A numeróloga do Flávio. Por Carlos Castelo
Flávio Bolsonaro. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Sou numeróloga especializada em política. Traduzindo: cobro caro para dizer que certos nomes já entram derrotados na sala. O Flávio chegou até mim por indicação espiritual. Ou jurídica. Nunca ficou muito claro. E, antes que alguém pergunte: sim, fui eu. Eu, com meu baralhozinho, que sugeri que ele tirasse o sobrenome para concorrer à presidência. Assumo.
No começo, ele achou que eu estava brincando. Disse que sobrenome é patrimônio, é DNA. Eu expliquei com sinceridade: “Patrimônio, ainda mais no seu caso, pode ser penhorado. E DNA, meu querido, dá processo.” Aí abri meu caderninho e mostrei o diagnóstico numerológico.
O problema não era ele. O problema era o “Bolsonaro” em si, essa palavra que já chega na sala com uma aura de quebra-quebra em grupo. “Bolsonaro”, do ponto de vista dos números, tem aquela vibração de meme com legenda errada. É um nome que não entra em urna: estupra.
E fui logo sendo bem didática. Na minha ciência, cada número tem um humor. Somei tudo, reduzi, somei de novo, reduzi mais um pouco, até chegar num resultado que eu mesma não gostei. “Mas, e aí?” perguntou o senador, olhando para meus cristais.
“Deu treze, Flávio”, eu disse.
A sala ficou quieta. Só o incenso trabalhando.
“Mas treze é o …”, ele começou.
“É o Lula”, confirmei.
Lula, presidente do Brasil. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Flávio tentou argumentar: “Mas eu posso manter o sobrenome e usar um outro número?”
Respirei como quem vai explicar declaração de imposto de renda a uma criança de seis anos. “Número é vibração. Sobrenome é frequência. Se o sobrenome vibra treze, você pode vestir dezessete, trinta e três, oitenta e oito. Não vai resolver, amigo.”
Aí veio a minha proposta: tirar o sobrenome. Ficar só Flávio. No máximo, um “Flávio B.” Superdiscreto. E acrescentei: “Pensa no sucesso do Pelé, da Madonna, Sting. Sobrenome é luxo. E luxo, em eleição, ou dá inveja ou investigação.”
Ele ainda ficou meio em dúvida. “Mas e a minha família?”
“Família”, eu respondi, “é um conceito elástico. Tem gente que descobre a família só depois dos cinquenta anos. O importante é ganhar a família chamada eleitorado indeciso”.
Fizemos testes. “Flávio” sozinho, em números, deu um oito: poder, moderação, aquele ar de “sei o que estou fazendo” (mesmo quando não sabe). “Flávio Bolsonaro” dava treze de novo.
No fim, ele disse que ia pensar. Resolvi dar meu veredito: “Se quiser ganhar, precisa caber na urna, sem trazer a derrota junto.”
Ele ficou de dar uma resposta e foi embora.
Apaguei a luz da sala, olhei para os meus cristais, e pensei: “não tem jeito, certos sobrenomes funcionam como uma tornozeleira eletrônica”.


