O muro entre evangélicos continua de pé – Meio
O Brasil se encaminha para as eleições presidenciais de 2026 com as forças partidárias e ideológicas ainda enfrentando antigos dilemas em relação ao voto evangélico. Um desses desafios é a persistência em tratar o “voto evangélico” de forma genérica, como se fosse uma categoria única.
O conceito de um “voto evangélico” uniforme sempre foi um equívoco de análise. O segmento evangélico é diverso em aspectos sociais, denominacionais e políticos. Essa diversidade abrange diferenças de renda, educação, localização geográfica, práticas religiosas e orientações ideológicas. No entanto, é dentro dessa diversidade que esse segmento vem moldando o cenário político do Brasil.
Reconhecer essa multiplicidade não significa ignorar padrões eleitorais consistentes. Desde 2018, um desses padrões se tornou notável: em disputas envolvendo o PT ou candidaturas claramente ligadas ao partido, a maioria dos eleitores evangélicos tem demonstrado preferência pelo campo bolsonarista, alinhada a pautas ultraconservadoras e símbolos que evocam ameaças morais.
Os dados das últimas eleições presidenciais ilustram essa tendência. Estimativas de pesquisas realizadas pelo Datafolha, Ibope e Ipec na véspera do segundo turno das eleições sintetizam:
É a partir de 2018 que essa divisão se torna mais evidente. No segundo turno daquele ano, consolidou-se a proporção conhecida como “70 a 30”: cerca de 70% dos eleitores evangélicos votaram em Jair Bolsonaro e aproximadamente 30% em Fernando Haddad (PT-SP). Em 2022, houve pouca variação, mantendo-se em torno de 65% para Bolsonaro e pouco mais de 30% para Luiz Inácio Lula da Silva.
Análises de intenção de voto para o primeiro turno presidencial mostram que esse padrão eleitoral permanece consistente. Levantamentos que consideram disputas envolvendo nomes associados ao bolsonarismo indicam proporções semelhantes às últimas eleições presidenciais: 61%-65% para o candidato bolsonarista e 31%-33% para Lula.
Outras pesquisas específicas do eleitorado evangélico, como Meio/Ideia, Datafolha e Quaest, revelam níveis significativos de indecisão e variações conforme diferentes cenários, mas candidaturas ligadas à família Bolsonaro ou apoiadas pelo ex-presidente continuam liderando nesse segmento.
Em cenários como o confronto entre Flávio Bolsonaro e Ratinho Jr. (PSD-PR), por exemplo, Lula tende a ter um desempenho mais equilibrado entre eleitores do Nordeste, católicos e pessoas de menor renda e escolaridade, enquanto o candidato bolsonarista se destaca entre evangélicos e eleitores das regiões Sul, Sudeste e Norte/Centro-Oeste, mantendo o perfil sociodemográfico que sustentou Jair Bolsonaro desde 2018.
Outros indicadores ajudam a explicar essa estabilidade. Segundo uma pesquisa recente da Quaest, 61% dos evangélicos desaprovam a gestão do presidente Lula, enquanto 34% aprovam. Esse perfil se assemelha, em grande parte, ao eleitorado que apoiou o bolsonarismo nas eleições anteriores: mais presente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, predominantemente masculino, mais jovem e com renda mais elevada.
Esses dados não apontam para uniformidade, mas evidenciam que, dentro de um segmento diversificado, existem padrões que ajudam a compreender seu comportamento político.
Diferentes denominações e lideranças passaram a buscar maior representatividade no debate público e nas esferas políticas
Além disso, é crucial situar esse fenômeno em um contexto social mais amplo. O crescimento da população evangélica nas últimas décadas alterou significativamente o panorama religioso do Brasil e ampliou a influência política desse grupo. Paralelamente, diversas denominações e lideranças passaram a pleitear maior participação no debate público e nas instituições políticas.
Esse movimento não se restringe ao Brasil. Nas últimas décadas, várias democracias têm testemunhado o fortalecimento de identidades religiosas na esfera pública e eleitoral. No caso brasileiro, esse processo coincide com um período de intensa polarização política e reorganização partidária. Foi nesse contexto que o bolsonarismo se consolidou como uma força política capaz de reunir diversas demandas conservadoras, muitas relacionadas a questões morais, culturais e identitárias. Desde então, essa aliança tem se mantido de forma relativamente estável entre parcelas significativas do eleitorado evangélico.
Um indício interessante desse cenário surgiu nas eleições municipais de 2024. Em capitais onde a candidatura de oposição estava associada ao campo petista, como no caso de Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo, a divisão entre os eleitores evangélicos permaneceu próxima à proporção observada nas eleições presidenciais.
Por outro lado, em capitais onde a candidatura oposicionista não era claramente identificada com o campo bolsonarista, alguns candidatos conseguiram reduzir a discrepância entre os eleitores evangélicos. Foi o caso de Eduardo Paes (PSD), no Rio de Janeiro, e João Campos (PSB), em Recife. Paes quase empatou com o segundo colocado entre os evangélicos, enquanto João Campos reverteu a proporção de 70 a 30 em seu favor.
Essa variação suscita uma questão relevante: o voto é predominantemente bolsonarista ou fundamentalmente antipetista? Responder a essa questão requer cautela para evitar simplificações.
Ninguém é apenas evangélico, assim como ninguém é apenas católico, apenas mulher ou apenas trabalhador. As identidades religiosas coexistem com outras identidades sociais e políticas. Dentro do universo evangélico, existem profundas diferenças em renda, educação, afiliação denominacional e posicionamento ideológico.
No entanto, um fato persiste: desde a consolidação do bolsonarismo como polo político organizado e agregador de demandas conservadoras em torno de Jair Bolsonaro, a distribuição do voto evangélico em âmbito nacional mudou muito pouco. Ou quase nada.
Ao mesmo tempo, surge a questão recorrente no debate público: como dialogar com os evangélicos? Essa interrogação se tornou um clichê que, muitas vezes, reforça estereótipos, simplificando mais do que esclarecendo. Em vez de contribuir para uma análise precisa do fenômeno, tende a perpetuar generalizações sobre o campo religioso e os campos políticos em disputa.
De um lado, surge a narrativa de uma esquerda incapaz de se comunicar com esse eleitorado. Por outro, há a percepção de que a direita teria desenvolvido uma habilidade superior nesse aspecto. Ambas as interpretações simplificam um processo social muito mais complexo.
A divisão eleitoral estabelecida entre parte do eleitorado evangélico não pode ser explicada apenas por estratégias de comunicação ou questões morais. Ela reflete transformações sociais, institucionais e religiosas que vêm redefinindo as relações entre religião, política e esfera pública no Brasil. A insistência na mesma pergunta tem contribuído pouco para avanços analíticos.
O desafio está em compreender as mudanças de uma sociedade onde a religião recuperou sua centralidade nas disputas políticas
O desafio não reside apenas em como dialogar com os evangélicos. É fundamental compreender as transformações de uma sociedade onde a religião voltou a desempenhar um papel central nas disputas políticas.
Mudar as perguntas e abordagens analíticas é essencial. É preciso aprofundar a compreensão tanto da política quanto dos campos religiosos, ambos em constante evolução, e ao mesmo tempo realizar as autocríticas necessárias no campo progressista.
Talvez seja necessário reformular a pergunta: como a política, representada por seus agentes e instituições, deve se adaptar para ouvir uma sociedade em transformação?
O muro continua presente. No entanto, talvez a tarefa agora seja menos sobre como superá-lo e mais sobre entender por que foi construído, por que permanece de pé, o que já era conhecido há anos e o que mudou, e quais dinâmicas sociais continuam sustentando sua existência. Isso demanda dados mais detalhados sobre um eleitorado cada vez mais influente e novas questões sobre uma sociedade em constante mutação. Enquanto nos limitarmos às mesmas perguntas, é provável que o muro persista.
*Ana Carolina Evangelista é cientista política, com mestrado em relações internacionais pela PUC-SP e em gestão pública pela FGV-SP. É pesquisadora e diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Desde 2018, cobre eventos eleitorais com colunas na ‘piauí’ e no ‘UOL’.
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