A história do Flávio não fecha – Meio
Você quer entender exatamente a relação de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o dinheiro do Banco Master? Vem comigo.
Ontem, Flávio conseguiu seu encontro com Donald Trump. Até princípios da tarde, não tinha certeza se ia acontecer. Confirmaram da Casa Branca. Ele, seu irmão Eduardo e o neto do ditador, Paulo Figueiredo, correram. Tomaram um chá de cadeira de quase uma hora e meia. Normal, tá? Não se visita presidente americano e ele recebe na hora. Entraram, tiraram foto os quatro, depois só Flávio. O senador ouviu de Trump que ele achou Lula um sujeito muito decisivo, aí ele pediu uma ajuda. Na saída, ganhou do presidente uma Challenge coin. Uma moeda comemorativa da presidência Trump, todos os presidentes têm a sua. À imprensa, falaram que é coisa que poucos recebem, símbolo de apreço. Mas, muito cá entre nós, se você for agora na gift shop da Casa Branca pode comprar uma online mesmo, custa 275 dólares mais impostos. A Receita Federal periga dobrar o preço. Sabe como é. Importação.
Na cabeça deles, uma foto com Donald Trump resolve com sua base o problema que ele arranjou com o Banco Master. Bem, eu tenho certeza de que vocês já ouviram falar muito de Flávio com Master, do ex-governador do Rio, Claudio Castro, com o Master, do ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, com o Master. Tudo certo. Também já devem ter lido um monte sobre a ida do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos. Mas alguém já listou todos os fatos por ordem cronológica para vocês? Porque, olha, eles dizem um monte. Principalmente, eles explicam muito.
Vamos lá. Lembra, antes de tudo, o seguinte: a terra da família Bolsonaro é a minha terra. O Rio de Janeiro. Eles fazem parte da estrutura que está no comando da política do Rio, da Alerj e do governo do Estado, nos últimos oito anos. Seu segundo pé na política é o Distrito Federal, o governo Ibaneis Rocha. Muito antes de haver Tarcísio em São Paulo, já tinha Claudio Castro e Ibaneis. Registrado?
Entre outubro de 2023 e o fim de 2024, a Rioprevidência, o fundo de pensão dos funcionários públicos estaduais, pôs quase 4 bilhões de reais no Banco Master. Bem, em 14 de outubro de 2024, o Tribunal de Contas do estado informou ao governador, ao Castro, que a coisa não cheirava bem e estava sendo investigada. Banco pequeno, lucros altos demais, dinheiro demais dos aposentados. Nesse mesmo mês, o deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha denunciou publicamente, no plenário da Alerj, que o problema era grande e precisava ser visto. Deixa eu repetir: outubro de 2024.
No dia 8 de dezembro de 2024, menos de dois meses depois, Tiago Miranda, dono do Portal Leo Dias, apresentou Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, dono do Master. O Flávio quer convencer vocês de que ele não sabia de nada, de que não havia nada contra o Vorcaro naquela época. Rigorosamente todo o mundo político do Rio de Janeiro só falava disso. Todo mundo sabia que o maior escândalo por estourar no governo Castro era esse. Aliás, muito cá entre nós, já tinha uma aposta rolando no Supremo Tribunal Federal sobre quanto tempo demoraria pro Castro estar preso. Mas esse pedaço é só fofoca de Brasília.
No dia 11 de dezembro de 2024, Flávio Bolsonaro teve uma reunião na casa de Vorcaro. No mesmo mês, o presidente do Banco Central na época, Roberto Campos Neto, chamou Vorcaro pruma conversa. Disse que estava preocupado com a liquidez do banco. E, a essa altura, Flávio já não era apenas o político mais desinformado do Rio de Janeiro. Ele era, também, o senador mais desinformado de Brasília.
Em janeiro de 2025, semanas depois da reunião de Flávio com Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel, da Igreja da Lagoinha, cunhado de Vorcaro, mandou para o banqueiro um plano de fluxo de pagamento para os Bolsonaro. 10 parcelas de 2 milhões e meio de dólares cada. No total, 25 milhões de dólares. Isso foi em janeiro. Adivinha o que aconteceu em fevereiro? Eduardo Bolsonaro se mudou para os Estados Unidos.
Pois é. Uma das coisas que o Intercept mostrou, hoje, é que Flávio não era o único Bolsonaro muito interessado nessa grana. Eduardo era o outro. E ele escolheu se mudar para os Estados Unidos justamente quando a dinheirama estava toda combinada. Vocês acreditam em coincidência?
Eu também não. Posso falar uma coisa? Essa história vai melhorar. Vem comigo.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Você acabou de ouvir como Flávio Bolsonaro chegou até aqui. Amanhã eu vou te contar quem ele já perdeu.
Sai amanhã a nova pesquisa Meio/Ideia. Que ele perdeu cinco pontos numa semana você já viu na imprensa. Cinco pontos é número. Não diz quem decidiu. A Meio/Ideia diz. Quem é esse eleitor que saiu, qual o perfil dele. E o mais importante: por que Flávio perdeu quem não podia perder.
A pesquisa sai amanhã. Se você for assinante Meio Premium, vai ser o primeiro a saber. Assina. 15 reais. Não é nada.
De quebra, ainda ganha uma surpresa. Quer saber? No final desse vídeo.
Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
A gente não sabe exatamente em que dia Eduardo Bolsonaro deixou o Brasil para os Estados Unidos. Sabemos que, no dia 6 de fevereiro, já estava lá. Foi quando registrou, na Câmara dos Deputados, seu primeiro pedido de licença. Bem, no dia 27 de fevereiro Mercury Legacy Fund Trust, gerido pelo advogado Paulo Calixto, comprou no Texas, em Arlington, uma casa de 726 mil dólares. O representante legal deste imóvel é André Porciúncula, número dois de Mario Frias, quando ministro da Cultura.
Calma, calma, calma. Paulo Calixto? Mário Frias? Frias é aquele ex-Malhação, o camarada responsável pelo filme Dark Horse. O filme do Bolsonaro. Calixto? Eu chego lá. Segue a trilha.
A gente não sabe se o Eduardo morou nessa casa. Ele nega que seja sua. Mas foi negociada por gente que trabalha pra ele. Desde o início do ano, o filho zero três está morando num casarão em Southlake, no Texas, onde o repórter do Intercept encontrou, na semana passada, sua mulher, Heloísa. Pois é. Uma casa bacana, com piscina, quatro quartos, vizinhança de gente bem apessoada. Aluguel, 6 mil dólares por mês. O Eduardo faz drama, tá? Diz que vive de aluguel, tem dificuldade de pagar as contas. Ninguém tem nada com isso, mas tem como viver bem por menos dinheiro por lá, tá? Poderia, inclusive, morar naquela outra casa. Possível que seja menor.
Mas fato é que aquele primeiro fevereiro da família Bolsonaro 03 nos Estados Unidos foi um mês mágico. Bateram as primeiras duas parcelas do Vorcaro, cinco milhões de dólares, e ele pôde se concentrar em fazer lobby contra o Brasil, em Washington.
Aí chegamos em março. 21 de março, Tiago Miranda mandou uma mensagem para o Vorcaro. Lembra do Tiago Miranda? O camarada do Portal Leo Dias? Pois é. “Preciso de um direcionamento seu para seguir.” Isso foi uma hora da tarde. E vinha junto uma captura de tela, papo dele com o Eduardo. Nesse mesmo dia, o Eduardo ligou pro celular do Vorcaro. Duas vezes. Quatro da tarde. Não foi atendido. Esperou. Nada do banqueiro retornar. Então ele próprio escreveu. “O ideal seria haver os recursos já nos Estados Unidos. Que dos Estados Unidos para os Estados Unidos é tranquilo.” Dez e quinze da noite. Aí, na sequência, ainda antes de dez e vinte, ”O Altieris Santana está a disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja.”
Mais um personagem. É um corretor de imóveis brasileiro, que trabalha na Flórida, e ajudava o advogado Paulo Calixto na gestão de um fundo chamado Havengate Development. Mais um fundo. Dois fundos. Os dois administrados por gente dos Bolsonaro. Mas tem fundos os caras, né? E precisa de gente pra gerir a coisa toda. Calma que isso vai ficar importante. O ponto aqui é o seguinte: vocês sentiram que rolava uma tensão naquele 21 de março? Vorcaro? Vamos organizar o envio desse dinheiro? Facilita minha vida? A nossa vida está aqui, não no Brasil.
Entre fevereiro e maio, do ano passado, foram feitas quatro transferências. No total, 10,6 milhões de dólares. 61 milhões de reais. Faltavam ainda 13, 14 milhões de dólares pra completar o que havia sido negociado. Flávio negociou a grana, Eduardo ficou em cima cobrando. Aí o dinheiro parou de vir.
Junho passou, julho, agosto. Aí, em setembro, entra o Flávio. Mandou um áudio. “Irmão, eu preferi te mandar o áudio aqui pra você ouvir com calma.” Todo mundo ouviu. Aliás, pouco mais de metade do Brasil ouviu, ainda falta um bocado de gente ser informada. É aquele áudio, Bolsonaro pai quase preso, o Flávio lá falando que é um dos momentos mais difíceis da vida e tal, aí ele manda. “E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme. E como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né?”
Mas não veio mais dinheiro, não, tá? Parou. O que não faltou foi afeto. No dia 17 de novembro de 2025, Flávio manda um novo áudio pra Vorcaro. Não falou de dinheiro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.” Em certos momentos, a gente precisa dar uma força para os amigos. Flávio, que não sabia nada de Vorcaro, talvez também nem desconfiasse. Mas, no dia seguinte, Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez.
Ainda bem que não durou muito. Foi solto no dia 28. Onze dias de cadeia. No dia 29, Flávio estava num avião para São Paulo. Teve áudio, não. Foi pessoalmente. No dia seguinte à soltura. Segundo ele, foi pra encerrar a questão. Valdemar Costa Neto, na Globonews, contou outra história. “Foi ver se conseguia o restante do dinheiro.”
Quer acreditar na história do Flávio? Pode. Mas precisa de muito boa vontade, viu?


