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30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

Título: 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás

Lembro daqueles dias tão trágicos e tristes. Estava em uma atividade no Paraná com o fotógrafo Sebastião Salgado quando a tragédia ocorreu. Retornamos rapidamente para São Paulo. Sebastião conseguiu chegar a Marabá, no Pará, e suas fotos foram cruciais para expor o caso globalmente.

No mês de abril de 1996, uma multidão de 3 mil pessoas marchava no sul do Pará em direção a Belém, reivindicando assentamento em uma propriedade invadida de terras públicas e prática de trabalho escravo.

Os sem-terra seguiam pacificamente. Durante o percurso, dois pelotões da Polícia Militar do Pará cercaram a marcha dos dois lados. Os soldados estavam sem identificação e armados com armas letais.

O massacre ocorreu sob a alegação de desobstruir uma estrada que não estava bloqueada. Dezenove trabalhadores foram mortos de maneira brutal no momento e outros dois faleceram após serem hospitalizados. Mais de 70 pessoas ficaram com sequelas que comprometem suas atividades na agricultura.

A justiça foi falha. Apenas dois comandantes foram condenados a 240 anos de prisão. Passaram seus dias em luxuosos apartamentos em guarnições militares de Belém (PA).

A investigação sobre o envolvimento da mineradora Vale, denunciado pelos advogados dos comandantes, não avançou. O secretário de segurança do Pará, responsável pela ordem de desobstrução da estrada, foi inocentado.

Era o período do neoliberalismo durante o governo FHC, que menosprezava a reforma agrária. Sob pressão, a fazenda reivindicada foi desapropriada, tornando-se hoje o próspero assentamento “17 de Abril”.

O massacre teve repercussão global. O livro “Terra”, contendo fotos de Sebastião, textos do escritor José Saramago e um CD de Chico Buarque, circulou pelo mundo em exposições.

Nosso movimento realizou uma marcha nacional um ano após a tragédia. Percorremos 1.500 km até Brasília para exigir justiça e reforma agrária. Ao chegarmos em 17 de abril de 1997, a cidade parou e fomos recebidos por mais de 100 mil pessoas em um ato público em frente ao Congresso Nacional.

Após isso, o governo FHC acelerou as medidas, resultando no período com maior número de desapropriações na história da reforma agrária.

Após três décadas, continuamos na batalha, visto que a concentração de propriedade da terra aumenta progressivamente, com a expansão do modelo do agronegócio.

Atualmente, os conflitos estão mais evidentes na fronteira agrícola, onde o capital predatório explora os recursos naturais e enfrenta a resistência de comunidades camponesas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

Percebemos que o modelo tradicional de reforma agrária, baseado na democratização da propriedade da terra e integração dos camponeses na economia nacional, não é mais viável.

O Estado, a burguesia industrial e parte dos governos não demonstram interesse na reforma agrária, essencial para o progresso dos países industrializados atuais.

Atualmente, defendemos um novo modelo, a reforma agrária popular, que atenda às necessidades de toda a população brasileira. Para isso, continuamos a luta pela eliminação de latifúndios improdutivos e retomada das desapropriações.

No entanto, nosso programa também preza pela preservação da natureza, com planos de reflorestamento, desmatamento zero e produção de alimentos saudáveis.

Propomos a adoção da agroecologia e implementação de agroindústrias para beneficiar alimentos e produzir insumos.

O massacre deixou sua marca na história do país, transformando o 17 de abril em um dia de luta pela Reforma Agrária no Brasil e no mundo. Após 30 anos, as ações em memória das vítimas mantêm a chama acesa pela democratização da terra e justiça social em nosso país.

*João Pedro Stedile é economista e integrante da coordenação nacional do MST

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