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Why V-Dem can’t afford selectivity

Why V-Dem can’t afford selectivity

Why V-Dem can’t afford selectivity

Este artigo foi originalmente publicado em português e traduzido com o auxílio de IA para esta publicação.

Uma análise crítica de como narrativas incompletas e silêncios estratégicos podem fortalecer inadvertidamente novas formas de autocracia.

Projeto Villa e Thiago Padovan (20 de janeiro de 2026)

Para definir como democrático alguém que nunca tenha apoiado um golpe de Estado é uma falsificação. Existem outras maneiras de minar a democracia, como a conquista de hegemonia sobre a sociedade por meio de um Estado controlado pelo partido. De fato, foi o próprio V-Dem que alertou sobre isso no magistral artigo de Anna Lührmann & Staffan I. Lindberg (2019): “Uma terceira onda de autocratização está aqui: o que há de novo nisso?”

A responsabilidade da hegemonia

O Instituto V-Dem se estabeleceu merecidamente como o “padrão ouro” na medição da democracia global. Com inúmeros projetos e uma rede de 4.200 especialistas, o instituto não é mais apenas um observador acadêmico, mas um validador de legitimidade.

Governos, jornalistas, empresários e outros recorrem a esses relatórios para moldar suas opiniões e tomar decisões estratégicas.

Justamente por ocupar essa posição de hegemonia intelectual, o V-Dem carrega o ônus de que suas definições e posições moldam a realidade.

Quando o V-Dem categoriza um movimento político, cria uma narrativa. E é aí que reside nossa profunda preocupação: que o escrutínio rigoroso aplicado a certas formas de autocracia não seja aplicado, com a mesma intensidade e publicidade, a outras ameaças igualmente corrosivas à democracia liberal.

O ensurdecedor silêncio em torno do Irã

Nas últimas semanas, o mundo assistiu horrorizado à escalada da repressão e violência no Irã. No entanto, ao observar os canais de comunicação (LinkedIn e Bluesky) do Diretor do V-Dem, Professor Staffan I. Lindberg, notamos um silêncio perturbador sobre esse tema, em contraste com a cobertura (necessária) intensa da autocratização, principalmente nos EUA.

Quando uma instituição do porte do V-Dem concentra seus esforços principalmente em um aspecto do espectro autoritário, cria um “ponto cego”.

Regimes teocráticos ou de esquerda iliberal exploram esse vácuo para se apresentar como vítimas do imperialismo ou, pior, operar às sombras da crítica internacional. A repressão iraniana é tão destrutiva quanto qualquer autocracia populista atual, em muitos casos, muito pior. O silêncio, nesse caso, soa como uma priorização de tragédias democráticas.

O caso brasileiro: A perigosa narrativa da “Mudança de Rumo”

Há dois anos, temos alertado o V-Dem sobre a desconexão entre seus dados e a realidade no Brasil. Classificar o Brasil como um caso de “Mudança de Rumo Democrático” é perigoso na prática política.

  • A falácia da “Frente Ampla”: O relatório sugeriu a existência de uma “frente ampla pela democracia” e um desempenho “decente” do judiciário. Como apontamos em nossa correspondência ao V-Dem, essa interpretação ignora o fato de que parte do judiciário brasileiro, sob o pretexto de “defender a democracia”, adotou medidas excepcionais, censura e excessos que seriam condenados em qualquer democracia liberal madura, e que essa situação piorou desde então.
  • A mudança de regimes iliberais: A saída de um governo com tendências autocráticas (Bolsonaro) para outro (Lula/PT) que flerta e se alinha com regimes ditatoriais e controla o aparato estatal não constitui um “retorno à democracia”, mas sim uma mudança na estética do iliberalismo.
  • A resposta do V-Dem: Em trocas de e-mails, representantes do V-Dem argumentaram que a melhoria nas taxas de aprovação era “modesta” e que o termo “Mudança de Rumo” se refere apenas a interromper a queda, não à perfeição democrática.

Embora respeitemos a metodologia, o problema está na narrativa.

Quando o V-Dem rotula uma reportagem como “Mudança de Rumo”, veículos de imprensa, governos e influenciadores utilizam isso como um selo de aprovação para continuar minando instituições por outros meios. A nuance acadêmica se perde, e o que resta é propaganda política validada por Gotemburgo.

O colapso americano não é salvo-conduto para outros autocratas.

É claro que devemos afirmar claramente que a mudança autoritária nos Estados Unidos é um evento de grande magnitude.

Concordamos com a seriedade que o V-Dem atribui a esse fenômeno. A escalada é visível e violenta:

  • Política externa cínica: Manter relações com o regime autoritário na Venezuela demonstra que a bússola moral foi substituída por interesses opacos, distantes de qualquer intenção de democratização ou ajuda legítima ao povo daquele país.
  • Imperialismo ressurgente: Ameaças territoriais, principalmente em relação à Groenlândia, combinadas com coerção econômica por meio de tarifas contra aliados históricos da União Europeia, pintam um quadro de isolacionismo agressivo.
  • Alinhamento pró-Rússia: A postura no conflito Ucrânia-Rússia transformou os EUA em um megafone para as narrativas do Kremlin, enfraquecendo a OTAN e deixando a Europa em um estado de vulnerabilidade existencial.
  • Caos interno: A instrumentalização do ICE (Imigração e Fiscalização Aduaneira) para criar um estado de terror interno e desestabilização social é uma tática autocrática clássica.

Poderíamos continuar listando muitas outras ações; no entanto, reconhecer a autocratização americana não pode servir de cortina de fumaça para ignorar o que está acontecendo na “Internacional Iliberal”, como a revista Foreign Affairs a chamou recentemente.

O fato de os EUA estarem em crise não torna o Brasil saudável. Pelo contrário, o cenário global exige vigilância redobrada, à medida que os autocratas aprendem uns com os outros.

O Brasil na “Internacional Iliberal”: A Diplomacia da Cumplicidade

Olhando além das fronteiras nacionais, vemos a consolidação do que analistas da Foreign Affairs chamaram de “A Internacional Iliberal”, uma rede de cooperação onde as autocracias se protegem economicamente e ideologicamente das democracias liberais.

E é na política externa que o governo Lula revela sua verdadeira face, distante da imagem de “salvador da democracia” que o V-Dem ajudou a pintar.

Existem elementos factuais que desmontam a tese de um governo verdadeiramente democrático no Brasil:

  • A “Doutrina do Abraçar o Ditador”: A política de alianças do governo atual não pode ser chamada de pragmatismo, mas sim de preferência deliberada. O alinhamento sistemático com ditaduras (Cuba, Nicarágua, Venezuela, Angola, China, Rússia e Irã) e o compromisso de reabilitar a imagem de tiranos no cenário global são prova de uma afinidade ideológica profunda com o autoritarismo.
  • A falsa equivalência na Ucrânia: Ao minimizar o papel da Rússia (agressora e autocrática) e equiparar as responsabilidades com a Ucrânia (vítima de agressão e democrática), o Brasil não está defendendo a paz; está defendendo a sobrevivência do modelo autocrático de Putin, validando a lei do mais forte. Curiosamente, essa posição é semelhante à de Trump sobre esse assunto.
  • O silêncio sobre o Irã: A declaração mais recente do governo brasileiro sobre a situação no Irã é um estudo de caso em omissão. Ao não mencionar quem está perpetrando o massacre, o governo brasileiro escolhe proteger o regime teocrático em detrimento dos direitos humanos, especialmente os das mulheres, frequentemente objeto de “força” e indignação em outros lugares do mundo. As mulheres iranianas foram esquecidas pelo nosso governo. Faltando novamente ao teste mais básico de solidariedade democrática.
  • “Lavagem de imagem” via BRICS: O papel proativo do Brasil na expansão do BRICS não é acidental ou motivado apenas por interesses econômicos e comerciais; é uma validação geopolítica. Ao abrir as portas para regimes como Irã, o governo brasileiro forneceu legitimidade internacional e acesso a novos canais diplomáticos para uma teocracia. Na prática, o Brasil ajudou a transformar o BRICS em um “clube de autocratas” onde ditaduras ganham impulso financeiro e político para continuar oprimindo suas populações e minando as democracias globais sem o isolamento que merecem.
  • Alckmin ao lado de líderes terroristas: Nunca devemos esquecer a fatídica foto do Vice-Presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, na cerimônia de posse do Presidente do Irã, Masud Pezeshkian, ao lado de líderes terroristas agindo em nome do governo do Partido dos Trabalhadores.
  • A estranha química populista: Ironicamente, observamos uma recente troca de elogios e uma “química” diplomática entre Lula e Trump. Se o V-Dem considera Trump uma ameaça existencial à democracia (e nós concordamos), como podemos explicar que o suposto “campeão da democracia” no Brasil encontre tantos pontos de convergência com ele? A resposta está aqui: populistas iliberais, sejam de esquerda ou de direita, falam a mesma linguagem quando se trata de desprezo por limites institucionais e pela ordem liberal global.

O V-Dem precisa decidir se continuará analisando o Brasil com base no que o governo diz em discursos na ONU, ou com base no que o governo faz ao apertar as mãos dos maiores inimigos da liberdade do mundo.

Metodologia versus Realidade Percebida

Nossa crítica não é um ataque aos dados, mas à interpretação que ignora a volatilidade do cenário. O V-Dem reconhece que os indicadores de regimes políticos podem não refletir imediatamente os impactos dos comportamentos governamentais, e que erros de medição existem. No entanto, a insistência em narrativas otimistas sobre o Brasil ou o silêncio sobre certas autocracias sugere um viés de confirmação onde governos que “soam” progressistas recebem o benefício da dúvida que não é concedido a outros.

O V-Dem precisa prestar mais atenção a essas questões que podem ser tão letais para a liberdade quanto o autoritarismo militar.

A entrevista com a Carta Capital e a bolha dos analistas.

A credibilidade de uma instituição global não se constrói apenas com dados, mas também com a curadoria de suas interações públicas. Recentemente, em uma de suas raras aparições diretas na mídia brasileira, o Professor Lindberg concedeu uma entrevista exclusiva à revista Carta Capital, sob o título “Os EUA não se qualificam mais como uma democracia”.

A crítica aqui não está no conteúdo da análise sobre os EUA, nem no direito da Carta Capital de exercer seu jornalismo — que possui uma linha editorial histórica e legítima, embora posicionada abertamente dentro de um espectro ideológico específico. A crítica está na escolha estratégica.

Ao escolher um veículo com um viés político tão marcado para ser seu quase único porta-voz no Brasil, o V-Dem envia um sinal desastroso de partidarismo. Em um país polarizado, onde a batalha de narrativas é acirrada, um árbitro da democracia não pode se dar ao luxo de falar apenas para um lado. Isso sugere duas hipóteses preocupantes:

  1. Desconexão estratégica: <