Fim da escala 6×1, combate à misoginia e à precarização do trabalho: o que os trabalhadores organizados de Pernambuco querem dos candidatos nas eleições de 2026
Na última quinta-feira (30), centenas de pernambucanos se reuniram no parque Treze de Maio para celebrar, de maneira antecipada, o dia do trabalhador (1º de maio). O Brasil de Fato foi à manifestação e entrevistou aquelas lideranças sindicais políticas, perguntando-lhes sobre quais deveriam ser as pautas prioritárias para decidir se votar ou não num candidato nas eleições de outubro. Tema quente desde o fim de 2024, a luta pela redução da escala de trabalho (atualmente seis por um) e da jornada (hoje de 44 horas semanais) foi o tema mais lembrado — mas não foi o único.
Sinésio Pontes, presidente do Sindicato dos trabalhadores dos setores de petróleo e gás em Pernambuco (Sindipetro PE/PB), é um dos que colocam a pauta como prioridade do povo trabalhador. “Precisamos fazer força para aprová-la o quanto antes no Congresso Nacional”, diz ele. Em ano de eleição geral, como este, é mais arriscado para deputados e senadores votarem contra os interesses da maioria do eleitorado. Isis Thayzi, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), endossa a priorização. “É uma escala de trabalho degradante e que não dá à classe trabalhadora tempo para cuidar de si, da família ou de viver. Queremos mais que sobrevivência: queremos qualidade de vida”, diz ela.
Fabiano Moura, presidente do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, pontua que “há parlamentares que se dizem representantes do povo, mas que estão contra a redução da escala 6×1, então estão contra melhorar a qualidade de vida da classe trabalhadora. Um candidato desse não merece seu voto”, dispara Moura. “Quando a gente elege representantes das elites e dos patrões, como a maioria do Congresso atual, os nossos direitos ficam em risco”, completa ele. O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), professor Paulo Rocha, também afirmou o fim da 6×1 como prioridade. “Com essa mudança, o Brasil pode gerar mais de quatro milhões de empregos”, diz Rocha.
A pauta é considerada central também para as deputadas Rosa Amorim (PT) e Dani Portela (PT); para o vereador do PT em Jaboatão, Henrique Metalúrgico; e para a vereadora recifense Kari Santos (PT). “Lembremos que 71% dos brasileiros são contra a escala 6×1. Então não podemos votar em deputados que são contra o povo trabalhador”, diz Kari Santos. “Não aguentamos mais a escala 6×1. Precisamos de descanso e tempo com a família. É uma questão de dignidade”, avalia Henrique Metalúrgico. Ludmila Outtes, presidente do Sindicato das Enfermeiras (SEEPE), pede — além da redução da jornada — um salário maior. “O salário mínimo de hoje não é suficiente para as demandas do povo”, diz Outtes.
Combate à misoginia, à violência contra a mulher e ao machismo institucional
Questões de gênero também foram bastante lembradas. Dani Portela (PT) sugeriu votar “em parlamentares comprometidos com o enfrentamento ao feminicídio e à violência doméstica contra as mulheres”. Kari Santos (PT) lembrou do projeto de lei apelidado de “PL da Misoginia”, que visa criminalizar o discurso de ódio e menosprezo contra as mulheres. “Precisamos combater esse elemento que é inicial. A violência contra a mulher começa com a misoginia e termina no feminicídio”, afirmou. Isis Thayzi, do MTST, também destacou o tema. “Os números só aumentam e eles não podem ficar só no discurso. É inaceitável que isso continue como está. Precisamos de políticas públicas concretas para transformar essa realidade”, cobrou.
Ivete Caetano, presidenta do Sindicato dos trabalhadores na Educação (Sintepe), relacionou a pauta com a regulamentação das redes sociais. “É um momento muito difícil, onde as redes sociais são usadas para estimular ataques à dignidade das mulheres e meninas”. Paulo Rocha, da CUT, defendeu a igualdade salarial e de oportunidades entre homens e mulheres. “Elas ainda recebem 2% a menos que os homens para exercer as mesmas funções. Até no serviço público vemos a desigualdade, com homens ocupando muito mais postos de direção”, diz o presidente da Central Única em Pernambuco.
Trabalho por aplicativo, pejotização e precarização do trabalho
O presidente do Sindipetro, Sinésio Pontes, destaca o combate à precarização do trabalho e a importância de uma regulamentação do trabalho para prestadores de serviços por aplicativo. “É uma categoria muito grande no Brasil e que não tem nenhuma proteção. Eles precisam de mais transparência e segurança”, diz Pontes, que também defende a valorização dos sindicatos como instância de diálogo entre trabalhadores e patrões. “A reforma trabalhista de 2017 atacou fortemente os sindicatos, impactando sua capacidade de mobilização”. Abinadabe Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, pede que a população vote “em representantes da classe trabalhadora, que compreendam o sofrimento do povo”.
O líder dos petroleiros também lembra da pauta da chamada “pejotização irrestrita”, pauta cujo julgamento está parado no STF. Se validada, permitirá que empresas contratem pessoas jurídicas (CNPJ) para exercer suas atividades-fim. “Isso é a precarização geral das relações de trabalho”, avalia Sinésio. O metalúrgico também vê o tema como fundamental. “Precisamos garantir que os trabalhadores continuem com direitos para termos qualidade de vida”, diz Abinadabe. Jaqueline Dornelas, dirigente do Sindicato dos Professores do Recife (Simpere), reforça a necessidade de votar em candidatos “que valorizem a classe trabalhadora, porque é ela quem produz a riqueza do Brasil”. Fabiano Moura, dos Bancários, considera que os trabalhadores não podem ser substituídos por máquinas.
Soberania, democracia e alimentação
Jaqueline Dornelas, do Simpere, vê como necessário que os candidatos defendam “um projeto de Brasil soberano, democrático, com muitos serviços públicos de qualidade para a população, especialmente para aqueles que mais precisam”, afirmou, destacando saúde, educação e segurança. A deputada Rosa Amorim (PT) considera entre os compromissos democráticos manter as punições aos condenados por envolvimento na tentativa de golpe de estado entre 2022 e 2023. “Lugar de golpista é na cadeia”.
Sinésio Pontes, do Sindipetro, reforça a pauta da soberania ao pedir a reestatização de empresas públicas privatizadas nos governos Bolsonaro e Temer. “A BR distribuidora e empresas de gás devem ser reestatizadas para que a população não sofra com a variação de preços de combustível por causa de guerras e outras externalidades”, cobra Pontes. A enfermeira Ludmila Outtes trouxe a pauta para o estado. “Políticos que defenderam a privatização da Compesa ou se omitiram não merecem o nosso voto”.
Ainda sob o guarda-chuva da soberania nacional, Francisco Terto, dirigente do MST em Pernambuco, destaca a pauta da soberania alimentar e pede mais ação dos governos federal e estadual. “Em Pernambuco precisamos de um projeto estruturador da agricultura, que dialogue com as questões do trabalho, renda, reforma agrária e defesa dos bens da natureza. A agricultura familiar precisa de maquinário, mais centrais de comercialização e apoio para o desenvolvimento de agroindústrias”, avalia Terto, destacando como necessidade “superar a crise” do setor da cana de açúcar. “Os governos estadual e federal já deveriam ter um plano de desapropriação dessas usinas”, diz ele. O sem terra também destaca a necessidade de mais políticas públicas para as populações indígenas e quilombolas.
Moradia, transporte e educação
Isis Thayzi, do MTST, destaca a importância de pautar o direito à cidade. “Precisamos de representantes que pautem a reforma urbana, com direito a moradia digna, acesso a espaços de lazer, combatendo remoções forçadas e a especulação imobiliária, mas também o direito à mobilidade e ao transporte público, com tarifa zero”, diz a líder sem teto. “Quem vive nas periferias sente diariamente a ausência desses direitos, que precisam estar na pauta dos candidatos”, conclui.
Ivete Caetano, do Sintepe, reforça a luta para que os filhos e filhas da classe trabalhadora tenham acesso a condições dignas de aprendizado. “Escola pública de qualidade, climatizada, com assistência estudantil, com merenda de qualidade e sem veneno, vinda da agricultura familiar”, defende. Nesse sentido, a deputada Dani Portela (PT) considera que um candidato verdadeiramente comprometido com políticas públicas é, inevitavelmente, um candidato “comprometido com a renovação do mandato de Lula”. “A caneta que cria as políticas públicas precisa continuar nas mãos do nosso campo democrático e progressista”, avalia Portela.
Paulo Rocha, da CUT, deseja que o debate eleitoral trate abertamente de projeto de país. “Precisamos falar do que queremos construir como sociedade: pleno emprego, moradia digna, alimentação de qualidade, uma sociedade de valores fraternos, justa e democrática, diferente do que temos hoje, porque democracia não pode ser só votar”, diz ele.


