“Um ex-bolsonarista por dia”: Juca Kfouri defende diálogo fora da bolha até a eleição de 2026
Um texto assinado por Juca Kfouri* na Revista Liberta propõe uma meta que parece provocação, mas mira um problema real: a normalização da política movida a desinformação, culto de líder e desprezo por regras democráticas. No artigo “Aos terraplanistas, com esperança”, publicado em 10 de janeiro de 2026, Kfouri pede que leitores não se recusem a conversar com bolsonaristas e sugere um “desafio” simbólico: ajudar a transformar um apoiador por dia em “ex-bolsonarista” até 4 de outubro, data do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
A proposta tem endereço certo porque 2026 não é um ano qualquer. É o ano em que o país volta às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. O calendário eleitoral já está em marcha, com o primeiro turno em 4 de outubro e o segundo em 25 de outubro, conforme comunicados da Justiça Eleitoral.
Kfouri usa a metáfora do terraplanismo para descrever um tipo de adesão política que não se ancora em fatos, e sim em crenças blindadas. Aí está o ponto central do texto: quando a política vira fé fechada, discutir só com “os nossos” vira conforto, mas também vira derrota.
O que Kfouri está dizendo, de fato
O artigo parte de uma defesa simples, e incômoda: conversar. Não “passar pano”, nem tratar como normal o que seria antidemocrático, e sim tentar abrir espaço para dúvida em quem ainda pode ser alcançado pelo argumento racional e pelo constrangimento moral.
O colunista mistura crítica dura a lideranças e influenciadores com um recado pragmático: existe um contingente que não muda, mas existe outro que muda, sobretudo quando percebe contradições entre a própria vida e o discurso que consome. E, para ele, a disputa passa por aí.
Por que essa ideia aparece agora
O Brasil ainda vive o pós-trauma institucional do 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram atacadas em Brasília, episódio que o STF e o Senado descrevem como ataques antidemocráticos com destruição e consequências políticas e judiciais.
Além disso, o texto encosta num tema que segue sensível: a pandemia. Kfouri menciona estimativas de que centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas. Há análises e levantamentos, inclusive citados em reportagens e estudos, que sustentam números nessa ordem de grandeza, embora metodologias variem e o debate seja complexo.
Esse pano de fundo explica o “tom de urgência” do artigo: para o autor, não basta vencer uma eleição. É preciso reduzir o espaço social em que ideias antidemocráticas circulam como se fossem apenas “opinião”.
Conversar convence mesmo ou é só boa intenção?
Aqui entra um detalhe que tira o tema do campo do palpite e coloca no campo do método. Pesquisas sobre conversas políticas mostram que, em certos contextos, diálogo estruturado e escuta ativa podem mudar atitudes. Um exemplo muito citado na literatura é o “deep canvassing”, abordagem baseada em conversas longas e empáticas, que busca reduzir rejeição e abrir disposição para rever posições.
Isso não significa milagre, nem “virada em massa”. Significa que existe evidência de que conversas bem feitas, especialmente sem humilhação e com perguntas que forçam a pessoa a organizar o próprio raciocínio, podem produzir deslocamentos reais, ainda que pequenos. E, em eleição apertada, “pequeno” é uma palavra perigosa.
O risco da palavra “converter”
Apesar do apelo do título, “converter” carrega um problema: parece catequese. E catequese política costuma gerar anticorpos. Quando alguém se sente alvo de “recrutamento”, a tendência é endurecer, não refletir.
O próprio texto de Kfouri, no entanto, dá pistas de que ele não fala em conversão como teatro de humilhação pública, e sim como criação de dúvida e retorno ao chão dos fatos. A diferença é enorme.
Uma leitura mais realista da proposta é esta: reduzir a temperatura, desmontar boatos específicos e, principalmente, recolocar a conversa em interesses concretos, trabalho, renda, direitos, serviços públicos, e não em fantasmas fabricados.
O que muda no tabuleiro de 2026
A convocação do artigo de Kfouri funciona como termômetro de um Brasil que entra em ano eleitoral com polarização persistente e com memórias recentes de ruptura institucional. Por isso, o texto tenta empurrar o leitor para fora da zona de conforto: sair da bolha, falar com quem pensa diferente, e fazer isso antes que o calendário feche as portas.
A meta “um por dia” é mais slogan do que planilha. Mas slogans, quando acertam o nervo, viram comportamento. E comportamento, em política, vira voto.
Por O Ludivico.
*Juca Kfouri é Graduado em Ciências Sociais pela USP e colunista da revista Liberta.
