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Elite progressista trocou bolsa de marca por ‘crença de luxo’

Elite progressista trocou bolsa de marca por ‘crença de luxo’

Elite progressista trocou bolsa de marca por ‘crença de luxo’

Nesse contexto, a linguagem neutra é uma típica “crença de luxo”, expressão do psicólogo americano Rob Henderson para qualificar as ideias e opiniões que se prestam a elevar o status social e moral de quem as promove. Em vez de ostentar seu lugar no mundo pela posse de objetos como relógios e roupas finas, muitos passaram a usar pontos de vista, vocabulário e maneirismos associados a uma elite progressista formada por estudantes e profissionais vindos das classes média e alta, com influência na política e na cultura, diz Henderson. Adotar uma crença de luxo é como sinalizar virtude, só que à custa de prejuízo aos mais pobres.

Um exemplo sempre citado por ele é o movimento “defund the police”, disseminado nos Estados Unidos em 2020, quando, falando de suas universidades de elite e seus bairros seguros, manifestantes ligados aos democratas defenderam o corte de verbas da polícia. Para moradores de áreas violentas, significava uma tragédia anunciada. Foi algo parecido com o que ocorre hoje no Brasil quando residentes de prédios com porteiros chamam repressão policial de fascismo e atribuem o apoio dado a ela pelos que vivem na linha de tiro à ignorância, ao reacionarismo ou ao fato de não terem “entendido a pergunta da pesquisa”.

Henderson conhece bem os personagens das duas pontas dessa história. Formado em Yale e ph.D. pela Universidade de Cambridge, ele não conheceu o pai e viveu com a mãe até os 3 anos num trailer, antes de se mudar para um pardieiro em Los Angeles, de onde, por denúncias de maus-tratos, foi para orfanatos até ser adotado por uma família só um pouco menos pobre e disfuncional que a original. Salvaram-no o ingresso na carreira militar e as bolsas de estudos que obteve lá. A tese da crença de luxo, conta, nasceu do choque de, ao entrar em Yale, ver colegas falarem em privilégio branco e defenderem, além do fim da polícia, também a extinção da família. Henderson, filho de mãe coreana e pai mexicano, conviveu, na infância e na juventude, com brancos tão desgraçados quanto ele e diz que, mais que a miséria, a ausência de uma família estável foi o que mais profundamente afetou a sua vida.

Os exageros da linguagem neutra podem ter o mesmo fim que teve nos Estados Unidos a moda da declaração de pronomes. Quando até o octogenário, e pouco ambíguo do ponto de vista de gênero, Joe Biden passou a declarar que era “he/his”, os millennials se deram conta de que a prática virara coisa de tio do pavê. Da mesma forma, para Henderson, certas ideias que ele classifica como crenças de luxo — como a descriminalização das drogas e privilégio branco — poderão com o tempo se popularizar, sendo assim abandonadas pelas elites por não servirem mais para distingui-las das massas. Que, como se sabe, é um conjunto da população de que a esquerda — das universidades, da mídia e dos partidos — parece querer distância faz tempo.

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