Edição de Sábado: A Copa para o Brasil e o Brasil para a Copa – Meio
A Copa do Mundo não é apenas o período em que a maioria dos brasileiros pensa em futebol. A Copa é também o período em que a enorme parte da população mundial que tem alguma relação com o futebol se vê obrigada a pensar no Brasil. A simbiose entre esse evento e este país não tem paralelo. Qual foi o processo pelo qual o Brasil passou a ser quase uma metonímia da Copa e a Copa passou a ser, para o Brasil, esse evento quase transcendental que o define?
A primeira Copa em que o Brasil se viu como Brasil não foi a inaugural, de 1930. Nas duas primeiras, hospedadas por Uruguai e Itália, o Brasil sofreu efeitos da cisão entre Rio e São Paulo e, na de 1934, entre amadores e profissionais. Na Copa da Itália, nosso melhor futebol já vivia sob a égide do profissionalismo, mas filiada à Fifa estava apenas a CBD, amadora, e não a FBF, profissional. Arthur Friedenreich, o maior jogador das primeiras três décadas de futebol no Brasil e autor do gol do nosso primeiro título, o Sul-Americano de 1919, jamais atuou em um Copa, apesar de que continuava no auge em 1930 e 1934.
Em 1938, o Brasil começou a se ver como Brasil na Copa. O time foi completo, não cindido por brigas regionais. Com o profissionalismo enraizado, as competições estaduais estavam unificadas. Embora o racismo continuasse se manifestando, o futebol de ponta já era multiétnico. Os três maiores jogadores da década, o centroavante Leônidas da Silva, o zagueiro Domingos da Guia e o centromédio Fausto dos Santos, eram negros.
O acompanhamento da Copa de 1938 esteve inserido no projeto varguista de unificação nacional via rádio. Alto-falantes foram instalados Brasil afora e multidões se reuniam para ouvir os jogos: 6 x 5 contra a Polônia, na estreia, depois 1 x 1 com a Tchecoslováquia, o que impôs a realização de um segundo jogo, que o Brasil venceu por 2 x 1. Isso o levou à semifinal contra a então campeã Itália. Sendo obrigado a viajar de Bordeaux a Marselha depois de ter jogado uma partida a mais, o Brasil caiu por 2 x 1. A transmissão foi repleta de mal-entendidos. A contestação oficial de um pênalti, feita pela CBD ante a Fifa, gerou o boato de que a partida seria anulada. Uma multidão aguardou, em frente à sede do Jornal dos Sports, notícias da anulação que, obviamente, nunca veio. De qualquer forma, o time foi recebido com festa e Leônidas foi consagrado como artilheiro da competição.
Já 1950 sintetiza uma das metades de nossos mitos sobre quem somos. Éramos campeões sul-americanos de 1949, donos do maior estádio do mundo e anfitriões em plena campanha eleitoral para presidente. Os cancelamentos de Índia, Escócia e Turquia deixaram o torneio capenga, com 13 equipes. Enquanto o Uruguai ficou sozinho com a Bolívia, a quem goleou, o Brasil derrotava o México e se matava em pelejas contra Suíça (2 x 2) e Iugoslávia (2 x 0). A partida contra a Suíça foi marcada para São Paulo, atendendo a reclamos por um time com mais paulistas. Na única Copa do Mundo em que não houve uma final, os dois sul-americanos se juntaram a Espanha e Suécia em um quadrangular decisivo.
Naquela segunda semana de julho, o Brasil viveu cinco dias em que se consolidou a outra metade da nossa mitologia: a soberba e a ilusão de invencibilidade. Batemos a Suécia por 7×1 e a Espanha por 6×1. Ficou famosa a rendição de “Touradas de Madri” pelas arquibancadas, enquanto o time passeava ao ritmo da marcha. O Uruguai sofria para empatar em 2 x 2 com a Espanha e vencia a Suécia por 3 x 2 com um gol a cinco minutos do fim. Nada em toda a história do futebol, a não ser esses cinco dias, autorizava alguém a pensar que o Brasil era o favorito contra o Uruguai. Mas assim o Brasil viveu aquela semana. O empate era suficiente, mas não se esperava menos que uma goleada. Os jogadores foram arrancados da tranquila concentração no Joá, levados ao burburinho de São Januário e submetidos a discursos políticos que mal lhes permitiram almoçar no dia do jogo. A capa de O Mundo no domingo ficaria famosa. Ela estampava a foto da equipe brasileira sob a manchete “Estes são os campeões do mundo”.
Tínhamos zero títulos mundiais e o Uruguai possuía três: duas Olimpíadas e uma Copa. O Uruguai havia sido campeão sul-americano oito vezes e o Brasil, três. Dois meses antes, o Uruguai nos derrotara por 4 x 3 em pleno Pacaembu. Com base em que evidência empírica, então, o Brasil se imaginou campeão antes de entrar em campo? Não seria a última vez que o país se faria essa pergunta.
Perdemos, como se sabe, por 2 x 1. E foi de virada, ou seja, em três ocasiões o Brasil teve em mãos um resultado que lhe servia: no 0 x 0 inicial, na vantagem parcial com o gol de Friaça, e no 1 x 1 que se seguiu ao gol de Schiaffino. O Brasil provavelmente poderia ter cozinhado o 1 x 1 até o final, mas a soberba havia tornado inaceitável ser campeão com um empate.
Esse jogo inaugurou a fábrica de mitos que viriam a ser os jogos da Seleção em Copas. “Mito” aqui deve ser entendido como o entendem os antropólogos: não uma mentira, mas uma narrativa totalizante que organiza a percepção que uma comunidade tem de seu entorno. Sobre o Brasil 1×2 Uruguai de 1950, Nelson Rodrigues cunharia a expressão “complexo de vira-latas”, que designa nossa suposta tendência de fraquejar na hora H. Os jogadores negros, especialmente o goleiro Barbosa, sentiriam a culpabilização pesada e eterna.
Pouco explorada foi a explicação tática: México, Iugoslávia, Suécia e Espanha, as quatro equipes que o Brasil derrotara, jogavam no WM, o esquema que dominou o mundo entre os anos 1920 e os anos 1950, assim apelidado pela disposição em 3-2-2-3, na qual os cinco jogadores da frente formavam um W e os cinco de trás formavam um M. O Brasil importou o WM, mas jogou a década de 1940 em uma variação dele, a diagonal, em que o quadrado do meio se convertia em um paralelogramo no qual um lado, em geral o esquerdo, ficava mais avançado que o outro. Para a Copa, o técnico Flávio Costa decidiu voltar a um WM ortodoxo, com o resultado de que o lado esquerdo do quadrado (Danilo, atrás, e Jair, na frente) terminava sempre mais avançado do que deveria, dada a força do cacoete. Atrás deles, ficou o latifúndio em que Ghiggia, ponta-direita, avançou sobre Bigode para criar os gols uruguaios.
Naquela época, o encaixe de WM contra WM costumava ser perfeito, e até pelos números os jogadores sabiam a quem marcar. O Uruguai fugiu à regra, voltou às origens do futebol centro-europeu, e atuou como havia feito a Suíça em São Paulo: no 1-3-3-3, com o chamado beque recuado. Tendo um jogador na sobra, atrás de todo mundo, o Uruguai pôde destacar outro zagueiro para perseguir Zizinho, o craque brasileiro, enquanto a última linha continuava protegida.
Mas a nada disso se deu muita importância. Um leve toque do capitão uruguaio Obdulio Varela no rosto do zagueiro Bigode, sim, ganhou ares de tapa que ofendeu a honra, e em 1954 o Brasil inaugurou outra tradição: a de se preparar para uma Copa reagindo de forma automática à Copa anterior. Era preciso ser machos, não se deixar intimidar.
Em 1954, o Brasil derrotou o México e empatou com a Iugoslávia, enquanto corria procurando a vitória e os iugoslavos desesperadamente tentavam explicar que o empate servia às duas equipes. Nas quartas-de-final contra a Hungria, o melhor time da época, o Brasil talvez pudesse ter tido chances, se não fosse o excesso de pilha e a vontade excessiva de não ser intimidado. O Brasil perdeu a “Batalha de Berna” por 4 x 2 e, depois do jogo, se envolveu em uma das maiores pancadarias da história.
Na Copa de 1958 e na Copa de 1962, chegamos ao topo do mundo, nos torneios que consagraram Pelé e Garrincha. Esses mitos são tão potentes que todo o conjunto de causas das vitórias foi sendo esquecido. Na primeira, o Brasil estreou vencendo a Áustria e empatando com a Inglaterra, dois jogos em que Pelé e Garrincha não atuaram. O empate com os ingleses fez do último jogo da primeira fase, contra a União Soviética, uma peleja decisiva. Uma derrota carimbaria a volta para casa.
Não temos o vídeo do que aconteceu ali, mas alguns clipes sustentam a lenda. Um jornalista inglês se referiria ao começo dessa partida como “os três maiores minutos da história do futebol”. O Brasil venceu apenas por 2 x 0, porque os soviéticos tinham o melhor goleiro do mundo, Lev Yashin, e as traves os salvaram. Nas quartas contra Gales (1×0), nas semifinais contra a França (5×2) e na final contra a Suécia (5×2), Pelé consolidou-se como o primeiro mito adolescente da história do futebol. Gol de cabeça, de placa com chapéu e voleio sem a bola cair, de oportunismo de centroavante, de puxeta para abrir um ferrolho: Pelé fez de tudo em 1958 e, daí em diante, o Brasil teria que lidar com o mito. Os dois últimos jogos dessa Copa estão disponíveis em vídeo na íntegra.
Mais esquecido ficou o fato de que o Brasil concebeu ali outra preparação para a Copa, levando médicos, dentistas e psicólogos, e inventou outra forma de jogar. Em vez do WM que o mundo usava, o Brasil foi tecendo ao longo dos anos 1950 uma de suas grandes inovações: a linha de quatro. Com quatro zagueiros, já não era necessário perseguir cada atacante individualmente. Ainda na Copa de 1962, era possível ouvir um locutor da BBC estupefato: “eles não marcam homens, mas espaços”. O Brasil inventava ali a marcação por zona, que nunca mais deixaria de ser parte do futebol.
Na Copa de 1966, o Brasil inaugurou outra tradição sua, a de repousar sobre os lauréis de uma conquista anterior, fazer uma preparação bagunçada e desprezar os adversários. Isso se repetiria em 1974, depois do tricampeonato de 1970, e em 2006, depois do pentacampeonato de 2002.
Antes e durante essas três Copas que se sucederam a grandes conquistas, o Brasil fez festas injustificáveis. Em 1966, a peregrinação da Seleção por várias cidades atendia exigências de prefeituras de que estivessem presentes os bicampeões do mundo, especialmente Pelé e Garrincha. 44 jogadores foram convocados para satisfazer os lobbies regionais, agora não apenas o paulista e o carioca, mas também o gaúcho e o mineiro.
Na Copa de 1974, fazia quatro anos que o mundo conhecia a revolução que realizavam os holandeses, com um futebol chamado de total e caracterizado pela troca constante de posições em linhas verticais e a pressão coordenada sobre a saída de bola adversária. Os holandeses já haviam massacrado Uruguai e Argentina, mas o técnico Zagallo ainda dava entrevistas dizendo que a Holanda jogava futebol de “entretenimento” e “não era competitiva”.
Na Copa de 2006, a bagunça chegou ao ponto de que os treinamentos eram marcados no horário conveniente para a televisão e os jogadores acordavam de madrugada para aparições ao vivo. Perdemos todas essas três, claro. E vivemos aquelas derrotas como vexames, embora somente em 2014 entenderíamos o sentido profundo que pode ter essa palavra.
Entre as vitórias, o tricampeonato de 1970 e o tetracampeonato de 1994 representaram dois paradigmas opostos: a arte e a eficiência, o idealismo e o pragmatismo, a beleza e a funcionalidade. Em 1970, tudo conspirou a favor: a Copa aconteceu sob o sol do México e a transmissão a cores (ainda não disponível no Brasil) ressaltava o brilho da camisa canarinho em contraste com o verde dos gramados. A paixão alucinada dos mexicanos pela seleção brasileira, combinada com a meticulosa preparação do time para a altitude (que incluiu o que havia de mais moderno até no trabalho físico da Nasa), fez com que o Brasil jogasse em casa, sobrando nos segundos tempos, enquanto os europeus se derretiam no calor. Em 1994, também sob o sol brutal do verão da América do Norte, o Brasil construiu uma fortaleza intransponível, na qual a única aparição da beleza se reservava para as ocasionais estocadas de Romário.
Entre nossas derrotas, nenhuma doeu tanto como a de 1982, para a Itália. Aquele time inesquecível, caracterizado pela alegria, pelo amor ao jogo, e pela troca estonteante de passes, deixou uma legião de fãs pelo mundo. A ele, o argentino Ángel Cappe dedicou um verdadeiro poema em prosa: “o povo olhava o relógio com a intenção de deter o tempo, porque queria que a partida durasse para sempre”. E ainda: “A bola chegou a uma zona do campo e desapareceu, para voltar a aparecer em forma de coelho ou de pomba; depois, eles a esconderam novamente dos adversários, que, em sua angústia, a procuraram nos lugares mais estranhos, sem conseguir encontrá-la”. Sim, essa declaração de amor ao time de Zico, Sócrates, Cerezo, Éder e Falcão foi escrita por um argentino.
De novo, não prestamos atenção à explicação tática da derrota. O time era tão belo que gerou arrogâncias pomposas do tipo “se Brasil e Itália jogassem 100 vezes, o Brasil venceria 99” (um patente delírio) ou “naquele dia, o futebol morreu” (como se outras formas de jogar também não fossem futebol). Assim como em 1950, sofremos ao passar de uma estrutura simétrica para uma estrutura torta. Havia um vazio na ponta-direita, causado pela retirada de Paulo Isidoro, que jogara as Eliminatórias, para a entrada de Falcão que, já na Roma, não havia participado do ciclo. O quadrado que deu ao mundo algumas das mais maravilhosas trocas de passes da era moderna também forçava um revezamento pela direita que não conseguiu preencher o buraco à frente de Leandro. Sim, Jô Soares (“Bota ponta, Telê!”) estava certo.
Como em 1994, vivemos hoje um jejum de 24 anos. Nas últimas cinco, perdemos ao primeiro encontro com um europeu no mata-mata. Em duas delas, 2006 e 2014, cometemos um de nossos erros favoritos, voltar a um técnico outrora campeão do mundo (primeiro Parreira, depois Felipão) agora já defasado ante a evolução do jogo. Em 2010, mantivemos a tradição de reagir mecanicamente à Copa anterior, saltando para o extremo oposto. Depois do pagodão bagunçado e televisionado de 2006, trouxemos o militarismo evangélico de Dunga. De fazer preparação em forma de pose para as câmeras de TV, a Seleção passou ao igualmente inaceitável extremo oposto, o de atacar a imprensa como se ela fosse a inimiga. Essa pilha gerou uma equipe desequilibrada emocionalmente que, ao se encontrar em desvantagem no marcador, só conseguiu reagir brigando de forma histérica com o árbitro, dedo em riste, e pisando em adversários caídos.
Como se sabe, 2014 trouxe esse outro ineditismo, um resultado de jogo de futebol transformado em substantivo comum reconhecível por qualquer falante nativo. Não há quem não entenda a frase “é cada dia um sete-a-um diferente”. Se vivemos o Maracanaço de 1950 como tragédia, 2014 foi a farsa. Espancando manifestantes, avançando sem merecer, jogando péssimo futebol e sendo auxiliado pelas arbitragens, o Brasil encontrou no 7 x 1 contra a Alemanha a revelação de uma verdade sobre si próprio, por mais que as explicações mais superficiais insistissem que o ocorrido havia sido fruto de um apagão de dez minutos.
Depois do 7 x 1, ficou claro que os técnicos brasileiros estavam defasados ante as inovações táticas do esporte. Ainda tivemos que padecer dois anos inteiros de um segundo ciclo de Dunga até que a CBF reconhecesse que Tite era o mais equipado para assumir o cargo. Em 2016, com Tite, a Seleção passou a jogar um futebol competitivo e dominante, e o Brasil dominou duas Eliminatórias sul-americanas em sequência. De novo, perdemos ambas as Copas nas quartas-de-final, mas vexame não houve. Competimos, brigamos, caímos de pé. Mas, tanto em 2018 como em 2022, Tite foi surpreendido por um arranjo tático que não antecipou. Foi derrotado no xadrez da bola por técnicos que dirigiam potências médias, a Bélgica e a Croácia. Nosso melhor técnico levou nós táticos de treinadores de segunda prateleira da Europa.
De novo desperdiçando tempo como só nós sabemos fazer, jogamos fora três anos inteiros do ciclo seguinte ao contratar técnicos brasileiros pouco equipados para a tarefa antes de trazer Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol de clubes. Independente do que aconteça na Copa de 2026, está claro que devemos continuar com ele para 2030 (inclusive o seu contrato já está renovado), porque tempo de fazer grande coisa ele ainda não teve. Favoritos não somos, mas tampouco o éramos em 2002. Naquela Copa, todos temiam a França e a Argentina. Hoje, todos temem a França e a Espanha. A atual Argentina, campeã do mundo e bicampeã da América, joga com mais confiança que nós. Portugal, virgem de conquistas mundiais, tem um meio-campo mais estrelado que o nosso.
Ou seja, algo espetacular pode acontecer. Ou não, como diria Caetano.
*Idelber Avelar é professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane e autor de vários livros sobre literatura e política. Escreve regularmente sobre futebol e co-apresenta o “Meio de Campo”.

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/z/w/1jDY9AQTqYNwwBmOGx0w/2026-06-07t160852z-1707435789-rc24plae95fa-rtrmadp-3-pope-spain.jpg)
