Variety alerta para colapso do cinema brasileiro com vitória de Flávio
Fernanda Torres após receber o Globo de Ouro de “Melhor Atriz”, e Flávio Bolsonaro. Fotomontagem: Amy Sussman/Getty Images e Sérgio Lima/AFP
O cinema brasileiro pode enfrentar um novo período de cortes de recursos e paralisação de projetos caso Flávio Bolsonaro (PL) vença o segundo turno contra o presidente Lula (PT). O alerta é da Variety, maior revista especializada em cinema do mundo, que acompanhou as eleições durante o Festival do Rio e ouviu cineastas e produtores sobre o futuro do setor.
A preocupação ocorre em um momento de reconhecimento internacional da produção brasileira. Em 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistou o primeiro Oscar do país. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, também ganhou projeção mundial após receber dois prêmios no Festival de Cannes. A recuperação foi impulsionada por políticas culturais do governo Lula, que anunciou R$ 1,6 bilhão em investimentos no audiovisual.
O cenário contrasta com o governo Jair Bolsonaro, quando os orçamentos da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) sofreram cortes de quase 43%. O setor também enfrentou um congelamento de recursos públicos durante 18 meses. Atualmente, a indústria audiovisual brasileira gera mais de 600 mil empregos diretos e indiretos, número 58% superior ao da indústria automobilística, conforme estudo da Oxford Economics.
Durante o Festival do Rio, o cineasta Marcelo Gomes fez o gesto do “L” em apoio a Lula e foi aplaudido pelo público. Karim Aïnouz também declarou voto no presidente. Após o primeiro turno, em que Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, o clima entre os profissionais passou a ser de preocupação.
Banner do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Divulgação
“O possível retorno ao poder do mesmo grupo que governou o país entre 2019 e 2022 é uma catástrofe”, afirmou a produtora Paula Cosenza, da Trema. Ela lembrou a paralisação do audiovisual, os cortes nas universidades e na pesquisa durante o governo Bolsonaro. “As políticas públicas culturais deveriam ser políticas de Estado, mas, no Brasil, parecem ser políticas de governo”, declarou.
A publicação também aborda a investigação envolvendo Flávio Bolsonaro e o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel. O projeto teria recebido cerca de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mensagens divulgadas nas investigações mostram negociações de pagamentos entre Flávio e Vorcaro.
Marcelo Gomes destacou a importância econômica e cultural do cinema nacional. “É uma indústria reconhecida internacionalmente e que conquistou vários prêmios importantes nos últimos anos. Uma eventual mudança para um governo que não valoriza a cultura pode colocar tudo isso em risco”, afirmou.
O diretor Ricardo Alves Jr. manifestou preocupação com o resultado eleitoral. “A noite de domingo só pode ser vista como um filme de terror, ao observar o avanço da extrema direita na Câmara, no Senado e nos governos estaduais”, declarou. Para ele, eleger Lula no segundo turno é essencial para impedir a perda de direitos e a interrupção das políticas culturais.
A disputa presidencial também envolve uma investigação da Polícia Federal sobre o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro dirigida por Cyrus Nowrasteh e estrelada por Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”.
As investigações abrangem suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e corrupção relacionadas à produção cinematográfica.
O projeto recebeu aproximadamente R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Mensagens divulgadas durante as investigações mostram Flávio Bolsonaro negociando diretamente pagamentos com Vorcaro para financiar o filme.
Ele está preso, acusado de envolvimento em fraudes financeiras milionárias. Foi detido em março, depois que uma decisão judicial apontou fortes indícios de tentativa de suborno de um ex-diretor do Banco Central.


