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Edição de Sábado: O projeto Michelle – Meio

Edição de Sábado: O projeto Michelle – Meio

Edição de Sábado: O projeto Michelle – Meio

No Eixo Monumental, a via-coração de Brasília — que desemboca no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto e no Supremo Tribunal Federal —, está o Centro Empresarial Brasil 21. O complexo reúne três hotéis e três torres comerciais. Está acostumado ao barulho. Afinal, ali fica a sede do Partido Liberal (PL). Com frequência, reuniões partidárias terminam em declarações polêmicas. Foi ali que, no mês passado, o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, surpreendeu seus correligionários ao revelar que havia, sim, se encontrado com Daniel Vorcaro logo após a primeira prisão do banqueiro. Foi dali que, logo em seguida, admitiu o encontro à imprensa, enquanto o senador Sergio Moro deixava na cara sua frustração.

Ali também, tantas e tantas vezes, o deputado Zé Trovão esbraveja com seu emblemático chapéu; o senador Magno Malta cumprimenta jornalistas desejando “a paz do Senhor”; o deputado Nikolas Ferreira entra e sai praticamente escoltado por uma equipe de assessores e seguranças; e o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, deixa o prédio sem demonstrar entusiasmo diante da falta de consenso entre as alas da sigla.

Mas é no nono andar do edifício, longe da gritaria, que acontece uma revolução silenciosa. Na sede do PL Mulher. De sala em sala, lousas brancas com frases escritas em canetão. Em todas elas, um diagrama na vertical aponta a seguinte ordem de palavras: Deus, Família, Pátria e Liberdade. A lógica inverte o Deus-Pátria-Família-Liberdade, slogan do ex-presidente Jair Bolsonaro. “É Deus em primeiro lugar. Em segundo, as pessoas que formam a família. Essas famílias vão construir uma pátria sólida. E só tendo tudo isso é que, de fato, faz sentido a liberdade”, explica um interlocutor próximo a Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama, presidente do PL Mulher e líder desse projeto de convencer, mobilizar e recrutar a militância conservadora feminina.

A centralidade da família é replicada em todas as operações do PL Mulher. Aparece nos materiais de divulgação, nos posts das redes sociais, nos discursos em eventos, na tomada de decisões. Na “nécessaire política”, um material que foi entregue às mandatárias, está a Bússola PLM: um desenho de bússola que orienta as eleitas a terem a família como norte para suas decisões.

Foi pela família também que Michelle justificou a quebra de seu silêncio desde que Flávio foi anunciado como o escolhido de Jair para concorrer à presidência. Pela família dela. O termo tem contornos diferentes dentro do universo Bolsonaro. Michelle e os filhos mais velhos do ex-presidente nunca formaram um núcleo familiar coeso. Pelo contrário. Aliados descrevem uma convivência marcada por conflitos. Ultimamente, nem mesmo a convivência se mantém, tem sido evitada. Laura, a filha caçula do casal, tampouco costuma ser lembrada ou citada pelos enteados como irmã, alegam pessoas próximas a Michelle. Não por acaso, ao romper o silêncio, Michelle afirmou que ataques orquestrados tentam desvincular dela o sobrenome Bolsonaro. E disse mais.

“Para não expor minha família, fiquei calada por muito tempo, mas tem um limite para o quanto uma pessoa consegue suportar ataques e mentiras. Especialmente quando essas mentiras envolvem o seu nome, o sofrimento do seu marido, da sua família e deturpam o trabalho que você entregou de coração. Até agora eu tentei não expor a família, pensando muito no meu marido, mas não dá mais”, disparou no depoimento publicado em suas redes sociais no fim da tarde de quarta-feira.

Nos cerca de vinte e cinco minutos seguintes, Michelle expôs publicamente o racha com os enteados Flávio e Eduardo Bolsonaro. Disse ter sido humilhada por Flávio após questionar uma articulação do partido no Ceará e afirmou ser alvo de ataques coordenados a partir dos Estados Unidos. O arranjo que provocou o desarranjo familiar foi costurado pelo deputado André Fernandes, presidente do diretório cearense do PL, e prevê o apoio do partido à pré-candidatura de Ciro Gomes, crítico histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro, ao governo do estado. Em contrapartida, o grupo de Ciro apoiaria a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes, pai de André, ao Senado. Só que a vaga na chapa é disputada dentro do próprio campo bolsonarista. Michelle defende o nome da vereadora Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL Mulher, para a mesma candidatura. Segundo ela, trata-se, inclusive, de uma orientação do próprio Jair.

Pessoas próximas da ex-primeira-dama afirmam que um dos episódios que mais a irritaram foi a publicação de uma nota segundo a qual seu apoio à campanha de Flávio estaria condicionado a um pedido público de desculpas dos três filhos do ex-presidente. “Esse desejo nunca partiria dela porque, em termos práticos, é praticamente impossível, levando em consideração o gênio dos três, né?”, resumiu um interlocutor de Michelle. E, segundo a própria, a divergência se agravou após uma ligação de Flávio na qual, afirma, ouviu que deveria se afastar das decisões partidárias por “não entender de política”. Ela diz ter se recolhido desde então e sustenta que não há contato entre os dois desde o episódio, embora ele frequente sua casa para visitar o pai, que está em prisão domiciliar.

Apesar do texto claramente pensado palavra a palavra, da cenografia cuidadosamente montada, da serenidade na leitura, Michelle deixou transparecer no vídeo, com clareza, que o tal telefonema foi apenas o estopim de uma disputa mais profunda. “Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam.”

Quem acompanha os movimentos de Michelle de perto garante que a decisão de gravar o vídeo partiu da própria Michelle. A gravação estava pronta havia alguns dias e, segundo eles, foi fruto de uma decisão amadurecida, não de influência de aliados. “Há quem diga que ela teria sido influenciada a fazer o vídeo. Meu Deus do céu. Subestimam muito a inteligência e a capacidade dela de raciocinar politicamente”, afirmou uma pessoa próxima. Dizem, aliás, que a decisão foi tão pessoal que nem o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, fora avisado da publicação do vídeo, embora imaginasse que, mais dia menos dia, o conflito familiar seria exposto. O entorno de Valdemar tem uma versão diferente. Assessores afirmam que ele foi informado da decisão, mas optou por não se envolver, por não tomar lado nessa briga por capital político.

Isso até a coisa escalar. Estrago feito, Valdemar tirou a camisa da Seleção e voltou a vestir a de presidente do PL. Encurtou a viagem a Miami e embarcou para o Brasil, com a missão de pacificar os Bolsonaro. Ou, ao menos, parecer estar fazendo esse papel e convencer os Bolsonaro a parecer estar em paz. “Precisamos acertar isso aí, ou já vamos sair perdendo em casa”, disse Valdemar no aeroporto. Mas não se trata apenas de conciliar temperamentos diferentes. Em campo, estão projetos distintos para o futuro do bolsonarismo.

Na legenda da publicação, Michelle escreveu que aquele era “QUASE” todo o relato. As letras maiúsculas não passaram despercebidas por quem acompanha seus movimentos. Até agora, garantem aliados, não há novos vídeos gravados. A possibilidade de novas revelações, porém, permanece em aberto. Ela avalia e calcula os ônus e os bônus. Enquanto isso, mais do que responder ao episódio com Flávio, Michelle demarca território. Apresenta sua fatura. Não chegou ontem. E não dá sinais de que pretenda sair de cena amanhã.

A revolução Michelle

A ideia de entregar a ala feminina do partido a Michelle Bolsonaro partiu de um Valdemar impressionado com a desenvoltura da então primeira-dama. Jair Bolsonaro abraçou a proposta. Ela, por sua vez, fez um aviso logo de saída. “Quando trouxeram a ideia, respondeu: ‘Tudo bem. Mas eu vou trabalhar de verdade. Vocês estão preparados para isso?’”, lembra alguém do entorno da ex-primeira dama.

Michelle tomou posse do PL Mulher em 21 de março de 2023, aniversário de Jair Bolsonaro. Ali, já recebeu um recado claro de seu marido, pelo telão, já que ele estava em autoexílio nos Estados Unidos. “Que nada suba à cabeça de nenhum de nós, que o ego fique lá para trás, que cada um de vocês, no PL agora, possa entender o momento certo para poder representar não uma alternativa de poder, mas [uma] possibilidade real de poder fazer com que a nossa população realmente siga feliz”, disse o Messias, premonitoriamente.

A fala de Michelle, depois de ouvir uma boa meia dúzia de correligionários homens, foi permeada de referências religiosas. Um ano mais tarde, numa manifestação pela anistia na Av. Paulista, ela deixaria seus objetivos mais claros, ao declarar que “por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderia misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação”. A lente religiosa é a que orienta sua atuação política. O discurso teocrático é parte inexorável do projeto Michelle.

Além do pito do marido, naquela manhã ela recebeu também uma estrutura que existia mais no papel do que na prática e tratou de lhe dar forma. Percorreu o país para empossar presidentes estaduais do PL Mulher, que, por sua vez, receberam a missão de estruturar diretórios municipais. Percebeu que, ao chegar a um estado, atraía mulheres interessadas a se interessarem por política. Fazia queimar a chama da curiosidade nelas. Mas, quando ia embora, essa chama perdia tração. O engajamento esfriava. “Aí ela falou: ‘a gente precisa incentivar que essas pessoas continuem falando de política mesmo quando a gente não estiver lá, com algo concreto. Sabe o que eu pensei? É tão legal na igreja quando nos reunimos, toda semana, nas células. A gente podia ter algo assim”, rememora o interlocutor.

Nascia ali o Projeto Alicerça Brasil, o PAB. As chamadas “alicerçadas”, lideranças femininas do partido, têm a missão de receber outras mulheres em reuniões periódicas. Reuniões, vale dizer, exclusivas para mulheres. Ali, muitas vezes nos quintais de casa, leem materiais de formação política conservadora. Enquanto refletem sobre as teorias aprendidas e os problemas do país, compartilham as dificuldades que têm com os filhos, as questões da casa e do casamento, além de um cafézinho. “Aí vem a parte mais importante da reunião: o lanche. Depois de tudo aquilo compartilhado, conversado, você gera intimidade, gera laços. Os laços fazem a força”, conta esse aliado.

Quanto mais encontros uma participante frequenta, mais credenciada ela fica para abrir a própria célula. Agora, o movimento começa a adotar uma lógica de gamificação: pins de identificação classificam as participantes por cores, de acordo com seu nível de engajamento. As mais ativas ganham acesso VIP a eventos e outros benefícios. Assim, com uma estratégia que mistura uma dinâmica de comunidades religiosas com a das vendas em marketing multinível, tipo Tupperware, e uma pitada do universo de redes sociais, o PL Mulher afirma já ter formado 431 grupos e mobilizado cerca de 5,2 mil mulheres.

Para a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, que acompanha e estuda o PL Mulher desde sua formação, o Projeto Alicerça Brasil transporta para a política uma linguagem já consolidada nas igrejas evangélicas, especialmente nas pentecostais e neopentecostais. Não se trata apenas da mecânica das células, mas de uma forma de organização baseada no pertencimento, na convivência e na construção de vínculos. “É uma gramática de atuação e de organização muito semelhante às linguagens religiosas”, resume.

Parte dessa lógica Michelle Bolsonaro aprendeu ao lado da hoje senadora Damares Alves, uma de suas principais aliadas políticas (a mesma Damares que se tornou um dos pivôs do conflito mais recente entre Michelle e Flávio e que agora foi encarregada de tentar reconstruir a ponte entre madrasta e enteado). Antes de assumir o comando do PL Mulher, Michelle acompanhou de perto a experiência do Mulheres Republicanas, braço feminino do Republicanos então comandado por Damares. Embora menos robusto do que o PL Mulher se tornaria, o movimento funcionou, na prática, como um laboratório de metodologias posteriormente adaptadas e ampliadas pelo PL.

Na avaliação de Jacqueline, essa forma de organização tem raízes ainda mais profundas e antecede o próprio Republicanos — e a intenção de recrutar mulheres. “Esse modo de fazer política do PL Mulher me parece muito semelhante ao que o Republicanos fazia antes mesmo de se tornar Republicanos, mobilizado pelos cursos de formação política que a Igreja Universal promovia. A Universal é uma das denominações evangélicas brasileiras com maior participação de mulheres. Estamos falando dos cursos de formação política que ela realizava, sobretudo entre 2010 e 2016, e que muitas cursavam.” Segundo a antropóloga, foi dessa experiência que surgiram algumas das principais lideranças femininas do segmento evangélico, como Tia Eron. “A diferença é que a centralidade de algumas lideranças da Igreja Universal no Republicanos ainda faz com que o partido fique muito atrelado, mesmo que simbolicamente, ao que é a Igreja Universal. Já o PL não tem esse compromisso, nem ético, nem estético.”

Ao replicar essa linguagem religiosa e o modelo de formação política, o PAB consegue formar pequenas redes locais que se multiplicam sem depender de uma estrutura centralizada. O movimento ganha capilaridade e alcança territórios muitas vezes distantes da política institucional. “É muito menos um movimento do centro para a margem e muito mais da margem para o centro”, afirma.

Na prática, explica a antropóloga, que também é professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e pesquisadora do Cebrap, essas micro-redes vão formando novas lideranças. Primeiro, em espaços de participação local, como conselhos municipais de infância e de saúde da mulher. Não por acaso, a disputa pelos conselhos tutelares passou a ocupar um lugar estratégico nessa máquina. Em 2023, após uma ampla mobilização de igrejas e grupos conservadores, candidatos identificados com a direita conquistaram mais cadeiras do que representantes ligados à esquerda nos conselhos tutelares das duas maiores cidades do país.

Só então esse capital político se desdobra em candidaturas cada vez mais competitivas e de alcance estadual ou nacional. É justamente essa lógica, na avaliação da pesquisadora, que ajuda a explicar a capacidade do PL Mulher de mobilizar mulheres que antes não participavam da política institucional. “De alguma maneira, há uma sensação de que não é um partido, é um movimento. Isso traz uma potencialidade para pensar o cotidiano sem necessariamente haver uma sensação direta de politização do cotidiano.”

E os primeiros frutos eleitorais vieram. Naquele mesmo vídeo bombástico, a própria Michelle narra os ativos que colheu à frente do PL Mulher. “Nas eleições de 2024, elegemos 45,8% mais mulheres do que em 2020. Com pouco mais de um ano de trabalho, foram 1.005 mulheres eleitas. A semente que plantamos começou a dar frutos. E fico feliz quando vejo esse fruto chegando a todos – incluindo ao pré-candidato Flávio, que hoje é bem recebido e apoiado por nossas meninas do PL Mulher nos estados”, ostenta Michelle. Essas mulheres e suas células, geradas nas margens, convergem para o centro. Convergem para a liderança de Michelle Bolsonaro.

O fator Valdemar

“Junto com o presidente Bolsonaro, veio também o trabalho excepcional da senhora Michelle Bolsonaro, que tem levado às mulheres brasileiras o conhecimento, o orgulho e a força do pensamento conservador. Seu empenho tem incentivado a participação feminina na política como nunca antes visto. O resultado foi histórico: o maior número de mulheres eleitas da trajetória do nosso partido. Quando encontramos brasileiros engajados na defesa dos valores conservadores, percebemos uma sintonia imediata entre o que defendemos e o que a maioria do nosso povo acredita. Porque o conservadorismo verdadeiro não nasce em gabinetes – ele brota da vida real, das famílias, das igrejas, do suor de quem trabalha com dignidade e quer um país melhor para seus filhos.”

O trecho integra o prefácio assinado por Valdemar Costa Neto no livro Edificando a Nação, uma coletânea de textos de autores conservadores contemporâneos — de Zoe Martínez a Celina Leão, passando por Jair Bolsonaro —, distribuída às filiadas do PL Mulher como material de formação política. O texto de Valdemar ajuda a traduzir a confiança que o presidente do partido depositou nela. Entre dirigentes do PL, o faro político de Valdemar é frequentemente apontado como uma de suas principais características. Ele raramente faz apostas por impulso. Foi essa leitura que o levou a entregar o comando do PL Mulher a Michelle, com autonomia para desenhar sua estratégia e recursos para transformá-la em uma das principais vitrines da legenda.

Na tentativa de ampliar os ganhos políticos com a presença de Michelle Bolsonaro nos palanques de 2026, o PL destinou R$ 16,2 milhões ao PL Mulher em 2024, segundo as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral. É praticamente o dobro do investido pelo PT em sua ala feminina, que desembolsou R$ 8,3 milhões, e supera também os valores aplicados por outras legendas com grandes bancadas no Congresso. Já no ano passado, segundo o financeiro do PL, a sigla destinou R$ 15,8 milhões ao diretório nacional — sem contar os repasses aos diretórios estaduais. Além disso, a lei fixa um repasse obrigatório de 5% do fundo partidário a ações voltadas à promoção da participação política das mulheres. “A gente nunca ficou só em 5%. O presidente Valdemar sempre fez um aporte muito maior”, garante um integrante do partido.

Essa fonte usa o Encontro Nacional de Mandatárias do Partido Liberal, que aconteceu em junho do ano passado, reunindo as eleitas em 2024, para atestar o prestígio de Michelle. “A ideia surgiu durante um voo. Estavam Michelle, Celina e Damares. Elas deram a ideia de unir os três partidos para fazer um grande encontro de mandatárias eleitas.” O Republicanos não quis fazer o evento em conjunto. Assim, Damares colocou de pé o próprio. “Foi bom porque a gente olhou o formato do dela e entendemos o que poderia ser melhorado.” Já o PP não quis fazer nada: seu presidente nacional, Ciro Nogueira, não bancou. “Aí o Valdemar falou: ‘Michelle, não tem problema. Se eles não querem fazer juntos, nós vamos fazer o nosso. E vai ser o maior do Brasil.”

Assim, comprou passagem para as mil eleitas irem a Brasília, junto de seus assessores. Ali foi entregue, justamente, a tal da nécessaire política. “Neste material está tudo o que a eleita precisa saber sobre o primeiro mandato. Há propostas de projetos de lei envolvendo pautas conservadoras, é só replicar e adaptar ao município ou ao estado. É uma uniformização no sentido de espalhar uma política pública no país inteiro.”

Resiliente diante de Michelle, Valdemar costuma ouvir suas demandas. Quem com eles convive garante que o dirigente já escutou as reclamações de Michelle para o ciclo eleitoral deste ano, de não estar conseguindo fazer as indicações que gostaria. Enquanto o presidente do partido tem como prioridade ampliar a bancada, Michelle costuma insistir que mais importante do que a quantidade é a qualidade dos eleitos. A lógica acompanha a estratégia que ela vem construindo desde que assumiu o PL Mulher: formar uma base política própria, quase pura, mais distante do bolsonarismo tradicional, marcado pelo fisiologismo e sustentado, historicamente, pelas alianças do Centrão.

As ambições deste ciclo

O futuro político de Michelle não se desenha no plano dos homens. Suas decisões são tomadas após dobrar os joelhos no chão. Ela obtém muitas de suas respostas no banheiro, onde Deus costuma falar. Por isso, suas ambições não são contadas, necessariamente, em ciclos eleitorais. Obedecem a uma vontade maior. Entender isso, ou essa imagem que seu entorno de assessores busca emplacar, é imprescindível para entender Michelle Bolsonaro.

De forma pragmática, enquanto dirigente do PL Mulher, ela projeta manter o crescimento alcançado no último pleito: eleger 45% mais mulheres. Para o Senado, defende três nomes: o das deputadas federais Bia Kicis e Carol de Toni e o da vereadora Priscila Costa. Enquanto isso, entre as presidentes estaduais do PL Mulher, 17 serão lançadas às urnas, já incluindo nesta conta Kicis e Costa.

Agora, seu próprio destino ainda não está selado. Apesar de seu nome ao Senado pelo Distrito Federal despontar entre os mais competitivos, o martelo sobre a candidatura ainda não foi batido. Em seu entorno, há os que defendem que “ela ganha mais” permanecendo à frente do PL Mulher, dirigindo o maior movimento partidário de mulheres, formando novas lideranças e preparando sua base eleitoral e política para planos maiores. Para a presidência da República, Flávio já fora ungido pelo pai. Mas e se esse for o plano divino reservado a Michelle? Um aliado responde sem pestanejar: “Quem é Jair perto da vontade de Deus?”

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