“Primavera para Hitler” e “Dark Horse”, a história de dois golpes no cinema
Mário Frias, Flávio Bolsonaro, Jim Caviezel e Carluxo. Foto: reprodução
Há uma referência involuntária entre o clássico “The Producers” (lançado no Brasil como “Os Produtores” e eternizado pelo musical fictício “Primavera para Hitler”) e “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Em ambos os casos, o centro da trama não é exatamente o cinema ou o teatro, mas o ecossistema de interesses, picaretagem e dinheiro que gira ao redor do espetáculo. São frutos de um golpe.
Na comédia de Mel Brooks, os protagonistas Max Bialystock e Leo Bloom criam uma patranha que parecia perfeita: arrecadar dos investidores muito mais dinheiro do que o necessário para montar um musical e produzir deliberadamente o pior show da história da Broadway. A versão original, com Gene Wilder e Zero Mostel, é definitiva.
A lógica era genial na sua canalhice.
Se a peça fracassasse, como esperado, ninguém cobraria lucros ou auditorias detalhadas. O espetáculo fecharia na estreia, os investidores assumiriam o prejuízo e os produtores embolsariam a diferença.
Para garantir a catástrofe artística, eles seguiram um plano meticuloso: escolheram a pior peça possível: “Primavera para Hitler”, escrita por um nazista delirante; contrataram o pior diretor disponível: Roger De Bris, um incompetente absoluto; montaram um elenco desastroso.
Tudo era calculado para dar errado. O problema é que o negócio vira sucesso, o público entende aquilo como sátira e eles saem consagrados.
“Dark Horse” é quase a mesma coisa. A diferença principal é que não tem como ser um êxito.
O filme ligado financiado por Vorcaro, a pedido entre outros, de Flávio Bolsonaro, nasceu cercado por um clima parecido de megalomania, improviso e opacidade financeira.
A obra ganhou relevância muito menos por expectativa artística real e muito mais pelo conjunto de personagens orbitando o projeto: banqueiros, operadores políticos, bolsonaristas, marqueteiros e figuras da guerra cultural, numa produção mequetrefe.
Assim como em “Os Produtores”, o esquema paralelo é mais interessante que a obra em si.
No filme de Mel Brooks, o verdadeiro enredo estava nos bastidores da vigarice. Em “Dark Horse”, a dinâmica é a mesma. O aspecto mais “Primavera para Hitler” do caso talvez seja justamente a estética da tragédia anunciada.
“Dark Horse” é um empreendimento inflado artificialmente, cercado por marketing ideológico, mas sem relevância cinematográfica proporcional ao barulho produzido. É propaganda vagabunda.
Em “The Producers”, Max Bialystock acreditava que um fracasso poderia ser mais lucrativo do que um sucesso.
No caso brasileiro, a pergunta implícita é outra: talvez o filme nunca precisasse dar certo artisticamente. Bastava funcionar como ferramenta de relacionamento, influência, autopromoção e circulação de poder dentro do universo bolsonarista.
A diferença é que Mel Brooks escreveu sua história como comédia. Os Bolsonaros apostaram num cavalo perdedor.


