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Enquadramento de facções pelos EUA eleva pressão no debate sobre segurança nas eleições | Política

Enquadramento de facções pelos EUA eleva pressão no debate sobre segurança nas eleições | Política

Enquadramento de facções pelos EUA eleva pressão no debate sobre segurança nas eleições | Política

A entrada dos Estados Unidos no debate eleitoral sobre segurança pública no Brasil reorientou estratégias das principais campanhas e adicionou camadas de complexidade à discussão sobre como combater a criminalidade. Desde o anúncio do novo enquadramento, as pré-candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ampliaram a exposição de seus diferentes pontos de vista sobre o problema, enquanto especialistas alertam para o risco de que soluções simplistas sejam exploradas para mobilizar as bases.

O governo americano anunciou no fim de maio que classificaria o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Na sexta-feira (5), a decisão foi oficializada. Desde o anúncio, Flávio buscou “capitalizar” a medida, divulgada depois de sua visita ao presidente Donald Trump na Casa Branca. A avaliação do senador foi a de que o tema poderia lhe render dividendos eleitorais.

A reação contrária à classificação dos grupos como terroristas levou o governo federal a reativar a da defesa da soberania nacional, mas também obriga Lula e aliados a se justificarem sobre o que o bolsonarismo classifica como “leniência” histórica da esquerda com criminosos.

Segundo membros das campanhas, a pauta da segurança tende a ser um eixo central da disputa, em resposta à preocupação dos brasileiros com a violência, demonstrada em pesquisas. O interesse dos EUA no assunto é visto como um elemento imprevisível, já que eventuais ações americanas têm potencial de danos e ganhos para os dois lados.

O entorno de Flávio faz o diagnóstico de que a área da segurança é uma das maiores fragilidades de Lula. Entre as propostas ventiladas pelo senador, estão a redução da maioridade penal e o endurecimento das punições. Ele já elogiou a política de segurança do presidente de El Salvador, Nayib Bukele — questionada por suspeitas de violação de direitos humanos —, e defendeu a construção de mais presídios. Procurado, o PL não indicou um porta-voz para comentar o programa do pré-candidato na área.

O coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), declarou que a classificação dos EUA é uma oportunidade para “buscar apoio de nações amigas para asfixiar as finanças das facções e unir forças para proteger a população do terror e da violência”. Ele disse ainda que “a soberania nacional serve para garantir a segurança do cidadão de bem” e que é preciso desarticular organizações que dominam territórios e fazem “reféns”.

Auxiliares de Lula incorporaram o discurso de que a esquerda “não deve ter medo” de entrar no debate da segurança e que é um erro deixar a direita monopolizar a discussão. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que “o governo do presidente Lula combate o crime organizado” e privilegia o “uso de inteligência”, recorrendo a “instrumentos” nacionais para essa tarefa. “Se tem terrorismo no Brasil, nós queremos combater, [mas] com a nossa soberania.”

A prévia do programa de governo de Lula, concluída antes da reclassificação das facções pelos EUA, dedica um capítulo ao tópico segurança, com ênfase na ideia de asfixiamento financeiro do crime, além de valorização dos policiais, incentivo ao “uso proporcional da força” e políticas de prevenção. “Não somos condescendentes com o crime organizado e as facções criminosas que ameaçam a vida dos cidadãos”, diz o texto do partido.

O cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, considera que Lula está diante de um desafio, ao recorrer à soberania para rebater a ação americana. Segundo pesquisa Genial/Quaest de novembro de 2025, 73% dos brasileiros são a favor de qualificar organizações criminosas como terroristas.

O governo pode ser beneficiado eleitoralmente, segundo Consentino, se a classificação “não produzir qualquer bom resultado e só tiver efeitos deletérios”. Mas, se o contrário ocorrer, com reflexos perceptíveis pela população, o bolsonarismo sai fortalecido na disputa de narrativas. “A priori, sou cético com relação à produção de efeitos disso”, diz.

Diante da expectativa de que a discussão sobre segurança se intensifique no período eleitoral, um seminário marcado para a próxima terça-feira (9), na capital paulista, pretende contribuir para que o debate vá “além do medo e das respostas fáceis”.

Organizado pelo Instituto Sou da Paz, que atua há 25 anos na temática, de maneira suprapartidária, o evento — promovido em parceria com o Insper — deve reunir pesquisadores, representantes da sociedade civil e um ex-comandante da Polícia Militar.

A diretora-executiva do Sou da Paz, Carolina Ricardo, diz que ainda não estão claras as consequências da classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, mas “o risco é ela ser usada como a grande solução para o problema”.

Um caminho mais adequado, na visão da advogada e socióloga, seria o de ampliar operações cooperadas com outros países e manter acordos bilaterais, como um que existe com os próprios Estados Unidos para o controle de armas. “Há iniciativas muito menos midiáticas e que funcionam muito mais. O risco é isso ser usado para favorecer uma determinada candidatura e acabar enganando as pessoas. Elas podem se sentir satisfeitas com essa medida como se ela fosse dar conta do problema, e não vai.”

Segundo a diretora, o ideal seria discutir propostas baseadas em evidências e que apontem para uma visão de longo prazo, sem prometer “soluções mágicas”. Medidas estruturantes, como investimento em integração de polícias, tecnologia de investigação e gestão de dados, são apontadas como eixos centrais nas experiências de Estados que reduziram índices de criminalidade.

“O discurso populista é tão forte e parece ter tanta adesão porque dialoga com o medo das pessoas e vende soluções fáceis e rápidas”, diz Ricardo, que também vê problemas do lado governista. “O governo demorou a entender a prioridade estratégica de segurança pública. Ao longo dos anos, poderia ter feito mais do que fez”, considera ela.

Um dos desdobramentos do seminário deve ser uma campanha para, segundo a diretora, “ajudar a população” a analisar as propostas de segurança dos candidatos, a partir de critérios sobre sua efetividade. “Os [pré-]candidatos estão começando a falar, então não dá para se antecipar, mas a ideia é jogar luz, para que as pessoas fiquem atentas.”

Além disso, o Sou da Paz prepara uma lista de sugestões para ser enviada a candidatos à Presidência e aos governos estaduais.

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