Brasil acerta na cautela, mas enfrentará pressão dos EUA nas eleições, afirma analista política
O Brasil adota uma postura cautelosa diante da escalada do conflito no Oriente Médio, estratégia que, segundo especialistas, tem se mostrado acertada diante da imprevisibilidade da administração de Donald Trump. No entanto, além desse desafio, o país enfrenta a possibilidade de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, com a potencial visita de Lula à Casa Branca e um cenário político marcado por polarização extrema.
Segundo Priscila Lapa, cientista política, “O Brasil acerta ao adotar uma postura cautelosa neste momento. Nos primeiros anos do terceiro mandato de Lula, havia grande expectativa sobre a postura internacional do país. Havia receios de possíveis equívocos, especialmente diante da nova era Trump”.
Priscila destaca que o Brasil lidou de forma hábil com situações delicadas no passado, como a posição em relação à Venezuela em 2024 e a crise do tarifaço em 2025. “Agora, parece que o Brasil acerta ao buscar a defesa dos organismos internacionais como mediadores, com muita cautela. Nenhum país se atreve a se posicionar de forma irresponsável contra os Estados Unidos.”
Possível visita de Lula à Casa Branca
Sobre a possível visita de Lula a Donald Trump em março, Lapa pondera que o cenário mudou drasticamente desde o agendamento do encontro. “Trump se mostra uma figura controversa. O que é preocupante na atualidade é a ausência de um organismo que possa contê-lo. Muitos se perguntam quem poderia deter Trump, e agora, com esse novo episódio, parece praticamente impossível alguém fazê-lo.”
Destacando a delicada posição do Brasil, Priscila comenta: “O Brasil não possui um poder militar consolidado, apresenta fragilidades econômicas. Não é um apoiador natural de Trump, porém também não pode confrontá-lo. Encontra-se numa posição delicada: comportar-se como um estadista, defendendo os interesses nacionais, observando o cenário global, porém com muita cautela.”
Interferência nas eleições brasileiras
Priscila acredita que Trump buscará influenciar o processo eleitoral brasileiro. “Ele não adotará uma postura neutra nas eleições presidenciais brasileiras, assim como não tem feito em outros países que lhe interessam.”
A especialista relativiza a lealdade de Trump ao bolsonarismo. “Essa tentativa de influência não se deve a uma simpatia genuína por Bolsonaro ou sua família. Ele já demonstrou não ter essa fidelidade. Durante as negociações do tarifaço, ele elogiou Lula, em um momento que enfraqueceu o discurso bolsonarista.”
Priscila aponta que Trump não adotará uma postura neutra em relação às eleições no Brasil. “Até que ponto ele será leal à agenda bolsonarista ou a possíveis acordos que possam surgir com Lula em uma relação amistosa que vem se estabelecendo? Ainda é uma incógnita.”
Ela acredita que haverá tentativas de interferência para evitar que agendas de esquerda ou que possam confrontar os objetivos de Trump se estabeleçam. “Isso pode variar desde negociações com Lula até um apoio explícito em um tweet favorável a Flávio Bolsonaro, o que poderia animar a militância.”
Em relação aos recentes atos da extrema direita, que tiveram adesão aquém do esperado no último fim de semana, Priscila faz uma análise cautelosa. “Estamos observando uma mudança. Por outro lado, pesquisas recentes indicam maior adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro, que naturalmente herda parte do eleitorado do pai, mas ainda precisa convencer alguns segmentos de sua capacidade de liderar um projeto nacional.”
Priscila identifica como maior desafio para a extrema direita manter a militância ativa e engajada o fato de seu principal líder estar preso.
Ela compara com ciclos anteriores: “Em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro tinha uma liderança natural, com maior capacidade de mobilização. Flávio demonstra potencial de crescimento, porém ainda precisa percorrer um longo caminho para manter esse eleitorado engajado e consolidar alianças políticas.”
Priscila destaca que o receio de que o adversário vença é o fator principal na polarização eleitoral, mais do que a convicção em relação ao próprio candidato. Ela acredita que esse sentimento estará presente em 2026, especialmente diante do cenário internacional tenso, que pode gerar medo em relação à capacidade de liderança do eleito em meio a uma crise econômica global.
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