O que se sabe sobre a epidemia de ebola na República Democrática do Congo – CartaCapital
Uma epidemia de ebola foi declarada na sexta-feira 15 na República Democrática do Congo (RDC). Embora as autoridades congolesas e internacionais ainda avaliem sua dimensão, a OMS emitiu uma emergência sanitária internacional diante da rápida evolução do número de mortes.
O ebola provoca uma febre hemorrágica altamente contagiosa. Nos últimos 50 anos, o vírus causou mais de 15 mil mortes na África.
91 mortos
Até o momento, as autoridades congolesas registraram 91 mortes provavelmente relacionadas a esta nova epidemia. Além disso, informaram cerca de 350 casos suspeitos. A maioria das pessoas afetadas tem entre 20 e 39 anos, e mais de 60% são mulheres.
Até agora, poucas amostras puderam ser analisadas em laboratório, de modo que os balanços se baseiam principalmente nos casos suspeitos.
Médicos desinfetam o caixão de possível vítima de Ebola na República Democrática do Congo – foto: John Wessels/AFP
O epicentro da epidemia está em Ituri, uma província do nordeste da RDC, na fronteira com Uganda e Sudão do Sul. Nesta região rica em ouro, há intensos deslocamentos diários de população ligados à atividade mineradora.
Algumas partes da província também são devastadas pela violência de vários grupos armados, o que dificulta o acesso por motivos de segurança.
Risco regional
O vírus já se espalhou além de Ituri e das fronteiras da República Democrática do Congo, com duas mortes registradas em Uganda, segundo a OMS. As vítimas são pessoas que viajaram a partir da RDC, sem que tenha sido identificado um foco epidêmico local.
A agência sanitária da União Africana, Africa CDC, considera “alto” o risco de propagação para os países da África Oriental vizinhos da RDC. A OMS ativou no domingo seu segundo nível mais alto de alerta internacional diante de um surto de ebola.
Sem vacina
A cepa do vírus responsável pelo atual surto se chama Bundibugyo. Não existe vacina nem tratamento específico para esta variante. As medidas para tentar frear sua propagação se baseiam essencialmente no respeito às medidas de prevenção e na rápida detecção dos casos para limitar os contatos.
As vacinas contra o ebola existentes são eficazes apenas contra a cepa Zaire do vírus, responsável pelas maiores epidemias registradas. Antes do surto atual, Bundibugyo havia provocado apenas duas epidemias: uma em Uganda (2007) e outra na RDC (2012). A taxa de mortalidade ficou entre 30% e 50%.
Propagação rápida
A epidemia de ebola mais letal na RDC deixou quase 2.300 mortos entre 3.500 doentes entre 2018 e 2020. O episódio anterior à atual epidemia provocou 45 mortes entre setembro e dezembro de 2025, segundo a OMS.
Este vasto país da África Central, com mais de 100 milhões de habitantes, possui grande experiência na gestão do ebola, sendo esta a 17ª epidemia registrada. No entanto, as particularidades do atual surto preocupam os especialistas.
“É uma epidemia que vai se propagar muito rapidamente, sobretudo porque ocorre em uma província muito populosa”, declarou à AFP o virologista Jean-Jacques Muyembe, codescobridor do ebola em 1976 e diretor do instituto de pesquisa congolês que confirmou o reaparecimento do vírus.
Se todos os casos suspeitos registrados forem confirmados, esta epidemia estará entre as sete maiores já conhecidas e será a segunda mais grave entre as cepas que não são Zaire, segundo vários especialistas.
Investigações epidemiológicas estão em curso para determinar a origem da epidemia. O primeiro caso identificado até agora é o de um enfermeiro que procurou um centro de saúde de Bunia, capital da região de Ituri, em 24 de abril.
Apesar disso, o foco está a cerca de 90 km dali, na região de Mongbwalu, o que leva à hipótese de que a epidemia tenha surgido nessa localidade e que os casos tenham migrado posteriormente.
A OMS foi alertada sobre o aparecimento de uma doença com alta mortalidade em 5 de maio, após a morte de quatro profissionais de saúde em apenas quatro dias na região de Mongbwalu.
As pessoas infectadas pela cepa Bundibugyo apresentam inicialmente sintomas semelhantes aos de gripe ou malária, o que pode atrasar a detecção.
Além disso, segundo o ministro da Saúde congolês, a identificação do surto demorou porque as comunidades afetadas acreditaram inicialmente que se tratava de uma “doença mística” ou de “bruxaria”, o que levou os doentes a procurar “centros de oração” em vez de profissionais de saúde.


