Analista do Sebrae no Maranhão alerta que observar apenas o salário nominal é o erro mais comum no planejamento financeiro; expansão exige cálculo preciso e gestão de pessoas
Para o microempreendedor, habituado a gerenciar todas as etapas do negócio sozinho, o crescimento traz um dilema inevitável: continuar na “eu-quipe”, limitando a expansão, ou assumir o custo de contratar um funcionário? A decisão envolve não apenas a percepção do dono, mas uma matemática precisa que vai muito além do salário combinado na entrevista.
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Segundo dados do Sebrae, a falta de planejamento na gestão de pessoas é uma das causas que levam microempresas a enfrentarem dificuldades financeiras nos primeiros anos ou até mesmo a fecharem as portas. Entender o momento exato e o custo efetivo da CLT, ou de outros regimes trabalhistas, é vital para a saúde financeira do empreendimento.
O momento certo: sinais de que você precisa de ajuda
De acordo com Anderson Lee, analista técnico de Negócios do Sebrae Maranhão, não existe uma data-limite preestabelecida para realizar a primeira contratação. No entanto, a operação costuma dar sinais claros de que precisa de reforço, especialmente quando atividades vitais, como vendas e planejamento estratégico, são interrompidas por rotinas operacionais.
“O momento ideal não é quando a empresa ‘quer’ crescer, mas quando a sua estrutura atual está impedindo esse crescimento”, enfatiza o analista.
Anderson aponta os sintomas clássicos de que a empresa atingiu o teto produtivo:
- Custo de Oportunidade alto: O empreendedor passa o dia resolvendo burocracias (limpeza, postagens, emissão de notas) em vez de focar em vendas ou estratégia.
- Recusa de Demandas: É necessário dizer “não” para novos clientes ou projetos por falta de capacidade de entrega.
- Queda na Qualidade e Prazos: Surgem reclamações de clientes ou as entregas são feitas “no limite”, sem o padrão de qualidade anterior.
- Esgotamento: O empreendedor trabalha mais de 14 horas por dia, mas sente que o negócio está estagnado.
- Estagnação do Lucro: O faturamento trava porque a capacidade produtiva atingiu o limite máximo.
A matemática da contratação: quanto custa um funcionário?
Um erro comum é acreditar que ter dinheiro sobrando no caixa equivalente ao salário é suficiente para contratar. Segundo Anderson Lee, “o custo real de um funcionário no Brasil vai muito além do salário nominal”. O cálculo depende diretamente do enquadramento tributário.
No caso do Microempreendedor Individual (MEI), é permitido contratar apenas um funcionário, que deve receber o salário mínimo ou o piso da categoria. Nesse modelo, o custo para o empregador é de cerca de 11% sobre o salário, sendo 3% de INSS patronal e 8% de FGTS. Assim, um salário de R$ 1.500, por exemplo, pode representar um custo mensal aproximado de R$ 1.665, sem considerar provisões de férias e décimo terceiro.
Já para a Microempresa enquadrada no Simples Nacional, o impacto é maior. Estima-se que, ao longo de um ano, um funcionário possa custar entre 60% e 100% a mais que o salário bruto, considerando encargos como FGTS, férias acrescidas de um terço constitucional, décimo terceiro salário, além de benefícios como vale-transporte, vale-refeição e obrigações previstas em convenções coletivas.
A hora da verdade: CLT vale a pena?
Para o analista do Sebrae, a resposta é sim. “Se o empreendedor precisa de alguém que ‘vista a camisa’, aprenda os processos internos e esteja presente diariamente, a CLT ainda é o maior diferencial de retenção para profissionais qualificados”, explica Lee. No entanto, dependendo da necessidade do negócio, outros regimes podem ser considerados.
A contratação como pessoa jurídica, por exemplo, costuma ter menor custo e foco na entrega, mas não permite subordinação, cumprimento de horário fixo ou pessoalidade, sob risco de caracterizar vínculo empregatício.
O trabalho intermitente, por sua vez, permite o pagamento apenas pelas horas ou dias trabalhados, sendo indicado para períodos de pico de demanda, embora gere menor engajamento.
Já a contratação de estagiários ou jovens aprendizes aparece como uma alternativa estratégica para micro e pequenas empresas, ao oferecer suporte operacional e renovação de ideias.
Checklist de Gestão
Para finalizar, Anderson Lee sugere um “checklist” antes de anunciar a vaga, garantindo que a conta feche no final do mês. De acordo com ele, é importante projetar o fluxo de caixa e garantir que exista reserva financeira para arcar com salários e encargos por pelo menos seis meses, mesmo em caso de queda nas vendas, sem contar com receitas futuras incertas.
Também é essencial ter os processos mapeados, saber explicar claramente a rotina e o padrão de qualidade esperado, além de definir o perfil comportamental do colaborador, já que, na primeira contratação, características como resiliência e proatividade costumam ser mais importantes do que a técnica.
Por fim, o empreendedor deve considerar o custo do treinamento, lembrando que, nos primeiros 30 a 60 dias, a própria produtividade pode cair enquanto o novo colaborador é capacitado.
