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O gol contra de Flávio Bolsonaro nos EUA – Meio

O gol contra de Flávio Bolsonaro nos EUA – Meio

O gol contra de Flávio Bolsonaro nos EUA – Meio

O gol que Flávio Bolsonaro marcou nos Estados Unidos na semana passada pode estar se revelando, aos poucos, uma vitória de pirro, que é daquelas que em pouco tempo se revelam mais como derrota que vitória. Ou um gol contra, entrando no clima de Copa do Mundo. Se no tarifaço do ano passado Eduardo Bolsonaro atuou como o camisa 10 de Lula, agora Flávio pode vestir a camisa 9.

Vamos decupar essa análise. Primeiro, vamos entender por que foi, sim, uma vitória de Flávio no primeiro momento. Eu sei que muita gente torce o nariz quando a imprensa usa essa expressão, especialmente quem considera que uma vitória X se configura numa derrota para o país, etc.

Mas vitórias políticas existem e têm justamente essa característica: independentemente do efeito prático da coisa, pode ser uma vitória discursiva, que convença eleitoralment e, que emplaque com eleitorados antes distantes, e por aí vai.

Pois bem. Flávio Bolsonaro saiu do Brasil quase fugido, acuado pelo escândalo de ter pedido 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, do banco Master, um dos personagens mais tóxicos da história da Nova República, para, até onde se sabe, financiar o filme sobre o pai, Jair.

Flávio foi a Washington sem uma agenda confirmada. Tudo indicava que voltaria ao Brasil de mãos abanando. Voltou com uma foto com Donald Trump, e fotos com Marco Rubio e JD Vance. Embora os encontros tenham sido breves, vendeu a impressão de que, sim, o sobrenome ainda lhe abre portas na Casa Branca. O movimento poderia não virar um voto sequer, mas no mínimo servia para animar a militância bolsonarista.

Hoje, a partir da apuração de colegas jornalistas, sabemos que é possível que ele tenha acelerado essa ida aos Estados Unidos para coincidir com o anúncio que seria feito na quinta-feira de que o governo americano decidiu classificar PCC e CV como organizações terroristas.

Como me explicou o cientista político Guilherme Casarões na Edição de Sábado do Meio, essa decisão da Casa Branca certamente já havia sido tomada. Mais do que isso: segurança pública não estava na agenda de lobby dos Bolsonaro junto à Casa Branca nem ao Capitólio. Sim, o professor mapeou tudo que foi tratado pela família desde antes de Donald Trump ser eleito e esse simplesmente não era um tema.

Mas a decisão veio e Flávio Bolsonaro correu para fazer parecer que foi a seu pedido. E, sim, num primeiro momento isso foi uma vitória política dele.

Por que política? Política porque não é uma vitória de fato. O Brasil perde com essa decisão em muitos níveis, inclusive na segurança pública em si. Especialistas que estão longe de ser petistas dizem isso. E o mercado financeiro, que nem preciso dizer que não é de esquerda, está temendo os efeitos da medida.

Mas, politicamente, junto ao eleitorado de direita e talvez de centro, Flávio conseguiu fazer parecer que fez algo pela segurança pública no Brasil — e essa área é uma das que Lula tem pior desempenho de avaliação. Então, no curto prazo, Flávio e seus aliados à direita podem surfar essa onda, explorando uma fraqueza da esquerda e de Lula.

Afinal, é muito mais custoso, politicamente, explicar para o público os eventuais prejuízos e malefícios dessa decisão do que emplacar o discurso populista de Flávio de que ele é duro com bandido, saca? O conceito de soberania nacional é bem mais complexo de vender do que o de bandido bom é bandido morto. Isso é um fato.

Agora, a agenda dos Estados Unidos também é bem mais complexa do que querer ajudar o Brasil a combater o crime organizado, né? E, portanto, não vem só com a decisão de classificar PCC e CV como terroristas. Vem com uma série de outras medidas que botam outros setores produtivos brasileiros na parede.

Então, nesta terça, o Escritório de Comércio dos Estados Unidos entregou, antecipadamente, um relatório ao governo americano em que recomenda que Trump volte a taxar o Brasil em 25%. Café, carne e outros produtos que aumentam a inflação para os americanos ficariam de fora, claro.

Mas a medida seria no pacote de retaliações à atuação do Supremo Tribunal Federal contra as big techs americanas, uma clara agenda bolsonarista desde o começo, e, principalmente, ao PIX brasileiro.

Flávio Bolsonaro correu pra dizer que, com essa medida, ele não tem nada a ver, viu? Acontece que é difícil, complexo explicar como você tem influência sobre uma coisa na Casa Branca e não sobre outras, ainda mais depois de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, os outros dois na foto com Trump, Rubio e JD Vance, terem se gabado em alto e bom som de serem responsáveis pelo tarifaço de Trump do ano passado, né?

Então, qual o saldo até aqui da excursão de Flávio Bolsonaro à Casa Branca na semana passada? Vamos conversar mais sobre isso?

Então, fica aqui comigo mais um pouquinho. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. O novo Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros está no ar no nosso streaming. O episódio Os Partidos é roteirizado e narrado pelo Pedro Doria, e é um Ponto de Partida turbinado para você entender mais sobre a política que a gente vive hoje. A produção mergulha na origem dos partidos brasileiros e vai percorrendo a história até chegar à pergunta principal que a gente tem hoje: como é que, com 30 partidos, a maioria de nós ainda não se sente representado por nenhum? Esse conteúdo é exclusivo para assinantes Premium no streaming do Meio. Assine o Meio agora mesmo.

Bom, tem uma parte desse saldo que a gente só vai saber com as próximas pesquisas eleitorais.

O governo Lula já vinha angariando apoios contra a classificação de PCC e CV como terroristas na imprensa tradicional, no setor financeiro e com operadores da segurança pública. Ainda assim, o ambiente eleitoral ainda pendia para o lado bolsonarista no discurso, na narrativa de combate ao crime.

Agora, com essa proposta por mais tarifas e por retaliação contra o PIX, se ela se consumar, vai ficar feio demais pros irmãos Bolsonaro explicar o apoio à agenda trumpista de novo.

Os Estados Unidos não gostam do PIX por um motivo muito básico: esse instrumento atinge diretamente empresas como Visa e Mastercard ao baratear o serviço de pagamento eletrônico para os brasileiros. Aumentar tarifas para “equilibrar” isso é, essencialmente, prejudicar o Brasil e atacar um serviço que já é um queridinho do povo.

Isso na parte comercial. Na parte ideológica, não dá pra ignorar o peso que Marco Rubio tem nas decisões sobre Brasil e América Latina. O secretário de Estado é também assessor de Segurança Nacional da Casa Branca. Ele não é um trumpista de carteirinha. Disputou com Trump as primárias de 2016, foi crítico de várias decisões do primeiro governo dele.

Mas nesse segundo governo Trump lhe ofereceu algo que nenhum outro cargo poderia dar: poder concreto e com isso uma chance real de se tornar o sucessor natural de Trump. Analistas que acompanham Washington de perto dizem que Trump está fritando JD Vance em toda oportunidade que aparece. Se for Rubio o escolhido, sua agenda para América Latinha é tão clara quanto anacrônica: expulsar o comunismo da região.

É parte de sua mentalidade de cubano e da comunidade de exilados da Flórida, que tem uma influência desproporcional pelo peso eleitoral da Flórida e pela proeminência de figuras como o próprio Rubio. Essa influência vem crescendo na Casa Branca. E Rubio foi se aproximando do bolsonarismo, atraído por congressistas MAGA da Flórida, e agora quer briga com o Brasil.

O governo Lula vinha tentando evitar essa medida e, desde que o presidente visitou Trump, foi criado um grupo de trabalho que teria 30 dias para chegar a uma solução negociada. Os EUA atravessaram o samba.

Agora, Geraldo Alckmin tem novamente a missão de tentar reverter a medida. Se conseguir, a vitória vai ser de Lula. Se não conseguir, o governo e a campanha reconquistam o discurso de que a família Bolsonaro trabalha contra a soberania brasileira. E a vitória de pirro de Flávio fica completa.

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