Ditadura não matou só a classe média. E essa mentira protege seus crimes
Em janeiro deste ano, um usuário do X (antigo Twitter) afirmou que discutir a Ditadura Militar está associado à classe social. Ele argumentou que indivíduos com relatos de repressão em suas famílias geralmente provêm de ambientes urbanos, com formação educacional, pertencentes à classe média — como universitários, jornalistas e advogados.
O usuário concluiu que, se os antepassados eram pobres, camponeses, pessoas do interior, dificilmente tiveram envolvimento com o regime. Alegou que manter uma memória de repressão se tornou uma espécie de status, distante da realidade dos trabalhadores. Uma afirmação difícil de contestar.
A postagem alcançou mais de 2 milhões de visualizações.
Ao completar 62 anos do golpe de 1964, hoje, pensei em não mencionar a data. Poderia abordar outro tema, considerando que temos diversas investigações, entrevistas e análises prontas para publicar aqui.
No entanto, não me sentiria tranquilo se deixasse passar em branco este 31 de março sem responder a essa pessoa. Por isso, esta edição de Cartas Marcadas é diferente. Peço desculpas, mas desta vez é direcionada não a você, leitor, mas a você, usuário do X. Para proteger sua identidade, o chamarei de Jaime nesta carta.
Meu caro Jaime
Jaime, em primeiro lugar, parabéns pela força de seu argumento. Ele atrai tanto a direita quanto a esquerda. É uma ideia sedutora que tem sido vocalizada por líderes de diferentes espectros ideológicos recentemente.
Confesso que, em algum momento da minha vida universitária, também simpatizei com essa ideia. Hoje, compreendo o quão desinformativa e perigosa ela é. No entanto, minha simpatia anterior por essa visão me levou a escrever para você.
Considero perigosa a sua opinião por diversos motivos, Jaime, e tentarei destacar alguns deles aqui. No entanto, há um motivo em particular que é o mais grave: essa ideia aceita como verdade a principal mentira da Ditadura Militar — a de que a violência perpetrada pelos militares foi restrita, localizada, direcionada apenas a um grupo específico de “subversivos”.
No entanto, Jaime, não foi assim. A Ditadura não afetou apenas universitários, como Alexandre Vannucchi Leme, torturado até a morte em 1973; jornalistas, como Vladimir Herzog, assassinado em 1975; ou políticos, como Rubens Paiva, detido em 1971 e cujo corpo nunca foi encontrado.
O que temos investigado no Intercept Brasil nos últimos anos é que os militares estabeleceram um sistema de repressão que ultrapassou esses limites. Foi um sistema que se estendeu por todo o país, persistindo até os dias atuais, mirando alvos que não deixariam uma memória organizada.
É crucial que você compreenda, Jaime, que a Ditadura não é algo do passado. E não estou me referindo apenas ao 8 de Janeiro ou aos planos dos militares para assassinar um presidente eleito no século 21. O regime deixou um legado que ainda é letal, com a população negra e pobre como principal alvo.
Em 2024, por exemplo, mostramos como as forças especiais criadas na Ditadura — incluindo os chamados “kids pretos” — deram origem a estruturas nas polícias militares, como o Bope ou a Rota. Como você sabe, o público-alvo dessa violência não é a classe média branca.
Você pode interpretar essas informações como mero ativismo, mas são o resultado de um trabalho jornalístico sério e contínuo de profissionais respeitados nos principais veículos do país: Sérgio Barbo, Gilberto Nascimento, Carlos Tautz, Tatiana Dias, André Uzêda, entre outros.
Também em 2025, o historiador Lucas Pedretti publicou a reportagem “Fotografias inéditas mostram a face racista do regime”, revelando fichas da repressão que catalogavam pessoas negras por crimes como “vadiagem” — um método clássico de controle social. Eram jovens pobres, negros, transformados em alvos simplesmente por existirem fora do padrão desejado pela Ditadura.
No ano passado, a série de reportagens assinada por Pedretti apresentou o texto “Polícia jogou documentos de agentes da ditadura em sacos de lixo. Nós os abrimos”, revelando fichas que não apenas refletem burocracia policial, mas ajudam a reconstruir quem eram os verdadeiros alvos da máquina repressiva.
E, novamente, Jaime, não se trata apenas dos nomes presentes nos livros didáticos. Como poderia constatar visitando o Memorial da Resistência em São Paulo, a Ditadura reprimiu severamente o movimento operário: sindicatos foram intervencionados, líderes foram presos e torturados, e a imprensa operária e sindical foi proibida.
Você ainda mencionou que camponeses e pobres dificilmente foram afetados. No entanto, de acordo com um levantamento da Agência Pública, houve pelo menos 1,6 mil trabalhadores rurais mortos ou desaparecidos durante o regime, um número que provavelmente é muito maior.
Sua afirmação de que a repressão na ditadura é algo típico da classe média estabelecida também ignora que um dos principais grupos sociais perseguidos pelos militares foram os povos indígenas, que chegaram a ser presos e enviados a campos de concentração, como os Krenak.
Ditadura foi um projeto racista
O que você negligencia, Jaime, é que a Ditadura operava como um sistema racial. Essa não é uma interpretação subjetiva, mas um fato documentado.
Em outra reportagem intitulada “A ditadura negou o racismo — e o argumento ainda é o mesmo”, revelamos que os militares rejeitavam qualquer acusação de racismo como “calúnia”. A luta contra o racismo era considerada um assunto “ultrapassado” e, portanto, passível de repressão.
Resumindo: apontar o racismo no Brasil era considerado um ato de subversão. Artistas negros eram vigiados, movimentos culturais eram perseguidos, e bailes soul eram monitorados. A simples expressão de uma identidade negra era vista como uma ameaça à ordem.
Talvez você não saiba, Jaime, mas ainda hoje descobrimos evidências de como esse sistema operava.
Em 2022, o repórter Sérgio Barbo revelou na reportagem “Crematório em SP foi criado para ocultar cadáveres” a existência de uma estrutura destinada a incinerar corpos de vítimas da repressão. O projeto dos militares — que muitos atualmente concordam ser menos grave do que se pensava — ia além do simples assassinato, visava apagar vestígios.
Em 2019, outra investigação que publicamos indicou que o número de presos nos primeiros dias do golpe pode ter sido quatro vezes maior do que o oficialmente estimado, atingindo cerca de 20 mil pessoas. Não foi uma repressão seletiva a elite, mas uma operação em massa.
Tortura jamais será ‘chique’
Jaime, seu equívoco não é apenas factual. Você analisa a memória disponível — o que foi registrado — e conclui que ela define a realidade. No entanto, essa memória é moldada pela própria violência. Cabe ao jornalismo confrontar essa visão superficial e limitada.
A ditadura deteve, torturou e assassinou. Além disso, destruiu evidências, ocultou corpos, perseguiu testemunhas e garantiu que muitas vítimas nunca pudessem relatar o que ocorreu. Você usa esse silêncio como justificativa, o que é extremamente grave.
Por fim, você menciona que relembrar a ditadura se tornou algo “chique”. Na realidade, vivemos em um país onde algumas vítimas tiveram voz, enquanto outras foram sistematicamente silenciadas. Lembrar ainda é um ato político neste país, pois esquecer sempre foi uma estratégia.
Por isso, continuamos a reportar sobre a Ditadura. O cinema nacional produz filmes, o teatro encena peças sobre o tema. Não é por saudosismo, mas porque ainda hoje surgem documentos, crimes permanecem impunes e estruturas continuam em operação.
E sempre que alguém tenta simplificar esse período como uma questão “da classe média”, acaba contribuindo para silenciar aqueles que já foram calados anteriormente.
Sei que você fez apenas um tweet, Jaime. No entanto, o que você fez foi propor uma narrativa reconfortante. Uma forma elegante de minimizar a amplitude da ditadura. Talvez você acredite na ideia de uma “Ditabranda” — como sugerido em um infame editorial da Folha de S.Paulo em 2009. Essa narrativa pode ser sedutora, mas é profundamente desonesta.
Poderia encerrar por aqui, Jaime. No entanto, não o farei. Pois o que você escreveu não demanda opinião, mas informação. Ao longo dos anos, publicamos dezenas de reportagens que descontruíram, com base em documentos, dados e testemunhos, essa visão confortável da ditadura. Aqui estão algumas delas, um ponto de partida para sua reflexão antes de debater mais sobre o que foi ou não a Ditadura no Brasil.


