Mulheres enfrentam jornada exaustiva entre trabalho, casa e cuidado da família
Título: Desafio diário das mulheres entre trabalho, lar e família
O dia começa cedo e, muitas vezes, parece não ter horas suficientes para Priscila Martins Pereira, 32 anos. Entre o emprego fora de casa, as tarefas domésticas e o cuidado com a filha, a sensação é de que o tempo nunca é suficiente.
Moradora da Restinga, na zona sul de Porto Alegre, ela trabalha seis dias por semana em uma loja de produtos para cabelos sintéticos usados em tranças e entrelaçamentos. O expediente é longo: de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e aos sábados até as 17h.
A jornada é comum na vida profissional das trabalhadoras brasileiras: escala 6×1.
“É cansativo, bastante. Porque eu tenho só o domingo. Quando chega domingo, que era para folgar e ficar com a minha filha, eu tenho que fazer tudo o que ficou acumulado dentro de casa”, relata.
O dia de descanso raramente significa descanso de fato. No único dia livre, Priscila realiza faxina, lava roupas e organiza a casa para a semana seguinte. Se decide sair com a filha ou aproveitar algum momento de lazer, o trabalho doméstico se acumula.
Quando a filha não está na escola e Priscila está trabalhando, a rede de apoio entra em ação. Separada há seis anos, ela conta com a mãe, irmãs e, às vezes, uma tia para cuidar da menina. Todas mulheres.
A rotina de Priscila reflete o cotidiano de muitas trabalhadoras brasileiras. Entre emprego, casa e cuidado da família, o tempo é escasso e a responsabilidade maior recai sobre as mulheres.
A sobrecarga invisível do trabalho
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas por semana a tarefas domésticas e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicam cerca de 11,7 horas.
Quando se soma o trabalho remunerado e o trabalho doméstico, a jornada feminina se torna mais extensa. Em média, as mulheres trabalham mais de 54 horas por semana considerando todas as atividades, enquanto os homens trabalham cerca de 52 horas. Essa diferença contribui para explicar por que muitas trabalhadoras sentem constantemente cansaço e falta de tempo.
A economista Lúcia Garcia, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), destaca que a sobrecarga feminina está ligada à distribuição desigual do trabalho na sociedade.
Segundo Garcia, além do emprego formal, muitas mulheres acumulam afazeres domésticos, cuidado com filhos, idosos ou familiares doentes. É o chamado trabalho invisível.
Desigualdade no mercado de trabalho
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, de 2025, indica que a taxa de desemprego entre mulheres permanece superior à dos homens no Brasil.
No período, a taxa foi de cerca de 6,2% entre as trabalhadoras, enquanto entre os homens ficou em torno de 4,2%. A desigualdade é mais evidente ao considerar o recorte racial: entre mulheres pretas ou pardas, a taxa de desocupação chegou a aproximadamente 7,5%.
A informalidade também afeta mais as mulheres, com uma parcela significativa em ocupações sem carteira assinada ou com menor proteção social, especialmente entre mulheres pretas ou pardas.
As disparidades também se refletem nos rendimentos, com as mulheres recebendo em média salários 22% menores do que os homens, mesmo em cargos e níveis de escolaridade semelhantes.
Segundo Garcia, fatores como gênero, classe social e raça se combinam para agravar essas desigualdades.
Jornadas que ultrapassam os limites
A sobrecarga de trabalho também é uma realidade para mulheres que atuam de forma autônoma ou em projetos sociais, como Cenira Vargas da Silva, ligada à Cozinha Solidária e Comunitária Arte Mãe.
Ela divide o tempo entre um pequeno comércio e o trabalho voluntário na comunidade, servindo almoços para moradores locais.
Para ela, a jornada das mulheres muitas vezes vai além do que é visível nas estatísticas. “A gente fala da jornada 6×1, mas muitas mulheres vivem uma jornada 7×7”, destaca.
O valor oculto do cuidado
Especialistas apontam que o trabalho de cuidado exercido principalmente por mulheres tem um impacto significativo na economia, apesar de não ser contabilizado oficialmente. Se fosse mensurado economicamente, poderia representar cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, de acordo com dados do IBGE.
Esse conjunto de tarefas, como cozinhar, limpar, cuidar de crianças, idosos ou doentes, é realizado principalmente por mulheres e frequentemente sem remuneração.
Para Garcia, essa realidade revela que as desigualdades no mercado de trabalho vão além dos salários. “Existe uma estrutura social que faz com que as mulheres assumam a maior parte das tarefas de cuidado”, destaca a economista do Dieese.
Redução da jornada em discussão
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 estão no centro das reivindicações do movimento sindical. Representantes da CUT-RS defendem a redução da jornada sem redução salarial, destacando que as mulheres são as mais prejudicadas pela jornada exaustiva.
Para eles, a mudança não beneficiaria apenas os trabalhadores, mas também as empresas, resultando em melhor desempenho e mais tempo para a vida pessoal.
Debate além dos impactos econômicos
Para especialistas e representantes dos trabalhadores, o debate sobre a jornada de trabalho não deve se limitar aos impactos econômicos para as empresas.
Garcia destaca que a redução da jornada é uma pauta histórica das lutas trabalhistas, fundamental para melhorar as condições de trabalho e a qualidade de vida das pessoas.
Lauermann enfatiza que a discussão deve considerar a realidade dos trabalhadores, sustentando que a produção e os serviços dependem do esforço desses profissionais.
Mais tempo para viver
Enquanto as discussões avançam, Priscila Pereira acompanha com expectativa a possibilidade de mais tempo para si e para a filha, vislumbrando um futuro com mais equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Desde os 18 anos, ela enfrenta jornadas exaustivas, mas agora almeja ter mais tempo em casa e investir em projetos próprios.
Para Priscila, uma jornada de trabalho mais equilibrada não beneficiaria apenas os trabalhadores, mas também as empresas, melhorando a produtividade e a qualidade de vida de todos os envolvidos.

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