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‘Precisamos encontrar uma maneira de não nos destruirmos’, diz astrônoma que busca vida extraterrestre

‘Precisamos encontrar uma maneira de não nos destruirmos’, diz astrônoma que busca vida extraterrestre

‘Precisamos encontrar uma maneira de não nos destruirmos’, diz astrônoma que busca vida extraterrestre

Ainda nos anos 1960, o astrônomo Carl Sagan perguntou: “Estamos sozinhos no universo?”. Há pelo menos 50 anos é o que Jill Tarter vem tentando responder. Amiga de Sagan, ela dedicou a sua vida a buscar sinais de civilização avançada fora da Terra. Especialista em radioastronomia, ela fundou em 1984 o Instituto SETI (sigla em inglês para Busca por Inteligência Extraterreste), que analisa sinais captados por grandes redes de radiotelescópios. Ela sabe que pode nunca ter respostas em vida, mas considera que a mera possibilidade já serve de inspiração. E mais importante: para ela, a nossa missão é não nos autodestruirmos no meio do caminho.

Tarter vem ao Brasil para o Rio Innovation Week (RIW), onde dará uma palestra em 4 de agosto, e conversou com o GLOBO sobre o trabalho de sua vida, o impacto da inteligência artificial (IA) na ciência, a crescente presença de bilionários no setor espacial e a maneira como o governo de Donald Trump trata o assunto de objetos voadores não identificados (OVNIs) — em fevereiro, o republicano ordenou a divulgação de documentos históricos do governo sobre o tema, o que causou expectativa e teorias da conspiração. Nada surgiu dos arquivos.

Ao visitar o Brasil, Tarter, que inspirou a personagem Ellie Arroway, do livro Contato, de Sagan, conta que não conhece o caso do ET de Varginha — os personagens nacionais de quem ela mais se lembra são o cantor Ivan Lins e a desativada casa de shows Canecão e seus drinks e caipirinhas. Veja os melhores momentos da conversa abaixo.

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A Sra. dedicou a carreira a uma pergunta que talvez nunca veja respondida. Isso lhe ensinou uma relação diferente com o tempo, ou com o sentido da vida?

Uma coisa a busca por vida além da Terra me ensinou foi a valorizar profundamente a passagem do tempo. Temos uma tecnologia com pouco mais de cem anos. Como espécie, existimos há apenas alguns milhares de anos em uma galáxia com cerca de 10 bilhões de anos. O fato de ainda não termos encontrado qualquer evidência de outra tecnologia não me incomoda, justamente porque tenho essa perspectiva temporal. Em termos cósmicos, esse período de investigação foi extremamente curto. Se olharmos para essa escala, talvez nem devêssemos nos surpreender por ainda não termos descoberto nenhum sinal claro de outra civilização tecnológica.

Talvez seja necessário desenvolver uma física completamente nova para conseguirmos avançar. Pode ser que ainda não tenhamos amadurecido o suficiente para criar os instrumentos capazes de detectar as evidências que existem por aí. Mas isso não significa que devemos abandonar essa procura. Também não torna essa questão menos relevante. Independentemente de a humanidade ter um futuro longo ou breve, esse é um tema fundamental. E encontrar uma única civilização — uma única espécie tecnológica que tenha conseguido sobreviver por muito tempo — seria, na minha visão, um enorme incentivo para nós. Do ponto de vista tecnológico, ainda somos adolescentes. Estamos tentando encontrar nosso caminho e descobrir como evitar nossa própria destruição antes mesmo de conseguirmos saber se existe alguém mais no universo.

Teve algum momento que a Sra. achou que tinha encontrado algo? Quando foi e como foi a sua reação?

A primeira vez que tive um falso positivo foi uma experiência incrível. Isso foi na década de 1980 em um programa de observação em Nançay, na França. Passei praticamente dois dias seguidos sem dormir, porque tinha certeza de que, assim que eu fosse para a cama, meu colega francês ligaria e diria: “Encontramos!”. Levou algum tempo até fazermos o experimento adequado para demonstrar que o que havíamos detectado era, na verdade, um radar de um aeroporto distante.

Por causa da geometria do telescópio, esse sinal estava conseguindo entrar nos nossos detectores. Havia um ponto específico em que, conforme o instrumento se movia, o sinal desaparecia. Quando ele voltava exatamente para a mesma posição, o sinal reaparecia. Só quando percebemos que esse era o teste de controle correto é que conseguimos confirmar que era isso mesmo. Mas, até chegarmos a essa conclusão, foi um período de enorme empolgação.

Ao mesmo tempo, a pergunta passa a ser: “E agora, o que fazemos?”. O mais importante é fazer tudo da maneira correta e documentar cada etapa. Afinal, você vai precisar apresentar a descoberta aos colegas e ao restante do mundo, explicar por que acredita ter encontrado aquilo e defender essa conclusão com evidências. Então, por mais empolgante que seja — e é uma empolgação indescritível —, você precisa manter a cabeça no lugar e fazer o trabalho com rigor.

O Paradoxo de Fermi diz que as civilizações se autodestroem antes de serem ouvidas. O atual momento da Humanidade — com crise climática, armas nucleares e IA — indica que chegaremos ao fim antes que outras civilizações possam nos descobrir?

Essa é uma pergunta extremamente profunda. Será que estamos nos comportando de uma forma que fará com que nosso futuro seja muito curto? Penso muito sobre isso. E essa é uma das razões pelas quais trabalho com o SETI. Se o SETI — ou qualquer outra missão dedicada à busca por vida além da Terra — tiver sucesso, talvez descubramos que alguma civilização conseguiu atravessar essa fase de adolescência tecnológica. Que alguém conseguiu amadurecer e sobreviver.

Se detectarmos alguma coisa, é muito provável que os primeiros sinais venham das civilizações mais antigas, mais brilhantes e mais tecnologicamente avançadas. O simples fato de saber que outra espécie conseguiu superar esse desafio já seria, na minha opinião, uma enorme fonte de inspiração para encontrarmos uma maneira de fazer o mesmo. Precisamos encontrar uma maneira de não nos destruirmos.

Como a IA está transformando a astronomia?

O potencial que ela oferece é enorme. Quando estou envolvida em um projeto de pesquisa e surge uma pergunta cuja resposta exige conhecimentos que eu não tenho, procuro um parceiro que possua essa especialidade. Quando olho para a IA como uma possível parceira, fico admirada com a enorme quantidade e diversidade de informações que esses LLMs conseguem reunir. Mas também já vi demonstrações muito interessantes de como eles podem alucinar, interpretar algo de forma equivocada ou simplesmente inventar informações.

Por isso, acredito que sempre será necessário haver um ser humano para mantê-los honestos. O que mais me impressiona é a velocidade com que isso está acontecendo. Antes eu imaginava que levaria anos. Hoje, penso que estamos falando de meses, porque tudo está avançando muito rapidamente. Hoje conseguimos integrar dados provenientes de um número enorme de fontes diferentes. Isso permite ter uma visão muito mais ampla e identificar relações entre conjuntos de informações que, à primeira vista, pareciam completamente desconectados.

Como treinar um modelo para reconhecer algo verdadeiramente inédito, se o aprendizado de máquina é feito para reconhecer padrões que já viu antes?

Essa é uma pergunta difícil. Basicamente, o que você está perguntando é: como criar um conjunto de dados nulo para treinar uma IA. Ou seja, um conjunto de dados em que você possa garantir, com absoluta certeza, que não existe nenhum padrão, nenhum sinal — apenas ruído. Ruído puro. O problema é que construir esse conjunto de referência é extremamente difícil. Na maioria dos casos, você precisa compreender profundamente o instrumento que coletou aqueles dados.

É preciso conhecê-lo muito bem para saber se aquilo que você está observando é apenas uma falha do equipamento, algum comportamento inesperado ou, por exemplo, um capacitor descarregando de uma maneira que produz um sinal aparente.

Existem alguns testes padronizados que podemos aplicar. E acho que o mais importante é que, se você pretende usar uma IA, defina antecipadamente quais critérios ela precisa cumprir para que o resultado seja considerado válido. Isso não pode ser decidido no meio do processo. Depois, é preciso manter a disciplina. Mesmo que a IA apresente algo extremamente interessante, se esse resultado não passar pelos testes que você definiu previamente, você não pode simplesmente pensar: “Ah, isso é tão incomum. Vou investigar mesmo assim.” Essa é uma armadilha na qual você não quer cair.

A corrida pela IA está tirando recursos de outros campos da ciência? Como isso impacta o seu trabalho?

Ah, isso não tem nada de novo. Sempre foi assim. Ao longo da história, sempre tivemos que recorrer a diferentes fontes de financiamento para sustentar a pesquisa científica. E você adapta o projeto ao perfil de quem vai financiá-lo. Você não tenta vender algo que pode até ser extremamente importante, mas que é tão interessante quanto ver tinta secar.

Em vez disso, apresenta o lado mais empolgante da pesquisa. Explica como ela pode impactar a vida daquela pessoa — seja um senador, um assessor ou qualquer outro financiador — e por que aquilo merece investimento. Sempre fizemos isso. Muita gente diz que os pesquisadores estão apenas surfando na onda da IA. Mas, sinceramente, não vejo isso como algo muito diferente do que sempre aconteceu. A diferença talvez seja apenas a escala. Hoje há muito mais dinheiro circulando nessa área.

Na astronomia, dizemos ao financiador: “Quero construir um novo instrumento. Ele permitirá observar o Universo de uma maneira inédita e responderá às perguntas A, B, C e D.” Mas a experiência histórica mostra que as descobertas mais importantes quase nunca são aquelas que motivaram o projeto. O maior valor de um novo instrumento é revelar algo completamente inesperado.

Qual é o risco de o SETI e a ciência dependerem de bilionários para serem financiadas?

Provavelmente você só seguirá esse caminho quando não houver outra alternativa. Ou seja, quando as fontes tradicionais de financiamento — estaduais e federais — deixarem de existir, como aconteceu com o SETI. O senador Richard Bryan conseguiu remover o SETI do orçamento federal por um longo período. Levamos muitos anos para recuperar esse apoio e convencer as autoridades de que aquilo era um erro, de que a pesquisa deveria voltar a receber financiamento público.

Mas os bilionários sempre estiveram presentes na história da ciência. Eles foram responsáveis por viabilizar diversas descobertas importantes, mas esse não é o modelo ideal, porque, em geral, bilionários têm um horizonte de tempo mais curto. Eles querem mudar o mundo — e querem fazer isso amanhã. Normalmente, não estão tão interessados em investir pensando nas próximas gerações, nos seus netos ou bisnetos.

Mas estão dispostos a assumir riscos, pelo menos durante algum tempo. Estão envolvidos, fazem perguntas, querem encontrar respostas e, muitas vezes, querem ser os primeiros a descobri-las. Portanto, os bilionários não deveriam ser a principal fonte de financiamento da ciência, mas certamente desempenham um papel importante.

Como a Sra. vê a obsessão de Elon Musk por colonizar Marte?

Gosto da abordagem de que ninguém deve morrer ao pousar. A ideia dele é tornar essas viagens seguras o suficiente para que isso não aconteça. Também acredito que tentar recriar, em outro lugar, um sistema capaz de sustentar a vida nos ensinará muito sobre o próprio sistema que mantém a vida aqui na Terra.

Como alguém que lutou décadas para tornar o SETI rigoroso, a senhora enxerga a maneira como o governo americano vem explorando a ideia de OVNIs?

Quanto à ideia de tornar os dados públicos, acho excelente. Já em relação a tomar cloroquina e algumas das outras sugestões que ele fez… nem tanto. Hoje, o público tem acesso a informações que antes eram inacessíveis ou muito difíceis de obter. Isso é algo positivo. Mas o fato de uma pessoa carismática, que se comunica bem e aparece na televisão, afirmar alguma coisa não significa que ela esteja certa.

Não busque respostas com celebridades. Converse com cientistas que realmente entendem a natureza dos dados que foram coletados. E ouça o que ele tem a dizer. O problema é que somos muito preguiçosos. Gostamos de ouvir uma boa história, algo que nos faça sentir bem. Não queremos fazer o trabalho mais difícil, que é perguntar: “O que esses dados realmente mostram?”.

Porque nós não apenas enxergamos. Nós interpretamos.

A Sra. conhece o caso do ET de Varginha?

Não conheço. O lado triste é que, muitas vezes, existe uma explicação perfeitamente lógica para esses fenômenos — ou talvez não, eu realmente não sei. Mas uma explicação racional costuma ser muito menos interessante do que simplesmente dizer: “São alienígenas”. A interpretação correta nem sempre ganha a mesma divulgação que a versão mais espetacular e divertida da história.

A Sra. usa ferramentas de IA? Quais delas e para quais tarefas?

Sou de outra geração. Já estou velha, né? Uso IA o tempo todo, mas, na maioria das vezes, nem percebo que estou usando. Ela está funcionando nos bastidores das tarefas que faço diariamente. Quando faço uma busca no Google, por exemplo, tenho a impressão de que estou apenas pesquisando na internet. Mas, na realidade, existem modelos de linguagem extremamente sofisticados trabalhando por trás para tentar responder às minhas perguntas.

Mais recentemente, tenho usado o Opus 4.8. Estou tentando aprender a conversar melhor com esses sistemas, entender como manter um diálogo realmente produtivo e descobrir que tipos de *prompts* posso usar para evitar que o modelo alucine ou siga por algum caminho completamente sem sentido.

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