Em Pernambuco, Lula transita entre dois palanques, enquanto a extrema direita enfrenta dificuldades
O presidente Lula da Silva (PT) tem um desafio nada simples para resolver em Pernambuco ao longo das eleições deste ano. Ele precisará consolidar a aliança com o PSB do ex-prefeito do Recife, João Campos, sem perder a ponte com a governadora do estado, Raquel Lyra (PSD). Ao longo do governo, o presidente conseguiu manter uma boa relação com os dois e, com isso, tenta manter essa cordialidade durante a disputa eleitoral para não criar uma brecha para a extrema direita em um dos seus principais redutos eleitorais: a região Nordeste.
Consciente deste cenário, João Campos antecipou sua jogada e anunciou apoio a uma dupla de candidatos ao Senado completamente alinhados ao presidente Lula: Humberto Costa (PT), que busca a reeleição e é quadro histórico do partido no estado, e Marília Arraes (PDT), prima de João, ex-deputada federal e que desponta como favorita de acordo com as pesquisas eleitorais. Em 2022. Maríllia foi a adversária de Raquel no segundo turno. Com esse movimento, João consolida uma chapa organicamente “lulista” e tenta, com isso, isolar Raquel no campo conservador e impedir que ela transforme a boa relação de governo nos últimos anos em uma aliança eleitoral.
“João Campos fez o desenho de toda a estratégia da sua candidatura apoiado nesse palanque nacional, apoiado na nacionalização do discurso”, explicou Priscila Lapa, cientista política.
A costura do prefeito teve um preço. Há um ano, ele lidera as intenções de voto, mas, nos últimos meses, a distância entre a governadora diminuiu. Em parte, como resultado da sua estratégia de nacionalizar a disputa, afastando um típico eleitor de centro que não vota no PT. Por outro lado, a governadora vem se reorganizando e reconquistando o eleitorado.
“Raquel conseguiu fazer esse movimento político silencioso, mas que começa a revelar uma força muito importante”.
Apesar de ter um presidenciável no próprio partido, o PSD anunciou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como pré-candidato a presidente. Raquel ainda não declarou voto. Até o momento, ela não decidiu pela chapa ao Senado oficialmente, mas se aproxima de nomes de perfis distintos, a exemplo do deputado federal Túlio Gadelha (PSD), que tenta pintar o palanque governista com as cores do lulismo, e Eduardo da Fonte, deputado federal pelo Progressista, que reúne os elementos do centro político no estado.
Para Priscila Lapa, a eleição em Pernambuco não tem um perfil muito definido e os dois principais nomes da disputa são muito competitivos.
“É uma eleição polarizada. Agora a gente tem uma conjuntura em que não está claro se é uma conjuntura ainda de mudança ou de continuidade. No momento em que ela é bem avaliada, é uma conjuntura de continuidade. Mas você ter o ex-prefeito da capital como candidato extremamente competitivo é uma eleição de ruptura.”
Essa indefinição interfere na leitura que o presidente Lula faz do cenário no estado. Para ele, dois palanques favoráveis deixam ainda mais largo o seu favoritismo no estado.
“Então, ele não pode abrir mão do voto do eleitor de Raquel Lyra. Ele não pode correr nenhum risco de, em nome de uma candidatura local, perder palanque que possa significar perda de votos no âmbito nacional. Eu acho que talvez esse apoio menos explícito seja estratégico para Lula e acabe não sendo estratégico para João”, analisou a cientista política.
Priscila Lapa foi convidada da série sobre as eleições de 2026 do programa É de manhã, o noticiário matinal da Rádio Brasil de Fato que, desde o início de maio, tem analisado a conjuntura eleitoral nos estados. A série começou pelo Nordeste e já passou por Bahia, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí e agora desembarcou em Pernambuco.

