o desafio de quem trabalha – CartaCapital
Para o trabalhador brasileiro que passa o dia fora de casa, o almoço deixou de ser apenas uma pausa entre expedientes. Virou um cálculo diário entre tempo, dinheiro, cansaço e a velha pergunta sobre o que vai realmente sustentar até o fim do turno. A escolha do prato no restaurante por quilo, na marmita levada de casa ou no fast-food da esquina passa por uma equação silenciosa que pouco tem a ver com o conhecimento sobre nutrição.
É o que aponta a primeira etapa da pesquisa “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”, idealizada pelo Pacto Contra a Fome e conduzida pelo Instituto Pensi, com apoio da FOLU Brasil e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal. O levantamento qualitativo ouviu moradores de cinco capitais, São Paulo, Belém, Fortaleza, Porto Alegre e Goiânia, com diferentes recortes socioeconômicos.
Os participantes reconhecem o valor de comer bem. Colocar isso em prática durante a jornada de trabalho, porém, é outra história.
Custo social do prato pesa mais que o preço
Para Maria Siqueira, codiretora executiva do Pacto Contra a Fome, oferecer informação à população não basta. “Precisamos atuar para além do acesso à informação para a população. Os resultados mostram que a alimentação é definida pelo que cabe na rotina das pessoas, dentro das condições que dificultam ou facilitam uma decisão que promova a saúde e o bem-estar em geral; e não no ideal para promover saúde e bem-estar”, afirmou.
A pesquisa nomeia esse fenômeno como custo social da alimentação. “É o chamado custo social da alimentação, que não envolve apenas o preço do alimento, mas toda a estrutura, inclusive emocional, da gestão das preferências alimentares, até o planejamento da compra e o preparo”, explica Claudia Cheron Konig, coordenadora técnica do levantamento.
Soma-se a esse peso a percepção de que o saudável não sacia. Para quem encara longas jornadas e deslocamentos extensos, priorizar o que “sustenta” se torna regra, sobretudo entre os trabalhadores de menor renda.
Por isso, a busca por recompensa ganha terreno ao fim do expediente e nos fins de semana. Quando o saudável não é lido como saboroso, o doce, o salgadinho e o refrigerante ocupam o lugar do prazer rápido depois do trabalho.
Marmita, restaurante por quilo e a rotina de quem trabalha
Entre os entrevistados, comida saudável é sinônimo de comida caseira, fresca e variada. O ideal aparece ligado a frutas, verduras, legumes e proteínas magras, com pouca fritura e baixo consumo de ultraprocessados. Esse retrato se repete em diferentes classes e cidades, sempre associado à ideia de “comida de verdade”.
Na prática, porém, o almoço fora de casa raramente alcança esse ideal. O restaurante por quilo, o self-service da praça de alimentação e o lanche rápido entram em cena pela conveniência, mesmo quando o trabalhador sabe que a melhor opção seria a marmita.
Os ultraprocessados aparecem como práticos e convenientes, inclusive no plano emocional. O consumo é justificado pela economia de tempo de preparo e pelo preço acessível, em especial nas classes mais baixas e entre quem não dispõe de uma cozinha estruturada no trabalho.
Outro ponto levantado pela pesquisa é a confusão diante dos rótulos. A lupa da Anvisa, que indica alto teor de açúcar, gordura ou sódio, é reconhecida pelos participantes. Termos como fit, integral e light, no entanto, geram interpretações variadas e dificultam a leitura sobre o impacto real do produto comprado na correria do dia.
“O conhecimento sozinho não é suficiente para enfrentar essa arquitetura, por isso, intervenções efetivas precisam combinar regulação do ambiente alimentar com abordagens que facilitem a escolha do saudável. O Pacto defende uma Agenda Legislativa que protege o ambiente escolar e a produção da agricultura familiar para garantir aos estudantes alimentação variada, saudável e regionalmente representada”, destaca Maria Siqueira.
Orçamento aperta e o prato encolhe
Durante o estudo, os pesquisadores aplicaram uma dinâmica batizada de “carrinho de compras”. Os participantes simulavam compras semanais com diferentes valores disponíveis. Com orçamento reduzido, mantinham a base do prato e priorizavam proteínas acessíveis e itens que “rendessem”. Ovos, frango, banana, mamão, alguns legumes, pão e tapioca lideraram as escolhas. Arroz e feijão, sempre que possível, foram comprados em maior quantidade para garantir o mês.
Esse recorte se reflete também na hora do almoço fora de casa. Trabalhadores de menor renda evitam o restaurante por quilo nos dias mais apertados e recorrem à marmita preparada na noite anterior, mesmo após uma jornada exaustiva. Lanches simples, pão com algum recheio e fruta também aparecem como saída barata.
Ao receber o dobro do valor inicial na dinâmica, o carrinho cresceu em duas direções. De um lado, entraram carne bovina, peixe, mais frutas e itens que agilizam o preparo. De outro, surgiram os chamados “mimos”: chocolate, salgadinho, sobremesa e refrigerante.
Mesmo com a renda apertada, raramente os participantes abandonam a alimentação adequada por completo. A estratégia mais comum é cortar o supérfluo e fazer substituições para chegar ao fim do mês com arroz, feijão e proteína no prato.
Desigualdade no almoço de quem trabalha fora
A pesquisa mostra que renda, estabilidade financeira e tipo de trabalho moldam estratégias distintas dentro de cada rotina. Trabalhadores formais, com vale-refeição e refeitório no local de trabalho, conseguem planejar refeições mais equilibradas. Já profissionais informais, motoristas de aplicativo, entregadores e quem atua no comércio de rua operam pela adaptação possível, com escolhas guiadas pelo que sustenta e cabe no bolso entre uma corrida e outra.
Outro recorte importante é o de gênero. As falas dos participantes mostram que a gestão alimentar segue concentrada nas mulheres, que muitas vezes preparam a marmita do parceiro e dos filhos antes mesmo de sair para o próprio trabalho. O cuidado com o que vai dentro da quentinha conecta o prato fora de casa à divisão desigual das tarefas domésticas.
“Os achados apontam que o desejo de comer melhor existe, o conhecimento básico está presente e a preocupação com as crianças é intensa. Políticas públicas devem focar em intervenções que reduzam as barreiras de preço e acesso, reconhecendo quem enfrenta maior custo social da alimentação saudável e os desafios da jornada de trabalho exaustiva, da sobrecarga do cuidado, das desigualdades alimentares refletidas no prato”, afirma Maria Siqueira.
Brasil entre a fome e a má alimentação
A pesquisa ouviu pessoas entre 18 e 40 anos, moradoras das cinco capitais selecionadas, em diferentes classes sociais e arranjos familiares. O método combinou questionários sobre hábitos, grupos focais online e análise colaborativa entre pesquisadoras. Os resultados dialogam com bases nacionais como a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), o Vigitel e o SISVAN.
O retrato chega em um momento de contradição no país. Mais de 54 milhões de brasileiros vivem em insegurança alimentar, sendo 6,4 milhões em situação de fome, segundo dados citados pelo Pacto. Ao mesmo tempo, a má alimentação avança e empurra para cima os índices de obesidade e de doenças crônicas como hipertensão e diabetes, com impacto direto nos gastos públicos com saúde e na produtividade do trabalhador.
“Por isso, essa é uma chamada para toda a sociedade, para atores públicos e privados: da cozinha comunitária à feira do bairro, do refeitório com lugar para esquentar a marmita e sentar até as decisões de regulação no Congresso”, finaliza Maria Siqueira.

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