Especialista critica sugestões de apostas em transmissões: ‘Enorme potencial de indução’
Por Gabriel Gomes
As massivas propagandas de casas de apostas durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026 reacenderam o debate sobre os impactos das bets na saúde mental, especialmente quando veículos de comunicação passam a estimular diretamente o público a apostar por meio da divulgação de odds em tempo real, ampliando os riscos para além do impacto financeiro.
Nas primeiras rodadas da Copa, narradores e comentaristas da CazéTV passaram a sugerir apostas durante as partidas, apresentando odds (as cotações que definem o retorno de cada aposta) e incentivando os espectadores a participar. Em 61% dos casos, as previsões terminaram em prejuízo para quem seguiu as recomendações. O programa Jogo Aberto, da Band, adotou estratégia semelhante.
Na última quinta-feira (25), a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, incluiu a CazéTV em uma investigação para apurar possíveis irregularidades na publicidade de apostas esportivas de quota fixa.
Para entender os efeitos desse tipo de exposição, o ICL Notícias conversou com o psiquiatra Lucas Spanemberg, pesquisador do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Segundo o especialista, o incentivo às apostas durante transmissões esportivas pode influenciar não apenas quem já aposta, mas também pessoas que jamais tiveram contato com esse tipo de atividade
“O impacto é muito grande. E não apenas sobre quem já aposta, mas também sobre pessoas que nunca haviam apostado”, afirma.
“Quando esse tipo de sugestão acontece durante uma transmissão de enorme audiência, como uma Copa do Mundo, existe um forte potencial de indução ao comportamento. Nosso cérebro utiliza atalhos cognitivos. Quando se associa um momento de lazer e entretenimento à promessa de ganho financeiro imediato, reduz-se a percepção do risco. Isso pode estimular pessoas que jamais apostariam a experimentar esse comportamento”, completa.
Psiquiatra Lucas Spanemberg. (Foto: Arquivo Pessoal)
Confira a entrevista completa:
ICL Notícias – O que acontece no cérebro de uma pessoa que desenvolve dependência em jogos de azar e apostas esportivas?
Lucas Spanemberg – Esse é um tema bastante importante e complexo. Envolve uma questão de saúde pública e também econômica, já que estamos vendo um grande volume de recursos financeiros sendo direcionado para apostas online.
O cérebro humano responde a incentivos e ameaças. Quando vivenciamos situações importantes para nossa sobrevivência ou que representam algum tipo de recompensa, determinadas regiões cerebrais produzem uma sensação de gratificação. É o chamado circuito de recompensa do cérebro.
Esse circuito é bastante conhecido nas dependências químicas. Quando alguém consome uma substância com potencial aditivo, ocorre liberação de dopamina e de outros neurotransmissores ligados ao prazer, levando a uma sensação de satisfação e estimulando a repetição daquele comportamento.
Hoje sabemos que as chamadas adições comportamentais funcionam de forma semelhante. Comportamentos que proporcionam gratificação imediata também ativam esse circuito de recompensa, produzindo uma resposta química e uma experiência momentânea de prazer.
As apostas esportivas funcionam justamente dessa maneira. Em vez de investir tempo e esforço em um projeto de longo prazo, a pessoa passa a buscar um atalho, alimentando a expectativa de ganhar muito dinheiro rapidamente. Essa antecipação já provoca excitação. Quando ocorre uma vitória, o circuito de recompensa é ativado novamente, reforçando o comportamento.
Pessoas mais vulneráveis tendem a ser mais suscetíveis a esse processo. O problema é que ninguém sabe exatamente qual é o seu risco individual.
Hoje vemos propagandas de casas de apostas praticamente em todos os campeonatos, transmissões esportivas e redes sociais. Qual o impacto dessa exposição constante?
É total. Talvez essa seja uma das questões mais importantes em termos de políticas públicas e saúde pública. Apesar de existir regulamentação, ela ainda é muito frágil e bastante permissiva.
Estamos vendo isso durante a Copa do Mundo. Tivemos recentemente a polêmica envolvendo uma grande plataforma de transmissões esportivas que incentivava apostas em tempo real, algo proibido pela regulamentação. Comparado a países como Inglaterra e Espanha, o Brasil ainda possui uma regulação bastante insuficiente.
Hoje o problema já ultrapassa a saúde pública. É também um problema econômico. Tivemos casos de recursos do Bolsa Família sendo utilizados em apostas, além do aumento do endividamento das famílias.
Existe um exemplo muito bem-sucedido no Brasil: a regulamentação da publicidade do tabaco. Ela reduziu significativamente o número de fumantes.
Hoje precisamos aumentar também a percepção de risco em relação às apostas. As propagandas associam esse comportamento à felicidade, diversão e sucesso, quando, na realidade, uma parcela importante das pessoas sofrerá consequências graves, inclusive perdas financeiras irreversíveis.
Se não regularmos a propaganda de outra forma e não destinarmos mais recursos para prevenção, educação e saúde, estaremos diante de um problema de grandes proporções.
Nos últimos dias houve polêmica envolvendo apresentadores sugerindo apostas durante transmissões esportivas. Qual o impacto psicológico disso?
O impacto é muito grande. E não apenas sobre quem já aposta, mas também sobre pessoas que nunca haviam apostado. Quando esse tipo de sugestão acontece durante uma transmissão de enorme audiência, como uma Copa do Mundo, existe um forte potencial de indução ao comportamento.
Nosso cérebro utiliza atalhos cognitivos. Quando se associa um momento de lazer e entretenimento à promessa de ganho financeiro imediato, reduz-se a percepção do risco. Isso pode estimular pessoas que jamais apostariam a experimentar esse comportamento.
A própria indústria conhece muito bem esse efeito. Os algoritmos mostram exatamente quanto cada real investido em publicidade gera em retorno financeiro para as plataformas. É por isso que o marketing é tão agressivo.
Acredito que exista uma corrida para captar o maior número possível de apostadores antes que a regulamentação se torne mais rígida. Enquanto isso, precisamos agir rapidamente para reduzir os danos, porque muitas dessas consequências são irreversíveis.
O vício em apostas funciona de forma semelhante à dependência de álcool e outras drogas?
Existem muitas semelhanças. Não é exatamente a mesma coisa, mas, do ponto de vista dos circuitos cerebrais, o funcionamento é muito parecido. Há ativação das áreas responsáveis pela sensação de prazer e, ao mesmo tempo, ocorre uma redução da capacidade de controle exercida pelas regiões frontais do cérebro, responsáveis por inibir impulsos.
Com o tempo, essas áreas passam a funcionar pior. A pessoa perde capacidade de controlar o comportamento e desenvolve uma necessidade crescente de continuar apostando. Surge uma espécie de fissura, acompanhada de sofrimento quando não consegue jogar.
Também ocorre um empobrecimento da vida. O indivíduo vai abandonando outras áreas importantes da existência e concentrando praticamente toda sua atenção naquele comportamento. Quando isso evolui, pode resultar em adoecimento mental, depressão, ansiedade e até mesmo suicídio.
Quais sinais familiares e amigos podem perceber quando alguém está desenvolvendo essa dependência?
Esse comportamento costuma ser muito silencioso. Existe um paradoxo no Brasil. Os cassinos físicos continuam proibidos, mas liberamos as apostas esportivas online, que podem ser feitas em qualquer lugar, apenas com um celular.
Isso dificulta muito a identificação do problema. Muitas pessoas escondem o comportamento por vergonha e pelo medo de serem julgadas.
Os sinais costumam aparecer de forma indireta: sintomas depressivos, ansiedade, irritabilidade, impulsividade e dificuldades financeiras. É muito comum que a pessoa passe a contrair empréstimos, comprometa sua renda e acumule dívidas tentando recuperar o dinheiro perdido.
Esses sinais não são exclusivos do transtorno do jogo, mas indicam que vale investigar a situação e oferecer ajuda.
Que orientação o senhor daria para quem percebe que está perdendo o controle sobre as apostas?
Existem várias iniciativas importantes. Hoje é possível fazer gratuitamente um autoteste disponibilizado pelo governo na internet, com perguntas que ajudam a identificar se o comportamento representa risco.
Também existe uma ferramenta de autoexclusão. Pelo Gov.br, a pessoa pode cadastrar seu CPF e ficar impedida de acessar plataformas de apostas por um período. Essa medida funciona como uma barreira importante para quem está com dificuldade de controlar o impulso.
Além disso, é fundamental buscar ajuda profissional, com psicólogos ou psiquiatras, principalmente quando já existem sintomas de ansiedade, depressão ou pensamentos suicidas. Também é importante conversar com alguém de confiança. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também está preparado para acolher pessoas afetadas por esse problema.
A principal orientação é não enfrentar isso sozinho. Quanto mais cedo a pessoa procurar ajuda, maiores são as chances de recuperação.


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