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Dois anos da enchente: Professores debatem enfrentamento das mudanças climáticas pela ciência

Dois anos da enchente: Professores debatem enfrentamento das mudanças climáticas pela ciência

Dois anos da enchente: Professores debatem enfrentamento das mudanças climáticas pela ciência

Como a ciência está enfrentando as mudanças climáticas? Essa foi a pergunta indutora de parte do debate promovido nesta segunda-feira (4) pelo Brasil de Fato RS e o Sul21, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) para marcar os dois anos das enchentes no Rio Grande do Sul. Com mediação de Letícia Paranhos, da ONG Amigas da Terra Brasil, o evento ocorreu no Centro Cultural da Ufrgs. A atividade foi gravada e está disponível no Youtube.

“A Terra já está 1.5 graus mais quente. Nós já partimos para algo muito próximo do fora do controle”, afirmou Marcelo Dutra | Crédito: Rafa Dotti

O ecólogo Marcelo Dutra, professor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), delimitou a carbonização da atmosfera como ponto de partida das mudanças climáticas. “A gente precisa caminhar no sentido inverso. Essa descarbonização não vai acontecer se a gente somente torcer que ela aconteça”, alertou.

Dutra elencou três estratégias básicas para enfrentar o que chamou de “novo normal climático”: descarbonizar a economia; prevenir e adaptar o campo e as cidades; e adotar práticas mais sustentáveis.

“A Terra já está 1.5 graus mais quente. Nós já partimos para algo muito próximo do fora do controle”, afirmou o professor. “Tem tudo a ver com carbono. Nossa região já tem um período de verão bem mais quente, e um período de inverno que não é mais tão inverno assim. As horas de frio diminuíram muito, comparado a 50 anos atrás. Isso causa dois efeitos: se há uma perturbação da temperatura, está mudando a distribuição e a intensidade das chuvas. O que confunde o momento de floração e da presença dos polinizadores, interferindo na biodiversidade e no que nós produzimos em termos de grãos”.

Nas últimas semanas, o Rio Grande do Sul tem voltado suas atenções para os possíveis efeitos do El Niño que deve ocorrer no segundo semestre de 2026. Contudo, como pontuou Dutra, é a La Niña que tem preocupado o estado há mais tempo. “A mancha de municípios atingidos por longos períodos de estiagem está cada vez maior. Isso significa que a intensidade e os prejuízos da La Niña também estão cada vez maiores”, explicou.

Ao salientar que temos avançado muito pouco em políticas públicas para retirada dos combustíveis fósseis, o professor apontou a descarbonização e a adoção de boas práticas de sustentabilidade como forma de prevenção ao avanço da crise.

Para Dutra, a solução pode estar no mercado. “Quanto mais bem divulgado é que um empreendimento tem práticas ruins [de sustentabilidade], mais a gente consegue configurar que aquele empreendimento pode não dar certo”, disse. Além disso, segundo o professor, existem oportunidades no mercado dos créditos de descarbonização e nos combustíveis considerados sustentáveis, como o etanol de arroz.

Letícia Paranhos ponderou que a lógica das soluções de mercado para a crise climática se configura como “financeirização da natureza” | Crédito: Rafa Dotti

Em contraponto à fala de Dutra, a mediadora Letícia Paranhos ponderou que a lógica das soluções de mercado para a crise climática se configura como “financeirização da natureza”.  “A solução é o povo quilombola, o povo indígena, a reforma agrária popular. Eu não acredito que a ciência não possa caminhar junto disso. Como os verdadeiros responsáveis pelo colapso ambiental vão ter uma resposta para a crise climática? Esta não é uma crise de CO², é uma crise social, é uma crise do sistema capitalista que viola direitos todos os dias”, enfatizou.

Antropoceno dos ricos

O professor de economia da Ufrgs Daniel Jeziorny começou sua fala salientando que não é possível defender neutralidade científica na área das ciências sociais aplicadas. “Não é como se estivéssemos em um laboratório misturando elementos dentro de um tubo de ensaio, porque estamos praticamente dentro do tubo de ensaio”, disse. “É importante pensar de onde estamos projetando o nosso olhar”.

Jeziorny trouxe um alerta que vem sendo feito pela ciência pelo menos desde o século 19: nosso modelo hegemônico de civilização, calcado exclusivamente na acumulação de capital, trará repercussões preocupantes na nossa relação metabólica com a natureza. “Porque se trata de um sistema com lógica expansiva e acelerante para territorializar um espaço materialmente finito e com temporalidade não necessariamente acelerante”, explicou o professor.

“Os mais ricos são responsáveis por 48% das emissões de gases do efeito estufa”, ressaltou Daniel Jeziorny | Crédito: Rafa Dotti

E muitas das antigas previsões se confirmaram, como apontou Jeziorny. A perda de fertilidade natural dos solos agricultáveis é uma delas. É o que configura o chamado antropoceno, era das mudanças geológicas provocadas pela espécie humana. No entanto, para o professor, o antropoceno é um mito, porque oculta o fato de que são os mais ricos do mundo que estão consumindo os recursos naturais e alterando o planeta.

“Os mais ricos são responsáveis por 48% das emissões de gases do efeito estufa. Já os mais pobres, que são a esmagadora maioria das pessoas, dado seu padrão de consumo, contribuem 8% para esse cenário trágico que vivenciamos”, ressaltou. “É o antropoceno dos ricos. E quem mais sofre são as famílias de baixa renda, os povos indígenas e os pequenos agricultores”.

O professor acrescentou que, assim como a ideia de antropoceno está sendo disputada, a ideia de desenvolvimento sustentável também está em disputa. “Uma vertente da ciência passa a falsa ideia de que não temos tempo para pensar, então devemos seguir os especialistas, os iluminados, porque a ciência oficial tem a solução para a emergência climática. Soluções que devem ser tomadas a toque de caixa, pois não há tempo a perder. E uma dessas soluções é a do mercado de carbono”, afirmou.

Esse tipo de solução, de acordo com o Jeziorny, está calcada na falsa ideia de que a natureza é mera fonte de recursos naturais disponíveis à acumulação capitalista. É, segundo ele, uma ideia perigosa: “pode ser tomado como direito de poluir. Eu emito um crédito de carbono lastreado na biodiversidade preservada por uma terra indígena e vou desmatar lá no outro continente”.

A realidade do Interior

Para Clódis Andrades Filho, é essencial ensinar essa população a identificar riscos – porque sempre há sinais, dados pela natureza | Crédito: Rafa Dotti

Chefe do Departamento de Geodésia da Ufrgs, o professor Clódis Andrades Filho falou sobre movimentos de massa. No Rio Grande do Sul, esses eventos vêm sendo causados pelo excesso de chuva, que satura o solo com água. “Em maio de 2024, quando a enchente chegou em Porto Alegre, um rastro de destruição já tinha passado pelos vales. Agora, a serra e as encostas dos vales estão todas rachadas. Essas rupturas parciais dominam boa parte do norte do estado”, afirmou.

O Projeto de Prevenção a Desastres na Bacia Taquari-Antas detectou mais de 15 mil cicatrizes e 16 mil pontos de ruptura que abrangem 18 mil quilômetros quadrados na região. E o que acontece lá tem grande efeito na região metropolitana de Porto Alegre.

“Temos que resgatar nossas relações com a natureza e construir algumas estratégias de convivência com esse risco. A primeira solução não é desocupar e ir embora. Já temos um êxodo rural enorme que pode se agravar”, pontuou Andrades. “A área rural normalmente fica à margem de qualquer plano de redução de riscos. Precisamos adaptar os planos à realidade do Interior”.

O Projeto de Prevenção a Desastres na Bacia Taquari-Antas detectou mais de 15 mil cicatrizes e 16 mil pontos de ruptura | Crédito: Rafa Dotti

O professor exemplificou a situação com o caso de uma família visitada pelo projeto no município de Santa Tereza, a 30 km de Bento Gonçalves, na Serra. Eles moravam e trabalhavam produzindo uvas em uma pequena propriedade atingida pelas chuvas. A terra ficou com uma “rachadura” em decorrência dos movimentos de massa. No entanto, a família tem uma profunda relação com a terra.

“A vida dessas pessoas é essa. Então, começamos a trabalhar com eles a análise e vimos que era possível continuar ali, desde que adotando medidas de proteção de risco dentro da propriedade”, relatou Andrades. Essas soluções incluem drenagem para direcionar a água a outros pontos, tampar rachaduras e fazer contenções com pedras oriundas do próprio local.

Para o professor, é essencial ensinar essa população a identificar riscos – porque sempre há sinais, dados pela natureza, de eventos que podem ocasionar mortes e danos materiais.

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