Intervenções em restinga de Panaquatira acendem alerta entre pesquisadores da UFMA
Uma sequência de intervenções em uma área de restinga na Praia de Panaquatira, em São José de Ribamar, vem preocupando pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e moradores da região. O local, que integra um projeto de recuperação ambiental coordenado pela universidade, sofreu um incêndio em 2025 e, mais recentemente, teve parte da vegetação soterrada por areia.
O trecho afetado tem aproximadamente 390 metros de extensão e faz parte do Re-MARE (Restauração Ecológica de Manguezais e Restingas da Amazônia Costeira Maranhense), projeto financiado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), executado pela Fundação Sousândrade e com coordenação técnica da UFMA.
A situação foi registrada em um relatório técnico elaborado pela bióloga e professora da UFMA Adriani Hass, de 56 anos. O documento reúne fotos, vídeos, imagens de drone e registros feitos durante visitas ao longo dos últimos meses.
Uma sucessão de eventos preocupantes
Segundo Adriani, as mudanças na área aconteceram em etapas. Primeiro, foram colocadas estacas para cercar 390 metros da região. Depois, em setembro de 2025, um incêndio atingiu aproximadamente 6,9 hectares de vegetação. O ponto onde o fogo teria começado coincide com o início da linha de estacas, o que levanta suspeitas sobre a origem do incêndio.
Mais recentemente, no dia 14 de agosto de 2026, os pesquisadores registraram a movimentação de areia e o soterramento de parte da vegetação que vinha se recuperando. “Minha preocupação não decorre de um fato isolado, mas da sucessão de alterações sobre a mesma área”, afirma a pesquisadora. Ela ressalta, porém, que a eventual responsabilidade pelas intervenções ainda precisa ser apurada pelos órgãos competentes.
O incêndio de 2025 causou a morte ou danos graves a várias plantas nativas, entre elas cajueiros, muricis, palmeiras e outras espécies típicas da restinga. Também foram encontrados animais mortos, como anfíbios, aracnídeos e outros pequenos vertebrados. A área era utilizada por corujas-buraqueiras, que mantinham tocas no local.
Recuperação interrompida
Depois do incêndio, foram realizadas ações para ajudar a vegetação a se recuperar. O trabalho apresentou resultados positivos. Em 7 de agosto de 2026, apenas uma semana antes da nova intervenção, fotos mostravam a área novamente coberta por vegetação e com plantas em floração, indicando que o ecossistema estava reagindo bem.
No dia 14 de agosto, porém, parte dessa área foi novamente atingida. Os pesquisadores encontraram grande quantidade de areia sendo despejada sobre plantas que ainda estavam vivas. Também foram observadas marcas de veículos ou máquinas passando sobre a vegetação.
Segundo Adriani, a situação preocupa porque a intervenção ocorreu justamente em uma área que apresentava sinais claros de regeneração. “O soterramento recobre vegetação ainda viva, incluindo espécies herbáceas e arbustivas que participam da fixação das dunas”, explica.
Por que a restinga importa
A vegetação da restinga desempenha um papel fundamental na estabilização da areia e na manutenção das dunas. Essa função ajuda a proteger a faixa costeira contra a erosão. Por suas características, a área deve ser analisada pelos órgãos competentes para confirmar seu enquadramento como Área de Preservação Permanente (APP), já que a legislação brasileira considera APP as restingas que contribuem para a fixação de dunas ou a estabilização de mangues.
“A vegetação tem papel importante na estabilização desse material. Sua perda ou soterramento pode aumentar a vulnerabilidade da área à erosão e à remobilização da areia”, alerta a bióloga.
A região também é importante para aves migratórias que passam pelo litoral maranhense durante seus deslocamentos sazonais. Entre as espécies registradas estão Calidris canutus rufa, Calidris pusilla e Pluvialis squatarola. Em abril de 2026, foram contabilizados 550 indivíduos de Calidris canutus rufa em Panaquatira, reforçando a relevância ecológica da área.
Investigação em andamento
Quando o aterramento foi identificado, a atividade ainda estava acontecendo. Os pesquisadores acionaram o 190, gerando um protocolo de atendimento. No mesmo dia, uma equipe de Fiscalização Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMAM) esteve no local.
Até o momento, não há identificação oficial dos responsáveis. Moradores disseram aos pesquisadores que a área supostamente estaria ligada a um corretor que mora nas proximidades, informação que ainda está sendo investigada. Os pesquisadores também registraram a placa de um veículo ligado à equipe que realizava o aterramento. O dado foi encaminhado às autoridades e pode auxiliar na investigação.
O relatório recomenda que a fiscalização continue, que seja verificada a situação do cercamento e das intervenções e que todo o material produzido seja preservado. Também é indicado o encaminhamento do caso aos Ministérios Públicos Estadual e Federal.
A principal preocupação dos pesquisadores é evitar que a intervenção avance para outras áreas. Para Adriani, a proteção da restinga envolve não apenas a preservação da vegetação, mas também dos animais, das dunas e de um ambiente que já vinha recebendo trabalho para se recuperar. “Existe uma vulnerabilidade ambiental adicional criada pela intervenção, principalmente pela terraplenagem do local, que antes tinha alto declive”, conclui.
O relatório alerta que interromper novas intervenções é essencial para impedir que um problema localizado se transforme em uma ocupação maior e cause danos ainda mais graves à faixa de restinga de Panaquatira.
Com informações de O Imparcial
O Ludovico



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