Paulo Figueiredo confessa querer matar jornalistas porque bandidos agem assim. Por Sara Vivacqua
Paulo Figueiredo em estande de tiro: treinado para matar jornalistas
Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo e lobista do círculo íntimo dos Bolsonaros nos Estados Unidos, usou o X para fazer uma ameaça direta de morte a jornalistas do Intercept e de outros veículos de imprensa.
Na postagem, Figueiredo afirmou que repórteres que entrarem em sua propriedade “sem convite” serão considerados trespassers — invasores de propriedade — e “tratados sob a “Castle Doctrine” do grande estado da Flórida”. Em seguida, completou: “Quem quiser testar a sorte, go ahead, make my day”; em português, “vá em frente — me dê esse prazer”.
É uma citação do filme “Impacto Fulminante”, franquia sobre o justiceiro Dirty Harry, interpretado por Clint Eastwood.
Trata-se de uma ameaça explícita baseada em seu suposto “direito de matar”, a partir de uma distorção da lei americana, caso jornalistas do Intercept tentem abordá-lo em sua propriedade.
A “Castle Doctrine” — ou Doutrina do Castelo — evocada por Paulo Figueiredo, está associada à expressão “my home is my castle”, em português, “a minha casa é o meu castelo”.
Nos Estados Unidos, essa doutrina aparece em diferentes formulações estaduais e, em alguns casos, articula-se com as chamadas leis “Stand Your Ground”, isto é, leis do “não dever de recuar”. Em linhas gerais, essa doutrina é arguida em tribunais para afastar a obrigação de fuga da suposta vítima e autorizar o uso da força letal se uma pessoa acreditar razoavelmente que isso é necessário para se defender de força ilegal iminente em sua propriedade privada.
De acordo com os 2025 Florida Statutes, se alguém está tentando entrar ou já entrou ilegalmente à força em uma residência, presume-se legalmente que o morador tinha medo razoável de morte iminente ou grande lesão corporal.
O ponto central da “Castle Doctrine” é uma presunção legal do uso justificável da força letal contra uma pessoa a partir de elementos subjetivos. Note-se que basta que a pessoa seja considerada uma suposta invasora e que o atirador alegue razoavelmente acreditar que estava em perigo.
Isso não é comparável à legítima defesa do direito brasileiro ou europeu. A legítima defesa exige, de fato, a existência de um perigo — agressão injusta, atual ou iminente —, chamado elemento objetivo, e uma reação necessária e proporcional, em que o uso da força letal seja necessário para afastar o perigo e utilizado como último recurso, além do elemento subjetivo, isto é, a intenção de se defender.
Mas, ainda que a “Castle Doctrine” fosse aplicada, a abordagem pacífica é lícita. A presunção da “Castle Doctrine” obviamente não se aplica a um jornalista que se aproxima pacificamente de uma residência para exercer atividade de imprensa. O medo e a hostilidade de Paulo Figueiredo contra repórteres não prevalecem sobre a vida e a integridade física de profissionais no exercício de sua função.
Nos Estados Unidos, há uma “licença implícita” social para que qualquer pessoa se aproxime da porta da frente, bata, aguarde brevemente e vá embora caso não seja recebida ou seja mandada sair. A Suprema Corte americana reconheceu esse princípio no caso Florida v. Jardines, ao afirmar que até policiais podem se aproximar de uma casa para tentar falar com o morador, pois isso não vai além do que qualquer cidadão privado poderia fazer.
No caso de jornalistas, essa aproximação ganha relevância constitucional adicional quando voltada à apuração de fatos de interesse público e à oferta de direito de resposta.
Mas a interpretação pessoal de Paulo Figueiredo da lei da Flórida como “licença para matar” algum jornalista do Intercept que se aproxime de sua residência, é o que realmente denuncia seu desejo homicida e não de defesa.
Figueiredo explicita o desejo calculado e premeditado de matar ou, no mínimo, uma provocação para que ele pudesse atirar.
Aqui há, por si só, há a ausência óbvia do elemento subjetivo da intenção de defesa. Não se trata de “Castle Doctrine”, se trata se ameaça de morte aos olhos do direito e abuso de direito.
O Medo da Imprensa
O ódio e medo de Paulo Figueiredo e desejo de aplicar o uso da forca letal com a imprensa parece se inserir em um contexto muito mais amplo.
As ameaças de Paulo Figueiredo ocorrem após Heloísa Bolsonaro, esposa do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), afirmar no Instagram que acionou a polícia americana contra um repórter do Intercept que foi à sua residência no Texas, nos EUA, para tentar ouvi-la, acusando o jornalista de ser “parceiro do PCC”.
O imóvel onde vive Eduardo Bolsonaro, em Arlington, no Texas, é suspeito de ter sido adquirido ilegalmente por meio do Mercury Legacy Trust, estrutura ligada a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA. Calixto também aparece associado ao Havengate Development Fund, fundo apontado como destinatário de recursos enviados por Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro.
A identificação da casa é, portanto, peça-chave para apurar se houve benefício econômico indireto a Eduardo Bolsonaro, depois de sua admissão de recebimento de renda passiva — rendimento de fundos e trusts. Eduardo Bolsonaro vive atualmente nos Estados Unidos enquanto responde a ação penal no STF por coação no curso do processo.
Tentem a sorte. Eu discuto nos tribunais se senti razões para ser ameaçado por um grupo com conexões com o PCC. Eles discutem com o capeta. Eu faria esse acordo.
— Paulo Figueiredo (8) (@pfigueiredo08) May 23, 2026
As Atividades Obscuras de Paulo Figueiredo
Paulo Figueiredo, por mérito próprio, também aparece no radar da Justiça americana. Sua empresa, a International Treasure Group, registrada na Flórida, teria recebido US$ 140 mil de uma empresa apontada como fachada de Guo, a HCHK Technologies Inc., segundo afirma a Agência Pública.
A ação na Justiça americana busca recuperar esse valor porque os administradores da massa falida de Guo afirmam que a transferência foi “fraudulenta”, feita para dificultar, atrasar ou fraudar credores.
Tampouco é apenas propagandista ou amigo do círculo íntimo dos Bolsonaros; ele é coarticulador, ao lado de Eduardo Bolsonaro, de uma campanha nos EUA para obter sanções pessoais contra autoridades brasileiras e punições econômicas contra o Brasil, com o objetivo declarado pela PGR de pressionar o STF no processo penal de Jair Bolsonaro.
Segundo a denúncia da PGR, Eduardo Bolsonaro e Figueiredo mobilizaram contatos nos EUA para obter punições pessoais contra ministros do STF e sanções econômicas contra o Brasil, como parte de uma estratégia de intimidação destinada a interferir no julgamento de Jair Bolsonaro. A Procuradoria afirma ainda que ambos se apresentaram publicamente como articuladores dessas medidas e cobraram, para interromper os danos, que não houvesse condenação criminal de Bolsonaro. Trata-se, no mínimo, de uma articulação antinacional de coerção internacional contra o Estado e o povo brasileiro.
Paulo Figueiredo e Bolsomaster
O que permanece sem explicação é o empenho de Paulo Figueiredo em tentar blindar o envolvimento financeiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com o projeto ligado aos Bolsonaros.
Nesse esforço, ele tem acumulado contradições e afirmações factualmente contestáveis. Alegou que a GoUp Entertainment, produtora de “Dark Horse”, não recebeu absolutamente nada de Vorcaro. A afirmação contrasta com os áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro e com as reportagens do Intercept, segundo as quais Vorcaro seria o principal financiador do filme.
A pergunta, portanto, é inevitável: por que Paulo Figueiredo, que em tese não representa a GoUp, passou a falar publicamente em nome da produtora e da rota financeira do projeto de forma não solicitada?
Paulo Figueiredo passou também a evocar a lei americana, mais uma vez de maneira enganosa, para alegar que um acordo confidencial proibiria a divulgação de quem teria sido o investidor do filme Dark Horse.
A legislação norte-americana não proíbe a divulgação; apenas pode permitir que a identidade dos investidores não seja divulgada publicamente sob certos requisitos.
Mas a maior inconsistência não está apenas em reconhecer Vorcaro como financiador do filme. Ela está na rota do dinheiro. No caso Bolsomaster, Paulo Figueiredo parece empenhado em defender a incapacidade de Flávio de dizer onde o dinheiro foi.
A entrevista do Flávio na Globo News teve excelentes momentos. Importante lembrar que todos aqueles que agora atiram pedras tratavam Vorcaro como ilibado até aquele momento. Mas, algo que também ficou escancarado, foi que Flávio não sabe quase nada sobre como a captação de…
— Paulo Figueiredo (8) (@pfigueiredo08) May 15, 2026
Karina Ferreira da Gama, sócia única da GoUp, investigada pelo Ministério Público pela captação de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, afirmou que a produtora não tinha “absolutamente nenhum recurso” oriundo de Vorcaro, de empresas dele ou de Fabiano Zettel, e a nota da GoUp disse que, entre os financiadores de “Dark Horse”, não constava “um único centavo” proveniente de Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer empresa sob seu controle societário. A produtora também disse que os recursos vinham de investidores estrangeiros e que a origem estava protegida por acordo de confidencialidade.
Na GloboNews, Karina mudou o eixo da explicação. Segundo o UOL, ela afirmou que Daniel Vorcaro bancou mais de 90% da produção de “Dark Horse”.
A nova versão parece procurar deslocar o foco para a rota do dinheiro, mas acaba por consolidar suspeitas. Isso torna plausível a hipótese investigativa de que a rota formal — via Havengate, no Texas, e não diretamente pela produtora — tenha servido para separar origem econômica, controle jurídico e beneficiário final dos recursos. Essa arquitetura é compatível com uma hipótese de dissimulação financeira, embora ainda não prove, por si só, lavagem de dinheiro.
Se os recursos eram destinados a “Dark Horse”, por que não foram enviados diretamente à GoUp Entertainment, produtora formal da obra, mas passaram por estruturas financeiras nos Estados Unidos, como o Havengate Development Fund, ligado ao advogado Paulo Calixto?
Figueiredo sabe demais das atividades de sua organização criminosa. É sintomático que queira eliminar quem procure a verdade sobre o bando.


