Ninguém fala comigo no clube. Por Paulo Nogueira Batista Jr.
Pessoas andando pelas ruas de Florianópolis. Foto: Divulgação
O Brasil já foi em outras épocas, não tão remotas, um país basicamente tolerante e pacífico. A política não costumava ser motivo de controvérsias apaixonadas, pelo menos não em comparação com o que geralmente se vê nos outros países. Reinava em relação aos partidos e aos políticos um ceticismo bem-merecido.
Mudamos. Com a ascensão da extrema direita, ficamos divididos e polarizados. A polarização é claramente assimétrica. De um lado, temos a centro-esquerda, bem centrista, bem moderada – os eleitores de Lula e do PT. O próprio Lula não se assume como de esquerda e chega a negar essa condição publicamente. De outro lado, temos uma nova direita extremada, vociferante e agressiva. Vota em Bolsonaro, ou em quem quer que ele indique, de olhos fechados. De um lado, um comedimento envergonhado; do outro, um dogmatismo desenfreado.
O Brasil é um país continental e a tendência à intolerância da nova direita não acontece na mesma medida em todas as regiões. A história que quero contar se passa na região Sul, em Florianópolis, onde resido.
Sou um tenista bem cabeça de bagre, apesar de jogar há vários anos num clube de tênis aqui no norte da Ilha. Tomo aulas regulares, uma ou duas vezes por semana. Natural que ficasse conhecido e fizesse algumas amizades no clube. Sentia, entretanto, dificuldade em me enturmar. Uma certa frieza, uma certa distância pareciam prevalecer. Paciência. Dei de ombros e segui com as minhas aulinhas.
Um dia, por vias tortas, compreendi tudo. A minha companheira, Lavínia, que mora em Brasília, veio me visitar. Fomos juntos ao supermercado mais próximo e eis que ocorre um fato singular, meio cômico, meio lamentável, típico dos novos tempos. Ao chegar no supermercado, dividimos as tarefas; Lavínia foi para um lado, eu para o outro. Ela esbarra então com um antigo conhecido, que há muito tempo não via, e foi explicando que estava em Florianópolis por causa do namorado que morava no bairro. “Eu sei”, respondeu o sujeito friamente. “Ele joga tênis no mesmo clube que eu. É um petista roxo. Ninguém fala com ele no clube.”
Bem que eu desconfiava. Estava explicado o meu isolamento, a minha dificuldade de fazer amigos e encontrar parceiros de tênis. Era puramente político o problema. Ninguém queria confraternizar ou bater bola com “um petista roxo”.
Alckmin e Lula em campanha em Florianópolis (SC), nas eleições de 2022. Foto: Divulgação
Ora, não sou petista, nunca fui. E muito menos roxo. Tenho minhas reservas em relação ao partido e ao próprio Lula há décadas, desde quando participei da campanha eleitoral de 1994, aquela que terminaria com a vitória de Fernando Henrique Cardoso já no primeiro turno. Isso foi graças ao Plano Real, como o leitor talvez lembre. O que me impressionou na época foi o despreparo dos economistas e dirigentes do PT para fazer face à ameaça eleitoral que o programa de estabilização representava.
Conto o episódio em rápidas pinceladas. A experiência brasileira e de outros países que experimentavam inflação alta era muito clara. Por diferentes métodos, era perfeitamente possível estabilizar a moeda em pouco tempo. E essa estabilização sempre se mostrava muito popular. Nada melhor, portanto, que lançar um plano de estabilização às vésperas de uma eleição, identificando o plano com determinado candidato, no caso Fernando Henrique Cardoso. A identificação era fácil, pois ele havia sido Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e ostentava o mérito de ter reunido uma equipe de economistas experientes, capaz de preparar o plano.
Isso tudo estava claro para mim e um grupo minoritário de economistas do PT. Fizemos o possível para alertar Lula e o comando do partido sobre o risco mortal que o Plano Real, na época conhecido como Plano FHC, representava para a candidatura petista. Defendemos a necessidade de apresentar uma avaliação sóbria do plano e oferecer alternativas bem-elaboradas. Colocamos nossas advertências em notas que circularam dentro do partido. Conversei diversas vezes com o próprio Lula, explicando que aí residia o grande risco para a sua candidatura. Economistas e outras figuras influentes do PT rejeitaram nosso alerta. Lula ficou em cima do muro. A orientação negativa, não raro extremadamente negativa, acabou prevalecendo. Resultado: a candidatura de Lula foi vista pela população como adversária de um plano que se mostrava capaz de debelar a inflação com rapidez. Caixão.
Depois disso, resolvi tomar distância de Lula e do PT. Nunca me filiei ao PT ou a qualquer outro partido. Não me identificava com nenhuma das correntes políticas relevantes no país. Talvez por individualismo excessivo, preferi até hoje me manter independente de partidos políticos e governantes. Um certo paradoxo: eu, homem de esquerda, sempre fui visceralmente individualista. Mas, enfim, temos todos nossas contradições.
Volto ao clube de tênis. Como explicar tudo isso a um bolsonarista? Nada se modificou. Continuo incompreendido e rejeitado por tenistas da nova direita. meu isolamento continua total. Sem parceiros, sem amigos, sigo tranquilo a minha trajetória individual.
Quem mandou morar em Santa Catarina?
*O autor é economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.


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