Uso militar de IA transforma big techs em alvo de guerra
Em resposta à guerra em andamento com os EUA e Israel, o Irã adotou uma nova estratégia de contra-ataque. Pela primeira vez na história militar, data centers de empresas privadas foram alvos de ataques intencionais.
Em uma era em que empresas conhecidas por comércio eletrônico, redes sociais e mecanismos de busca estão colaborando estreitamente com militares, é justo atacar seus servidores?
Três dias após os EUA e Israel iniciarem ataques conjuntos, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou ataques de drones kamikazes contra os data centers da Amazon nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, que fornecem serviços de computação em nuvem para o Oriente Médio. Os danos e incêndios resultantes interromperam o fornecimento de energia e exigiram atividades de combate a incêndios, causando interrupções nos serviços da região.
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De acordo com a emissora de televisão estatal iraniana, o objetivo dos ataques não era impedir compras ou postagens em redes sociais, mas sim evidenciar o papel desses data centers no apoio às atividades militares e de inteligência dos inimigos. Embora apenas os data centers da Amazon tenham sido atacados, um tweet da Agência de Notícias Tasnim listava várias unidades regionais, incluindo data centers da Microsoft, Google e outras empresas, consideradas “Infraestrutura Tecnológica Inimiga”, sujeitas a ataques.
Não está claro se os data centers da Amazon atacados são usados para propósitos militares, civis ou ambos. Também não se sabe se os ataques de alguma forma impediram os militares dos EUA, Israel ou seus aliados no Golfo de utilizar IA ou serviços de nuvem em seus esforços de guerra. Considerando que Amazon, Google e a empresa controladora do Facebook, Meta, são parceiras do Pentágono, os data centers agora podem ser considerados alvos militares, equiparados a fábricas que produzem armamentos.
Especialistas em direito internacional e conflitos armados afirmam que, quando operações militares ocorrem na nuvem, esta se torna um alvo militar legítimo. No entanto, a nuvem é uma abstração, uma rede global de servidores espalhados pelo mundo, servindo a aplicativos civis e ferramentas estatais. Diferenciar entre usos civis e militares é extremamente desafiador.
Segundo León Castellanos-Jankiewicz, advogado do Instituto Asser de Direito Internacional e Europeu em Haia, a legalidade se baseia em determinar se um local específico está realmente contribuindo para as operações militares de forma a favorecer o agressor.
Seções
A Microsoft, por exemplo, administra os Recursos Bélicos Integrados de Nuvem, que aumentam a letalidade militar. Essa atividade envolve o processamento de dados sigilosos, separados da tecnologia civil. Os serviços de computação em nuvem são oferecidos em regiões geograficamente distintas, com data centers físicos atendendo a diferentes propósitos, incluindo militares.
Amazon e Oracle oferecem regiões de nuvem exclusivas para o Pentágono, com localizações sigilosas. Data centers usados principalmente para fins militares são considerados alvos legítimos, de acordo com Ioannis Kalpouzos, estudioso de direito internacional.
A construção crescente de data centers tem gerado controvérsias nos EUA e globalmente, com comunidades tentando impedir essas instalações. O status desses data centers como alvos militares preocupa aqueles que vivem próximos a eles, além das questões ambientais.
Com a crescente utilização de IA em operações militares, a expansão rápida dos data centers pode resultar em vários alvos militares nos EUA. Comparações entre o impacto da guerra impulsionada por IA e armas nucleares estão se tornando mais comuns, gerando preocupações similares à Guerra Fria.
Para atender aos requisitos legais, um ataque a um data center que hospeda dados civis e militares deve ser preciso o suficiente para minimizar danos e destruir apenas os alvos militares, conforme afirmam especialistas em direito internacional.
A integração do Vale do Silício nas operações militares dos EUA tem levantado questões legais complexas, especialmente quando data centers são usados para propósitos duplos. A confusão entre usos civis e militares em data centers pode aumentar o risco de danos a civis em caso de ataques.
Os desafios em determinar alvos militares legítimos em data centers refletem a complexidade do direito internacional humanitário, especialmente quando envolvem infraestruturas de duplo uso. Os critérios para atacar um data center específico são complexos e sujeitos a interpretações diversas.
Recentemente, o modelo de linguagem Claude, da Anthropic, teria sido utilizado para acelerar ataques aéreos dos EUA ao Irã. Esse modelo foi criado em parte em um data center da Amazon em Indiana, levantando questões sobre sua classificação como alvo militar.
As exigências legais em ataques a data centers que hospedam dados civis e militares destacam a importância da precisão e cuidado para minimizar danos a civis. No entanto, a prática de guerra indiscriminada pelos EUA e Israel tem desafiado essas normas, levando a interpretações mais flexíveis em situações de conflito.
A integração cada vez mais estreita do setor de tecnologia nas operações militares levanta preocupações sobre a confusão entre tecnologias civis e militares, especialmente quando se trata de data centers espalhados pelo mundo.
“Esses data centers estão fundindo ainda mais a infraestrutura militar e civil, o que, aliado às regras de engajamento mais permissivas dos EUA e Israel, pode resultar em ataques a setores econômicos e sociais cada vez maiores”, alerta Kalpouzos.
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