Investimento da China no Brasil dispara 45% e atinge maior nível desde 2017
Os investimentos chineses no Brasil registraram alta de 45% em 2025 em relação ao ano anterior, somando US$ 6,1 bilhões — o maior volume desde 2017, segundo estudo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), revela um movimento de fortalecimento da presença do capital chinês no país, mesmo em meio a um cenário internacional marcado por tensões comerciais e rearranjos geopolíticos.
O levantamento identificou 52 projetos e transações ao longo do ano, recorde da série histórica iniciada em 2007. Segundo dados do China Global Investment Tracker, compilados pelo CEBC, o Brasil também figurou como principal destino global de investimentos chineses no período.
O desempenho brasileiro se insere em uma mudança mais ampla na estratégia de internacionalização da China. Se antes o foco estava em economias desenvolvidas, agora os fluxos se concentram em mercados emergentes com grande base de recursos naturais e potencial de consumo.
Para analistas, o Brasil reúne três atributos centrais: abundância de recursos naturais, mercado interno relevante e base industrial estabelecida. Esse conjunto tem sustentado a posição do país entre os cinco principais destinos de capital chinês desde 2021.
Energia e mineração lideram aportes
Os setores de energia elétrica e mineração concentraram a maior parte dos investimentos em 2025. O segmento elétrico respondeu por 29,5% do total, equivalente a US$ 1,79 bilhão.
A CPFL, controlada pela chinesa State Grid desde 2017, aparece como um dos principais vetores desse movimento. A companhia investiu R$ 6,1 bilhões no ano passado e projeta novos aportes de R$ 6,5 bilhões em 2026, dentro de um plano que prevê mais de R$ 31 bilhões até 2030.
Na mineração, os aportes praticamente triplicaram em relação a 2024. O movimento é marcado pela aquisição de ativos já operacionais, como minas de ouro no Brasil e operações de níquel, em transações que somam bilhões de dólares e envolvem grupos como CMOC e MMG.
Indústria automotiva e eletrificação ganham força
O setor automotivo recebeu US$ 965 milhões em investimentos chineses, com crescimento de 66% em relação ao ano anterior. O foco recai sobre veículos eletrificados, segmento em rápida expansão no Brasil.
A entrada de fabricantes como BYD e GWM, com fábricas instaladas na Bahia e em São Paulo, marca a consolidação de uma nova etapa industrial. Além disso, a participação da Geely na Renault brasileira reforça a estratégia de integração produtiva no país.
O avanço acompanha a expansão do mercado doméstico: apenas no primeiro quadrimestre de 2026, foram vendidos 139 mil veículos eletrificados no Brasil, quase o dobro do registrado no ano anterior.
Diversificação e disputa por mercado
Além dos grandes projetos industriais e de infraestrutura, o capital chinês avança para setores mais pulverizados. Há investimentos em tecnologia, varejo e serviços, como a produção de celulares na Zona Franca de Manaus, a disputa no mercado de aplicativos de entrega e a entrada de redes de fast-food no país.
Esse movimento é acompanhado por uma mudança de postura das empresas chinesas, que passam a investir também em imagem e posicionamento de marca, buscando maior inserção no mercado local.
Geopolítica e convergência de interesses
O fortalecimento dos laços entre Brasil e China ocorre em paralelo ao aumento de tensões entre grandes economias. O cenário de políticas comerciais mais restritivas dos Estados Unidos e a intensificação de disputas globais contribuem para redirecionar fluxos de investimento.
Especialistas apontam ainda a complementaridade entre as duas economias: enquanto a China demanda commodities agrícolas e minerais, o Brasil depende do mercado chinês para sustentar exportações estratégicas.
Nesse contexto, o relacionamento bilateral tende a se consolidar como estrutural, menos sensível a oscilações de curto prazo e mais orientado por interesses econômicos de longo prazo.


