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Flávio Bolsonaro defendeu o PM que matou Ana Clara e agora quer apagar a marca da munição

Flávio Bolsonaro defendeu o PM que matou Ana Clara e agora quer apagar a marca da munição

Flávio Bolsonaro defendeu o PM que matou Ana Clara e agora quer apagar a marca da munição

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi cobrado, no debate da Band na noite deste domingo (18), sobre dois assuntos que se cruzam: a defesa que ele assinou em favor do policial militar acusado de matar a menina Ana Clara Machado, de 5 anos, e o apoio a um projeto que suprime a identificação de munições vendidas às forças de segurança.

Ana Clara brincava na porta de casa com o irmão de 2 anos, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na manhã de 2 de fevereiro de 2021, quando foi atingida por disparos de fuzil durante patrulhamento policial. A acusação do Ministério Público do Rio aponta o cabo Bruno Dias Delaroli como autor. A perícia recolheu estojos compatíveis com o fuzil dele e não encontrou marcas de tiro na viatura, o que derrubou a versão de confronto. O policial responde ao processo em liberdade desde o fim de 2021.

A assinatura que trava o julgamento

Em 2024, quando a Justiça determinou que o caso fosse a júri popular, Flávio Bolsonaro entrou na equipe de defesa do cabo. Ele assinou petição ao Superior Tribunal de Justiça tentando anular o envio do policial a júri. O pedido foi negado pelos ministros do STJ, e o julgamento segue pendente.

O senador também integrou a defesa de outros quatro policiais militares do Grupamento de Intervenção Tática denunciados pela emboscada que matou quatro pessoas no Morro do Vidigal, em janeiro de 2020. A mãe de Ana Clara, Cristiane Gomes, relatou ao UOL que precisou implorar para que os policiais socorressem a filha. A menina chegou a ser levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu.

O que o projeto da munição faz

Nas entrevistas da semana, Flávio foi questionado sobre o apoio a uma proposta que retira a marcação de lote das munições adquiridas por polícias e Forças Armadas. A marcação é o que permite à perícia ligar um cartucho encontrado na cena de um crime ao lote que o produziu e ao órgão que o comprou.

Sem essa gravação, a investigação perde a principal ferramenta para saber de onde saiu a bala que matou uma criança, assaltou um banco ou atingiu um ônibus. Foi exatamente por meio das marcações que laudos conseguiram, no caso de Ana Clara, vincular os estojos encontrados na rua à arma do policial.

O alerta é de especialistas em segurança pública e inteligência balística. Levantamento do Instituto Sou da Paz, intitulado “De onde vem o tiro?”, periciou 31.699 cartuchos de fuzil apreendidos com o Comando Vermelho entre 2018 e 2025 no Rio de Janeiro. Do total, 40,9% foram fabricados pela brasileira CBC, mais que Rússia (28,1%) e Estados Unidos (14,1%). Nos calibres mais destruidores, a dependência da indústria nacional é ainda maior: 74,3% dos cartuchos 7,62 e 58,4% dos 5,56 saíram de fábrica brasileira.

“Um percentual significativo das armas e das munições que puderam ser rastreadas e foram apreendidas com o Comando Vermelho foi desviado de instituições de segurança e também de CACs. Mostra que há esse vínculo do mercado legal nacional para o mercado ilegal”, afirmou ao Brasil de Fato a diretora-executiva do Sou da Paz, Carolina Ricardo.

O histórico de condecorações

A relação de Flávio Bolsonaro com agentes acusados de crimes graves não começou na campanha de 2026. Levantamento da revista Piauí nos registros da Alerj apontou pelo menos 23 policiais condecorados por ele entre 2003 e 2018 que depois se tornaram réus ou foram condenados.

Em 2003, ele concedeu moção de louvor ao então tenente Adriano Magalhães da Nóbrega. Em setembro de 2005, foi pessoalmente ao Batalhão Especial Prisional, em Benfica, entregar a Medalha Tiradentes a Nóbrega, que estava preso havia mais de um ano pelo assassinato do guardador de carros Leandro dos Santos Silva. Nóbrega seria depois expulso da corporação e apontado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil como líder da milícia de Rio das Pedras e chefe do Escritório do Crime. Ele morreu em operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020.

Em depoimento ao Ministério Público naquele ano, Flávio admitiu que Nóbrega foi seu instrutor particular de tiro. A mãe e a ex-esposa do miliciano foram nomeadas em seu gabinete na Alerj, em articulação atribuída a Fabrício Queiroz.

Em março de 2004, Flávio aprovou moção de louvor ao então capitão Ronald Paulo Alves Pereira, três meses depois de o oficial passar a ser investigado como suspeito da Chacina da Via Show. Ronald foi posteriormente apontado como líder do Escritório do Crime ao lado de Nóbrega e condenado pelo STF, em março de 2026, a 56 anos de prisão por participar do planejamento da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Na CPI das Milícias, instalada em 2008, Flávio fez oposição solitária aos trabalhos e sustentou em plenário que não se deveria “estigmatizar a milícia”.

O que está em jogo no dia 25

A um semana do segundo turno, os dois temas se juntam num mesmo eleitor: aquele que perdeu alguém para uma bala perdida, ou que tem medo de perder. O candidato que assinou a defesa do policial acusado de matar uma criança de 5 anos é o mesmo que quer retirar a marca da munição que permite rastrear essa bala.

Lula (PT) levou o caso de Ana Clara ao debate e ao horário eleitoral. A série “Revelando”, apresentada por Camila Pitanga, dedicou o terceiro episódio ao caso, com o título “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, e ouviu a mãe da menina.

Cristiane Gomes espera o julgamento do policial há mais de cinco anos. Ana Clara teria hoje 10 anos.

Ariosto Carvalho, editor do blog O Ludovico

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