Eliziane Gama: a senadora que mudou de lado, cresceu 77% em bens e colocou a família na estatal

SÉRIE INVESTIGATIVA — CANDIDATOS AO SENADO PELO MA 2026
O Ludovico inicia com esta matéria uma série investigativa sobre os 11 candidatos ao Senado Federal pelo Maranhão nas eleições de 2026. Durante duas semanas, nossa equipe consultou o DivulgaCand TSE, o Portal da Transparência, diários oficiais, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o JusBrasil e dezenas de reportagens de fontes verificáveis para montar um raio-X completo de cada candidato. O objetivo é simples: oferecer ao eleitor maranhense informação de qualidade para uma decisão consciente nas urnas. Nesta primeira edição, mergulhamos na trajetória de Eliziane Gama (PT), senadora que busca a reeleição.
Eliziane Gama: a senadora que mudou de lado, cresceu 77% em bens e colocou a família na estatal
Antes de entrar nos dados, um resumo do que você vai ler: Eliziane Gama começou a carreira no PPS, votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, foi relatora da CPMI que pediu o indiciamento de Bolsonaro, migrou para o PSD em 2023 e em abril de 2026 se filiou ao PT ao lado de Lula. Nessa trajetória, seu patrimônio saltou de R$ 690 mil para R$ 1,22 milhão — crescimento de 77% em oito anos. Enquanto isso, o ex-marido, o irmão e a sobrinha foram parar em cargos públicos com salários de até R$ 13 mil.
Quem é Eliziane Gama
Eliziane Pereira Gama Melo nasceu em Araguanã, na época distrito de Monção (MA), em 27 de fevereiro de 1977. Hoje tem 49 anos. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde ingressou aos 17 anos. É evangélica, separada e tem três filhas. Foi eleita deputada estadual pela primeira vez em 2006, com apenas 15 mil votos. Naquele ano, o PPS era a legenda que a abrigava — e assim seria por quase duas décadas, com um breve desvio pela Rede Sustentabilidade em 2015 e 2016.
Em 2014, foi a única mulher eleita deputada federal pelo Maranhão, com 133.575 votos. A consolidação veio em 2018, quando foi eleita senadora com 1.539.942 votos, na chapa do então governador Flávio Dino (PCdoB). Era o auge da onda Todos pelo Maranhão, que prometia enterrar o ciclo Sarney.
A relatora que indiciou 61 pessoas
No Senado, Eliziane Gama ganhou projeção nacional ao ser relatora da CPMI dos Atos Golpistas de 8 de janeiro de 2023. Seu relatório pediu o indiciamento de 61 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, ex-ministros e militares. O trabalho lhe rendeu o Prêmio Congresso em Foco de Melhor Senadora de 2023, na avaliação dos jornalistas. Também foi relatora da sabatina de André Mendonça ao STF em 2021 — relatório aprovado com 47 votos.
Ocupou cargos de liderança: foi líder do Cidadania no Senado, presidiu a Comissão de Defesa da Democracia (CDD) e é titular da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher. É membro da Frente Parlamentar Evangélica.
Dilma, Temer e o caminho até o PT
Em 17 de abril de 2016, quando era deputada federal pelo PPS, Eliziane Gama votou a favor do prosseguimento do processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff. Em outubro de 2017, votou a favor da investigação contra Michel Temer por corrupção passiva. O posicionamento à direita naquela época a colocou do lado oposto do que ela defende hoje.
Em junho de 2019, já no Senado, votou contra o Decreto das Armas do governo Bolsonaro, que flexibilizava porte e posse para o cidadão. Em 2023, aceitou a relatoria da CPMI que investigou o 8 de janeiro e se tornou uma das vozes mais críticas ao bolsonarismo no Congresso.
Durante seu mandato como deputada federal (2015-2019), Eliziane se destacou como uma das parlamentares mais atuantes da Câmara. Em 2015, foi considerada pelo Prêmio Congresso em Foco como uma das mais atuantes e a segunda parlamentar que menos gastou recursos públicos. Integrou a CPI da Petrobras e coordenou a Comissão Externa que acompanhou o cancelamento das refinarias do Maranhão e do Ceará, temas estratégicos para o desenvolvimento do estado.
Foi titular das comissões de Segurança e do Consumidor, e exerceu a vice-liderança do PPS entre 2017 e 2019. Naquela legislatura, apresentou mais de 50 projetos de lei, focados principalmente em direitos das mulheres, transparência pública e proteção de crianças e adolescentes.
O giro de 2026: do PSD ao PT
Em janeiro de 2023, Eliziane deixou o Cidadania e se filiou ao PSD. A passagem durou pouco mais de três anos. Em 2 de abril de 2026, anunciou a desfiliação. A justificativa foi a decisão do PSD de apoiar a pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência. Ela afirmou: “O PSD decidiu seguir um novo trilho político no país, eu respeito mas tenho um pensamento diferente.” Dias depois, filiou-se ao PT ao lado do presidente Lula, em Salvador (BA).
A senadora vinculou sua decisão à reeleição de Lula: “Minha história de luta pelos mais vulneráveis, meu olhar voltado principalmente para as crianças, idosos e mulheres e minha fé num país mais inclusivo me levaram ao encontro com o PT.” A mudança reacendeu a crítica de que a parlamentar troca de legenda conforme a conveniência eleitoral.
Patrimônio: de R$ 690 mil a R$ 1,22 milhão
Segundo dados do DivulgaCand TSE, o patrimônio declarado por Eliziane Gama saltou de R$ 690 mil em 2018 para R$ 1.220.826,60 em 2026. Crescimento de 77% em oito anos. Os bens atuais:
| Bem | Valor |
| Casa no bairro Araçagi (São Luís) | R$ 1.000.000,00 |
| Toyota Hilux, preta, ano 2020 | R$ 200.000,00 |
| Aplicação renda fixa (CDB) Banco do Brasil | R$ 20.825,59 |
| Depósito conta corrente Banco do Brasil | R$ 1,01 |
| Total | R$ 1.220.826,60 |
Fonte: DivulgaCand TSE via G1 Maranhão (14/08/2026).
A família na máquina pública
Um dos pontos mais sensíveis da trajetória de Eliziane nos últimos anos é a sucessão de parentes em cargos públicos. O ex-marido, o irmão e a sobrinha foram nomeados para funções com salários que chegam a R$ 13 mil mensais.
Ex-marido: Inácio Cavalcante Melo Foi presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB), estatal federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Indicado pela então esposa, a senadora, Inácio passou a gerir um orçamento milionário da União. Em outubro de 2025, pediu exoneração após denúncias do portal Metrópoles sobre uso de verba pública para diárias em hotéis de luxo e refeições de alto padrão. Devolveu R$ 9,3 mil aos cofres públicos. Em 2021, teve a prisão decretada pela Justiça do Maranhão por não pagamento de R$ 560 mil em pensão alimentícia ao filho do primeiro casamento. Três entidades de servidores questionaram sua nomeação alegando falta de formação em geociências e processos por crimes ambientais e uso de documentos falsos.
Sobrinha: Elisandra Araújo Gama 28 anos, advogada. Foi contratada pelo SGB em 21 de janeiro de 2026 como assistente de Departamento na Consultoria Jurídica. Salário: R$ 12.991,22 mensais. A contratação ocorreu apenas três meses após a saída do tio Inácio da presidência. A senadora afirmou à imprensa que “a indicada é advogada, possui qualificação técnica para o cargo na área jurídica da instituição, e a nomeação seguiu rigorosamente os critérios legais”. Elisandra é filha de Eliel Gama, irmão da senadora.
Irmão: Eliel Gama Presidente do Instituto de Metrologia e Qualidade Industrial do Maranhão (estadual). Pai de Elisandra. Ocupa cargo de confiança no governo do estado desde a gestão Flávio Dino.
Sucessão no SGB: Após a saída do ex-marido, a senadora articulou a indicação de Gledson da Silva Brito para a presidência do SGB. Gledson havia sido assessor de Inácio Cavalcante Melo durante a gestão deste no órgão. A nomeação gerou suspeita de continuísmo político na estatal.
Os suplentes e a pergunta que fica
Na eleição de 2018, os suplentes de Eliziane eram Pedro Fernandes Ribeiro (ex-deputado federal, PTB) como primeiro e o médico Bene Camacho (PTB) como segundo. Para 2026, a chapa da senadora conta com Lene Rodrigues (PCdoB) como primeira suplente e Patrícia Carlos (PT) como segunda suplente.
A pergunta que fica para o eleitor é: quem assume se a senadora sair para um cargo no Executivo federal? O histórico de indicações de parentes para estatais acende um alerta sobre quem são os suplentes e quais acordos políticos podem representar.
Conexões: Dino, Lula e a anti-Sarney
Eliziane Gama é cria do grupo Dino. Foi eleita senadora na chapa de Flávio Dino em 2018 e sempre manteve aliança com o hoje ministro do STF. Sua filiação ao PT em 2026, ao lado de Lula, consolida essa base de apoio federal.
A adversária histórica, Roseana Sarney (MDB), também é sua concorrente na disputa ao Senado em 2026. A eleição coloca frente a frente a herdeira do grupo que governou o Maranhão por quase 50 anos e a senadora que foi eleita prometendo enterrar esse ciclo. Ambas dividem palanques em cidades do interior, em um jogo de alianças que mistura oposição declarada e acordos pragmáticos.
Eliziane Gama enfrenta uma disputa acirrada em 2026. Pesquisas recentes mostram que a eleição para o Senado no Maranhão está fragmentada entre vários nomes de peso: André Fufuca (PP), Weverton Rocha (PDT), Roseana Sarney (MDB) e Lahesio Bonfim (Novo) dividem o eleitorado. A vantagem de Eliziane é ter o apoio explícito do presidente Lula e da máquina do governo federal, além de ser a única mulher com chance real entre os principais candidatos.
Por outro lado, sua mudança do PSD para o PT gerou desgaste. O PSD perdeu uma cadeira no Senado e passou a apoiar nominalmente a candidatura adversária de Fufuca ou Roseana em algumas regiões. A dúvida que paira é se o eleitorado evangélico, que historicamente a apoiava no PPS e no Cidadania, acompanhou sua guinada à esquerda.
Raio-X: Eliziane Gama (PT)
| Campo | Dado |
| Nome completo | Eliziane Pereira Gama Melo |
| Nascimento | 27/02/1977 Monção (MA) |
| Profissão | Jornalista |
| Partido | PT (Federação Brasil da Esperança) |
| Número de urna | 133 |
| Patrimônio 2018 | R$ 690.000,00 |
| Patrimônio 2026 | R$ 1.220.826,60 |
| Variação patrimonial | + 77% |
| Suplentes 2018 | Pedro Fernandes (1°) Bene Camacho (2°) |
| Parentes em cargos públicos | Ex-marido (SGB) irmão (Inmetro/MA) sobrinha (SGB) |
| Comissões no Senado | CCJ CDD CDH CMA CMCVM |
A série investigativa do O Ludovico continua amanhã com o segundo candidato da lista: Weverton Rocha (PDT), senador atual que também busca reeleição. Não perca.
O Ludovico



Publicar comentário