justamente para orientar produtores rurais e o público em geral a identificar, se proteger e denunciar os casos que porventura ocorrerem”. Disse ainda, em nota, que “os bancos associados à Febraban seguem com rigor as normas estabelecidas pela legislação brasileira assim como os arcabouços infralegais definidos pelos seus reguladores, os quais monitoram e supervisionam a conduta de cada instituição financeira”.

Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop

Créditos