CNI defende diálogo antes de mudanças na escala 6×1 e alerta para impacto
Pablo Rolim e Márcio Guerra defenderam que é preciso aumentar a produtividade antes de mexer na carga horária – (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A discussão sobre o fim da escala 6×1 precisa ir além da redução do número de dias trabalhados e passar por um acordo entre empresas, trabalhadores e governo, segundo representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em entrevista ao Podcast do Correio, especialistas da entidade defenderam que qualquer mudança na jornada deve levar em conta a produtividade, a competitividade das empresas e os possíveis efeitos sobre a geração de empregos.
O debate ganhou força com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, que prevê alterações no modelo atual de trabalho e está em análise no Senado. Para a CNI, a entidade não é contrária à discussão sobre novos formatos de jornada, mas defende que a construção seja feita de forma gradual e com base em estudos sobre os impactos econômicos.
Segundo o especialista em Políticas e Indústria da CNI, Pablo Rolim, a redução da jornada precisa ser acompanhada de avanços na capacidade produtiva das empresas.
“É preciso encontrar um equilíbrio entre qualidade de vida, produtividade, competitividade e preservação dos empregos”, afirmou.
Na avaliação dele, investimentos em tecnologia, inovação, qualificação profissional e melhoria dos processos são fatores essenciais antes de uma eventual mudança na carga horária.
“A conta não pode ficar apenas para as empresas. Se perdermos competitividade, quem paga essa conta é o Brasil como um todo”, disse.
Cada setor tem uma realidade
Durante a entrevista, Rolim destacou que a indústria brasileira possui diferentes níveis de desenvolvimento e que uma regra única pode não atender todos os segmentos.
Segundo ele, enquanto algumas áreas já conseguiram aumentar a produtividade com tecnologia, outras ainda enfrentam dificuldades para competir e adaptar seus processos.
“A negociação coletiva é a solução mais rápida e que permite adaptações. Ela possibilita construir acordos entre empresas e sindicatos de acordo com a realidade de cada categoria”, afirmou.
O superintendente de Economia da CNI, Márcio Guerra, também alertou que uma redução da jornada não significa necessariamente contratação imediata de novos trabalhadores.
Segundo ele, setores que dependem de profissionais especializados podem enfrentar dificuldades para preencher vagas em curto prazo.
“O supermercado talvez consiga reorganizar a equipe, porque encontra profissionais com mais facilidade. Mas há setores que trabalham com soldadores especializados, técnicos e profissionais altamente qualificados”, explicou.
Para Guerra, cada empresa pode reagir de uma maneira diferente a uma eventual mudança na legislação, podendo optar por reorganização de turnos, investimento em tecnologia ou pagamento de horas extras.
Debate deve considerar qualidade de vida
Os representantes da CNI também defenderam que a discussão sobre jornada de trabalho esteja ligada a outros fatores que influenciam a qualidade de vida dos trabalhadores.
Para Pablo Rolim, questões como transporte, saúde, educação e mobilidade urbana também interferem na rotina da população.
“A jornada de trabalho é apenas um dos fatores que influenciam o bem-estar. Não podemos colocar tudo na conta do trabalho”, afirmou.
Os especialistas ainda defenderam que mudanças estruturais sejam analisadas sem influência do calendário eleitoral e acompanhadas por indicadores que permitam avaliar os resultados.
Segundo Márcio Guerra, uma alteração desse tamanho deve ser implementada com planejamento e acompanhamento dos impactos para evitar prejuízos à economia e ao mercado de trabalho.
Conteúdo Original / Fonte: Correio Braziliense


