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Caiado, Flávio Bolsonaro e a corrupção – Meio

Caiado, Flávio Bolsonaro e a corrupção – Meio

Caiado, Flávio Bolsonaro e a corrupção – Meio

Caiado, Flávio Bolsonaro e a corrupção – Meio

Hoje o senador Sergio Moro, postulante ao governo do Paraná, oficializou sua filiação ao PL de Valdemar Costa Neto. Ao seu lado, estava, além de Valdemar, um sorridente Flávio Bolsonaro, estabelecendo sua candidatura à presidência na República de Curitiba. Moro contava com Deltan Dallagnol, candidato ao Senado na mesma chapa.

Esse movimento tem impacto local, porém reverbera em âmbito nacional. Confirma a desistência de Ratinho Jr. em concorrer à Presidência. E, tudo indica, impulsiona Ronaldo Caiado para a posição de representante do PSD na corrida presidencial.

Caiado ainda não foi oficializado como a escolha de Gilberto Kassab, certo? Eduardo Leite tem grande interesse em se tornar o candidato. E até cogitou-se a possibilidade de Romeu Zema, do Novo, migrar para o PSD para concorrer por lá. Contudo, os bastidores de Brasília indicam Caiado como a escolha certa.

Então, vamos considerar esse cenário. Vamos supor que, em 2026, os nomes nas urnas sejam Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

O que Ronaldo Caiado fará nessa corrida eleitoral é, sinceramente, uma incógnita. E existem diversas possibilidades.

A primeira interpretação, a mais simplista, é a de que, sem uma terceira via que represente uma alternativa real ao petismo e à direita radical — seja ela bolsonarista ou conservadora tradicional —, essa se tornará uma corrida de rejeições. Os anti-Lula se concentram em torno de Flávio, que surge com maiores chances de vitória. Enquanto os anti-Bolsonaro se unem em apoio a Lula pelo mesmo motivo. Paradoxalmente, a entrada de Caiado pode acelerar a polarização que o PSD afirma querer evitar.

Existe uma interpretação mais otimista para Caiado. As pesquisas indicam que Caiado não rouba votos de Lula. Ele tira votos de Flávio, precisamente. Nas pesquisas Quaest de março, com Caiado na disputa, Flávio cai para 32% no primeiro turno e Lula lidera com margem de vantagem — algo que não ocorre na maioria dos outros cenários. Na pesquisa Meio/Ideia do mesmo mês, com a presença de Caiado, Flávio alcança 35% e Lula chega a 40%, enquanto nos cenários sem candidato do PSD os dois empatam tecnicamente.

Flávio Bolsonaro tem se esforçado para se apresentar como o “Bolsonaro moderado”, distanciando, na medida do possível, suas declarações das mais radicais de seu pai. Ele reconhece que seu público natural é o bolsonarismo fervoroso e que, para vencer uma eleição presidencial, precisa conquistar votos além desse segmento. Caiado ocupa exatamente esse espaço. Naturalmente, é o candidato da direita mais ampla, que transcende o bolsonarismo, sem necessariamente ter rompido com ele.

No entanto, Caiado representa uma direita anterior ao bolsonarismo — mais antiga, mais tradicional. Ele é anti-Lula muito antes de Jair Bolsonaro ingressar na política. Não precisa se esforçar tanto para demonstrar moderação como Flávio, pois nunca foi radical da mesma forma. Seus momentos mais extremos foram quando se aproximou do bolsonarismo, apoiando abertamente os palanques pró-anistia.

Isso sugere que Caiado pode desempenhar o papel de atacar diretamente Lula, desgastando o governo. E se o fizer sem ampliar sua própria base, que atualmente se restringe à alta aprovação em Goiás, acabará fazendo campanha para Flávio — concentrando o voto anti-PT no único candidato reconhecido pelos eleitores conservadores como capaz de vencer.

O entorno de Flávio está ciente disso. Conta com isso. Tanto que nos bastidores já se comenta, segundo informações de nossa repórter Giullia Chechia, sobre a possibilidade de oferecer um cargo a Caiado em um eventual governo do PL — especificamente o Ministério da Segurança Pública, área na qual o governador goiano é reconhecido.

Os dois inclusive já se reuniram, e Caiado afirmou ter respeito por Flávio e que “estarão juntos no segundo turno”. Essa declaração pode ser interpretada como diplomacia — ou como o reconhecimento implícito de que a candidatura presidencial é mais uma estratégia de negociação do que um projeto real. No entanto, até o momento, Caiado demonstrou forte desejo de ser o candidato. Não está claro se está tão disposto a desistir.

E os demais candidatos? Romeu Zema ingressa na disputa com a possibilidade de ser o vice na chapa de Flávio, se assim desejar. Ele pontua um pouco melhor nas pesquisas do que Caiado, porém sua candidatura não é levada tão a sério, sobretudo porque o Novo nunca foi uma máquina eleitoral poderosa e encontra-se fragilizado. A estratégia de Zema visa mais garantir a eleição de deputados e salvar o partido do que conquistar a Presidência.

Por outro lado, Eduardo Leite representa a aposta que Gilberto Kassab nunca efetivamente fez em uma centro-direita moderada que ele afirma existir, mas se recusa a apoiar. Até o momento, as pesquisas não favorecem Leite, que, assim como os outros dois governadores, possui capital eleitoral restrito ao seu estado.

O que Caiado e Leite têm em comum — e que os diferencia de Ratinho Júnior e Tarcísio de Freitas — é o forte desejo de se candidatarem. Ratinho e Tarcísio protelaram ao máximo, atrasando o calendário da direita e criando expectativas que não cumpriram. Caiado e Leite são diferentes: estão na corrida, demonstram convicção. Caiado alimenta esse desejo desde 1989.

No entanto, o maior trunfo de Caiado, se deseja realmente ter chances em outubro, é o discurso anti-corrupção. Esse discurso pode distanciá-lo de Flávio, conferindo-lhe uma plataforma sólida em um tema que tende a ganhar relevância em 2026.

Quer saber mais? Fique comigo por mais um instante. Sou Flávia Tavares, editora do Meio. Nesta quarta-feira, dia 25, estreia em nosso canal de streaming o novo Ponto de Partida, a Série — Nós, Brasileiros. No episódio intitulado A Sociedade, Pedro Doria nos desafia a refletir: em qual Brasil vivemos? Não apenas os dois “Brasis” polarizados, mas cinco. Cinco grupos com dinâmicas de trabalho distintas, relações diversas com o Estado e valores que raramente se cruzam. Em 2026, compreender isso é fundamental para entender o jogo político. Portanto, assine o Meio Premium agora mesmo e assista amanhã. O link está na descrição.

O que torna março de 2026 tão interessante na movimentação da direita? A forma como o discurso anti-corrupção pode influenciar a eleição presidencial e como Sergio Moro, de certa maneira tortuosa, está novamente envolvido nesse cenário. Foi por sua causa que Ratinho Jr abandonou a corrida, entre outros motivos. Abrindo caminho para Ronaldo Caiado, que, na direita, é quem está mais apto a abraçar essa bandeira.

Não posso deixar de mencionar a cena de hoje, da filiação de Moro e Dallagnol ao PL, e a ironia completa desse momento.

Sei que muitos simplesmente encolhem os ombros e afirmam: “É política. Assim é o Brasil.” E há verdade nisso. A política constrói alianças improváveis e desconfortáveis. FHC, o sociólogo, fez aliança com Antonio Carlos Magalhães, o coronel. Lula já permitiu que Paulo Maluf subisse em seu palanque. Normalmente, as alianças visam um ciclo eleitoral específico ou a coalizão que viabilize o governo. Entre as mais recentes, tivemos Geraldo Alckmin tornando-se o companheiro Geraldo na chapa de Lula em 2022. Tudo normal.

No entanto, o caso de Moro é diferente. Lula e Alckmin eram adversários, disputavam poder, projetos para o país, espaço eleitoral. Mas nenhum deles era, para o outro, a encarnação do mal que um combateu a vida toda.

Moro é conhecido por afirmar que a maior questão do Brasil é a corrupção e que ele é o herói que a combate. Ele simbolizava a Lava Jato, que foi sepultada por Jair Bolsonaro e o Centrão.

Então, em 2020, ao pedir demissão do governo Bolsonaro por interferência na Polícia Federal a fim de proteger seu filho, Flávio, Moro disse que o fazia para preservar sua “biografia” no combate à corrupção.

Dois anos depois, Moro declarou publicamente que “quem manda em Bolsonaro é Valdemar Costa Neto” — e acrescentou: “Alguém que foi condenado criminalmente por receber propina controlando o presidente da República”. Atualmente, esse homem é o mentor político de Sergio Moro.

Como essa relação foi estabelecida? Valdemar Costa Neto revelou, com orgulho, ao programa Sala de Imprensa do SBT, que Moro lhe disse antes de uma reunião: “Não o convocamos para a CPI do Crime Organizado, graças ao meu voto. Foi seis a cinco.”

Por que Valdemar deveria ser convocado para a CPI do Crime Organizado? Por ter revelado, em outra entrevista à GloboNews, que Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Master, fez uma doação de R$ 3 milhões a Jair Bolsonaro em contas eleitorais e do partido. Assim, Valdemar precisa esclarecer essa relação.

Considerando esse contexto, somado aos escândalos de corrupção como o esquema Master e do INSS, falar sobre corrupção se tornará um tema central em 2026. Contudo, abordar o tema sem apontar Flávio Bolsonaro exigirá uma habilidade retórica e política que não sei se Caiado possui. Além disso, demandaria dele uma disposição real para se diferenciar de Flávio. E, sinceramente, não vejo esse desejo em Caiado. Sem essa distinção clara, ele se torna mais um cabo eleitoral do bolsonarismo do que um candidato genuíno.

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