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Como a falta de um intérprete a a reação mercurial de um argentino mudaram a história do futebol

Como a falta de um intérprete a a reação mercurial de um argentino mudaram a história do futebol

Como a falta de um intérprete a a reação mercurial de um argentino mudaram a história do futebol

Os deuses do futebol – porque esses existem, mesmo para ateus e agnósticos – e o sobrenatural de Almeida, a permanente criação de Nelson Rodrigues, dão sempre um jeito de grandes histórias serem lembradas em tempo de Copa do Mundo. Morreu hoje, em Buenos Aires, aos 89 anos, o meio-campista portenho Antonio Rattín, “el Rato”, ídolo do Boca Juniors dos anos 1960, e sobretudo personagem que inaugurou duas viradas de relevo: foi ele quem deflagrou a rivalidade entre Argentina e Inglaterra, muito tempo antes da Guerra das Malvinas, e foi ele quem fez a Fifa criar os cartões amarelo e vermelho. E não é extraordinário que a aventura de vida de Rattín seja lembrada em dia de Inglaterra, em dia de Argentina?

Camisa 10 da albiceleste na Copa do Mundo de 1966, Rattín era um volante esforçado, desses que dão o sangue, embora de pouca habilidade. Na partida de quartas de final entre argentinos e ingleses, ele protagonizou uma cena marcada nas enciclopédias da bola, embora esquecida. A Inglaterra venceu por 1 a 0, gol de Geoff Hurst, mas aquele duelo foi marcado pela saída de campo de Rattín – que se recusou a ir mais cedo para o vestiário, depois de ser expulso pelo juiz aos 35 minutos do primeiro tempo, por supostamente ter disparado impropérios, bravo que era.  “Aquela Copa do Mundo foi armada para que os ingleses ganhassem, o que aconteceu conosco foi ultrajante”, afirmou Rattín em 2013. “Nosso treinador me disse que, se o árbitro tomasse uma decisão errada, eu deveria pedir um intérprete, porque eu era o capitão e as regras me protegiam. Aquele filho da p… do árbitro estava marcando tudo a favor deles, e o cara me expulsou”, disse o argentino, referindo-se ao árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que, depois da partida, saiu escoltado pela polícia. Não havia intérprete de alemão no estádio, embora a Fifa anunciasse haver.

Rattín esperneou. Ficou sentado em um tapete contíguo ao gramado de Wembley por dez minutos (mas diz a lenda que foram trinta, e diz a lenda que o tapete tinha sido colocado ali para que a rainha Elizabeth ali passasse). A torcida  jogava barras de chocolate na direção do adversário. Ao passar pela bandeira de escanteio, e cutucá-la, o ambiente ficou ainda mais mercurial. Em vez de chocolate, o que começou a despencar foram latas de cerveja. O treinador inglês, Alf Ramsey, esquentou a briga. Ao apito final, Ramsey viu um de seus comandados, George Cohen, tirar a camisa para trocá-la com o argentino Oscar Más e correu para o campode modo a impedi-lo. “Você não vai trocar de camisa com essas pessoas!”, ordenou. Ramsey estava furioso porque considerava os argentinos desleais e, na coletiva de imprensa pós-jogo, chamou os sul-americanos de “animais”.

Embora possa parecer exagerado, aquela partida e a forma como Rattín se recusou a sair de campo – seja por não entender o alemão, seja por fingir que não o entendia – teriam  impacto na história do futebol: a expulsão do capitão argentino levou à aplicação de cartões amarelo e vermelho. Até então, os árbitros usavam apenas palavras e gestos para apitar, o que em alguns casos — como os de Rattín e Kreitlein — levou a mal-entendidos linguísticos. Vários meses após a Copa do Mundo, e com a controvérsia ainda em curso, Ken Aston, chefe da arbitragem britânica, dirigia por Londres quando teve que parar num semáforo vermelho. Aston praticamente exclamou “Eureca!” para celebrar sua sacada: “Um árbitro também deveria usar três cores!”.

Como relataria, “enquanto dirigia pela Kensington Street em Londres, o semáforo ficou vermelho e eu pensei: ‘amarelo’, você ainda pode seguir; ‘vermelho’, significa pare, saia de campo”. A Fifa não autorizou o cartão verde — que, no entanto, é usado atualmente no hóquei em campo como advertência do árbitro — mas autorizou os cartões amarelo e vermelho para advertências e expulsões. Eles foram usados ​​pela primeira vez na Copa do Mundo seguinte, no México, em 1970. Sem Rattín, não teriam existido.

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Aqueles filhos da p… ingleses

O episódio de Rattín colou em corações e mentes de muita gente. O escritor britânico John Carlin – cujo  livro Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game that Made a Nation, sobre o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, é a base para o filme Invictus, de 2009 – lembra do episódio. Instado pela revista espanhola Panenka a citar um momento marcante de partidas entre Inglaterra e Argentina, que podem vir a se enfrentar na semifinal do século, ele anotou: “Tenho duas lembranças. Tinha dez anos de idade e estava no estádio, em 1966. Nunca me esquecerei do espanto que senti quando o capitão argentino, Antonio Rattín, se recusou, por minutos ou horas, não sei, a obedecer à inexplicável decisão do árbitro alemão de expulsá-lo. O estádio inteiro gritava “Fora! Fora! Fora!”, mas Rattín manteve-se firme. Como uma estátua na grama. Foi ali que começou a acirrada tradição do único clássico intercontinental, e eu estava de volta ao estádio no México em 1986, quando Argentina e Inglaterra se enfrentaram novamente em uma Copa do Mundo. Eu estava sentado bem atrás do gol inglês no Azteca e vi a (clara) Mão de Deus, assim como os outros 100 mil espectadores, todos os jogadores e as centenas de milhões que assistiram ao jogo pela televisão — todos, exceto o árbitro. Como Menotti me diria alguns anos depois, explicando o sentimento nacional argentino sobre o assunto: “Melhor. Melhor! Assim doeu ainda mais naqueles filhos da p…. ingleses…”

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