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Brasil tem de se preparar para seca severa

Brasil tem de se preparar para seca severa

Brasil tem de se preparar para seca severa

As precipitações recentes podem transmitir uma falsa sensação de segurança. A situação hídrica do Brasil é alarmante, conforme reportagem do GLOBO. O país enfrenta escassez de água em grande parte de seu território, especialmente no Sudeste e no Centro-Oeste. Ao longo de 40 anos, tem sido observada uma redução anual das chuvas, e o período de seca no Sudeste aumentou em 25 dias. Além de impactar o abastecimento das cidades, a situação coloca em risco a agropecuária e a geração de energia.

Não basta apenas chover. É crucial que as chuvas ocorram nos locais apropriados, como nas cabeceiras dos rios. As bacias hidrográficas do Sudeste e Centro-Oeste estão em estado de alerta, levando o Centro Nacional de Monitoramento de Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) a recomendar a gestão dos reservatórios ao longo do ano considerando o pior cenário. As altas taxas de desperdício de água tratada (cerca de 40%, segundo dados recentes do Instituto Trata Brasil) reforçam essa recomendação.

  • Reservatórios: Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica espalha efeitos pelo país

Com exceção da Região Sul, de áreas da Amazônia e parte da Bacia do São Francisco, os reservatórios encontram-se em níveis críticos. Na Bacia do Rio Grande, onde está localizada Furnas, o nível está em 30%. As bacias do Sistema Cantareira, responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo, estão com apenas 21% da capacidade, em comparação com os 60% a 70% esperados para essa época do ano — graças à contribuição da vizinha Bacia do Jaguari, no Paraíba do Sul, que forneceu metade da água recebida, apesar de seu nível estar em 34%. “Não haverá chuvas suficientes para recuperar os reservatórios, principalmente no Sudeste”, alerta o meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden.

Estamos presenciando uma mudança no padrão de chuvas. Entre 1961 e 2020, houve redução no volume de chuvas em áreas do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto houve aumento no Sul e em partes dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Na última década (2011-2020), as quedas variaram de 10% a 40%. Em Mucunaré (BA), uma região de 5.700 km² deixou de ser classificada como “semiárida” e passou a ser considerada “árida” — sendo a primeira região do país a passar por essa transição.

  • Crise hídrica: Nível de reservatórios do Rio Paraíba do Sul, que abastece o Sudeste, cai pela metade

A crise hídrica não é apenas resultado da redução das chuvas decorrente das mudanças climáticas, mas também do desmatamento, especialmente nas áreas de nascentes. Menos vegetação resulta em menor evaporação, o que significa menos vapor d’água disponível para formar chuvas (a evaporação em áreas de pastagem equivale a um quinto da observada em florestas nativas). A vegetação também retém água no solo, evitando a erosão, o assoreamento dos rios e alimentando os lençóis freáticos. Um estudo do Movimento Viva Água nas bacias que abastecem a Região Metropolitana de Curitiba revelou que, em situações de seca severa, a redução no volume de água nos rios era de apenas 10% em áreas com mais de 50% de cobertura vegetal preservada, enquanto chegava a 50% em áreas desmatadas.

“Manter a cobertura vegetal e restaurar áreas desmatadas é uma medida crucial de adaptação às mudanças climáticas no Brasil e requer o envolvimento de toda a sociedade”, afirma Guilherme Karam, gerente de Economia e Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, que apoiou a pesquisa. Para isso, é fundamental a elaboração de planos de ação detalhados nos três níveis de governo, com medidas de curto, médio e longo prazos. A seca deve servir como um alerta educativo para as autoridades e a população.

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