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Meios não foram moderados, diz Polícia sobre mulher morta por agente em SP

Meios não foram moderados, diz Polícia sobre mulher morta por agente em SP

Meios não foram moderados, diz Polícia sobre mulher morta por agente em SP

A Polícia Civil de São Paulo apontou uso excessivo e não progressivo de violência no caso da morte de Camila Pereira da Silva, de 32 anos, baleada por um policial militar ontem (15) à tarde em Pirituba, zona norte da capital paulista.

Segundo o boletim e ocorrência, o PM teria assumido o risco de produzir a morte, considerando que a mulher estava sozinha, não apontava a faca em direção aos pelo menos três agentes que estavam no local, que era aberto e com mais possibilidades de afastamento.

O delegado destacou que a “reação foi manifestamente desproporcional”, e que o agente ultrapassou de forma consciente os limites da necessidade e da moderação, o que é punível.

Uso excessivo da força

A deliberação levou em consideração um vídeo que circula nas redes sociais gravado por câmeras de segurança próximos ao local da ocorrência, no cruzamento entre a Avenida Mutinga com a Rua Candido da Cunha, no bairro Vila Pirituba.

Veja vídeos:

Nas imagens, o delegado questionou a tese de legítima defesa levantada pelo PM André Coelho Maximo da Costa, considerando que o uso de arma de fogo por agentes de segurança pública com treinamento deve ser ainda mais rigoroso e apenas em último caso.

O artigo 25 do código penal exige ainda o uso moderado dos meios necessários, ou seja usar o meio menos letal disponível e eficaz, para estritamente cessar a agressão.

De acordo com as imagens, a mulher não fez nenhum movimento de golpe e que caminhar com os braços baixos e a vários metros de distância, não configura agressão iminente que autorizasse o disparo letal.

“Os meios usados não foram nem necessários nem moderados, tendo em vista que não houve uso progressivo da força”, apontou o delegado responsável pelo caso, destacando que o vídeo revela que os policiais não utilizaram spray químico, taser (arma de choque) ou cacetete antes do disparo.

Além disso, a deliberação argumenta que estavam presentes ao menos três policiais militares treinados e equipados diante de uma única mulher, em um espaço público e aberto que possibilitava outras formas de afastamento e contenção.

Depoimentos coletados

Segundo depoimentos coletados dos PMs envolvidos, a ocorrência se iniciou com um pedido de ajuda do então namorado de Camila, Diogo Sousa e Silva. Ele se aproximou dos PMs em uma Toyota Hilux preta, que pode ser vista no vídeo, e solicitou ajuda alegando estar sendo perseguido e ameaçado por ela, que portava uma faca, por não se conformar com o término amoroso.

Os agentes envolvidos na ação contaram que no momento que Diogo os abordou, estavam em uma oficina no local pois a moto de um dos PMs teve pane elétrica e precisou de reparo.

Porém, Diogo contou que por se sentir ameaçado deixou o local e não viu o momento do disparo nem a dinâmica da intervenção policial, tendo apenas ouvido uma ordem verbal “não venha” de um dos agentes.

O PM que efetuou o disparo ainda foi interrogado pela Polícia Civil, e confirmou a versão de que a moto de um dos agentes estaria em reparo, momento em que a camionete preta se aproximou com dois passageiros e um deles solicitou ajuda.

De acordo com o agente, que foi preso em flagrante pela morte de Camila, ele teria prontamente solicitado atendimento médico após o disparo. No momento ele alegou se ver em uma situação de perigo eminente, ao ter esbarrado em um caminhão enquanto tentava manter a distância de segurança da mulher, o que teria impossibilitado que continuasse recuando.

Perguntado sobre o não uso do taser, André Coelho Maximo da Costa disse não ter habilitação para tal.

Camila apresentava problemas graves de saúde

As autoridades colheram também o depoimento de Marina Pereira da Silva, tia de Camila, que relatou que a sobrinha apresentava problemas graves de saúde a cerca de cinco anos.

De acordo com Marina, a vítima estava na fila de transplante de fígado há aproximadamente dois anos, e tinha que comparecer ao hospital semanalmente, o que comprometia significativamente sua qualidade de vida e a impossibilitava de trabalhar.

Camila não possuía diagnóstico de qualquer transtorno psiquiátrico ou doença mental segundo a familiar, mas vivia um relacionamento muito conturbado e com episódios de violência psicológica por parte de Diogo na sua visão.

No entanto, de acordo com o depoimento dos próprios policiais, Camila estava em surto psicótico, e uma abordagem de contenção deveria ter sido adotada ao onvés de neutralização.

Próximos passos

O delegado responsável pelo caso descartou a tese de legítima defesa, mas destacou que se trata de uma deliberação técnica e que a não antecipa juízo de culpa e pode ser reavaliada.

Após audiência de custódia realizada nesta sexta-feira (16), o PM foi solto mas cumpre medidas cautelares. O agente foi suspenso de suas atividades operacionais na PM e das que exijam porte de arma de fogo, ficando restrito a atividades administrativas. Além disso, ele não pode deixar a cidade por mais de oito dias sem autorização.

Se alguma das medidas for descumprida ele será preso novamente, e a corregedoria da Polícia Militar de São Paulo foi acionada e investiga o caso.

O advogado do Policial, Gilberto Quintanilha Pucci, afirma que considera a prisão do agente arbitrária. Além de esclarecer que o mesmo atuou de forma institucional durante o caso.

“A defesa do policial militar envolvido na ocorrência vem a público manifestar seu firme posicionamento quanto à prisão realizada, a qual considera arbitrária, desproporcional e desprovida da necessária análise das circunstâncias concretas dos fatos.

É fundamental esclarecer que o policial militar, durante a ocorrência, atuou no exercício de suas funções institucionais, empregando os meios e equipamentos de que dispunha naquele momento, em conformidade com o treinamento recebido e com os protocolos operacionais estabelecidos pela própria Polícia Militar.”

*Sob supervisão de André Rigue

Créditos