Idosos de São Luís votam mesmo com voto facultativo
Neste domingo (4), mais de 66 mil idosos de São Luís podem decidir se vão ou não às urnas. A partir dos 70 anos, o voto deixa de ser obrigatório no Brasil. Mesmo assim, muitos eleitores da capital fazem questão de comparecer. Eles dizem que votar é um direito que não querem abandonar.
Maria dos Santos Ferreira, 74 anos, é uma delas. Ela mora no Bairro de Fátima desde os cinco anos e conta que nunca faltou a uma eleição. Votou pela primeira vez aos 18, antes de o país voltar a eleger presidente pelo voto direto. Neste domingo, será a décima eleição presidencial dela. “Eu vou porque acredito que, se cada um contribuir um pouco, algo pode mudar”, afirma.
Quantos idosos de São Luís podem votar sem obrigação
O grupo é grande. O Brasil tem 17,2 milhões de eleitores com 70 anos ou mais, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de julho de 2026. O Nordeste concentra 4,2 milhões deles. No Maranhão, são mais de 451,4 mil. São Luís, maior colégio eleitoral do estado, reúne 66.430 eleitores nessa faixa.
O eleitorado idoso do estado é majoritariamente feminino. São 240.362 mulheres, 53,2% do total. Na capital, a proporção é ainda maior: 39.509 mulheres, ou 59,5%. Entre elas, a faixa mais numerosa tem de 70 a 74 anos. Outras 12.574 têm 80 anos ou mais, e 149 já passaram dos 100.
Comparecimento cai quando a obrigação acaba
Em 2024, São Luís tinha 59.209 eleitores aptos com 70 anos ou mais. Compareceram 29.957, ou 50,6%. Os outros 29.252 não votaram. Entre os eleitores de 18 a 69 anos, que são obrigados, o comparecimento chegou a 83,2%.
A queda começa no ano em que a obrigação termina. Na faixa de 65 a 69 anos, 84% votaram. Na de 70 a 74, o índice caiu para 69,9%. Entre 75 e 79 anos, ficou em 47,3%. Na faixa de 80 a 84 anos, apenas 32,4% compareceram. Em 2018, 54,1% dos ludovicenses com 70 anos ou mais votaram. Em 2020, foram 41,6%. Em 2022, o número subiu para 51,5%.
Por que idosos de São Luís seguem votando
Doralice Pereira Marinho, 74 anos, vota perto de casa, no IEMA Gonçalves Dias. Ela diz que continua indo às urnas porque gosta da atividade. “Enquanto eu puder, eu voto”, afirma. Para ela, votar também dá legitimidade para cobrar depois.
Luís Carlos Pinheiro, 75 anos, morador da Cohab, nunca deixou de votar. “Eu voto porque é meu direito de votar”, diz. Ele costuma ir sozinho, a pé, e prefere ser o primeiro da fila. O governo federal, avalia, tem políticas para idosos, crianças e “todo tipo de gente”.
A presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de Santa Inês, Mariana Oliveira, explica a regra. “A Justiça Eleitoral reconhece a dificuldade que pessoas nessa idade às vezes têm, como problemas de saúde e de locomoção”, afirma. Por isso, elas não são sancionadas por não ir votar.
A presidente da Comissão do Direito da Pessoa Idosa da OAB-MA, Edwiges Bertrand, reforça que a idade não retira o direito de participar. “A idade não diminui a cidadania. A pessoa idosa continua tendo voz e poder de decisão sobre os rumos da sociedade”, diz.
Direitos no dia da votação
Idosos têm garantias na fila. A partir dos 60 anos, existe preferência no atendimento. Para quem tem mais de 80 anos, há prioridade sobre os demais eleitores, independentemente da ordem de chegada. Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida também contam com medidas de acessibilidade.
Em São Luís, 1.448 eleitores com 70 anos ou mais têm deficiência declarada no cadastro. A transferência para uma seção com acessibilidade é um direito pouco conhecido. Doralice, por exemplo, não sabia que podia pedir. Ninguém nunca lhe ofereceu a opção.
Quem presencia compra de votos pode denunciar pelo aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral. Mariana Oliveira alerta que a prova precisa ser preservada. “Não basta um print ou um vídeo para incriminar alguém”, diz a advogada.
Maria dos Santos vê com desconfiança a aproximação de políticos com o eleitor idoso. Segundo ela, parte dos idosos, sobretudo os não alfabetizados, pode ser enganada por quem oferece objetos ou favores em troca de voto. No Maranhão, 65% dos eleitores com 70 anos ou mais declararam apenas ler e escrever ou se disseram analfabetos.
O que esperar daqui para frente
Apesar do peso do eleitorado idoso, os eleitores entrevistados não souberam citar propostas de candidatos voltadas à terceira idade. “Nunca vi nada voltado para idoso em campanha”, diz Maria. Para Edwiges Bertrand, nem a omissão nem a vagueza são opções. “A proteção da pessoa idosa não é uma questão de escolha ou de boa vontade do governante”, afirma. Ela defende que o eleitor exija ações concretas.
Neste domingo, Maria, Doralice e Luís Carlos vão votar sem obrigação e com cobranças a fazer. Os três deixam um conselho para o jovem que pensa em não votar: que vote. Maria pede que a decisão não venha por impulso, mas depois de pesquisar a trajetória e as propostas dos candidatos. Edwiges resume o espírito do grupo. “Voto facultativo não significa voz facultativa”, afirma.
Com informações de Atual7 e dados do TSE. Veja também: transporte público gratuito neste domingo em São Luís.
O Ludovico



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