Polícia investiga fraude em contrato do Complexo Trapiche
A Polícia Civil do Maranhão investiga um contrato de quase R$ 1,9 milhão para a compra de móveis do Complexo Trapiche Santo Ângelo, em São Luís. A suspeita recai sobre a forma de contratação, feita sem licitação própria pela prefeitura. A aquisição ocorreu por adesão a uma ata de registro de preços de um consórcio de Minas Gerais.
O inquérito tramita na 1ª Central das Garantias e Inquéritos da Comarca da Ilha de São Luís. A investigação foi instaurada em setembro de 2025 pelo 1º Deccor, o Departamento de Combate à Corrupção, ligado à Seccor. O caso começou a partir de informação enviada pela Polícia Federal, que recebeu denúncia anônima e concluiu não haver competência federal.
Contratação por carona em ata de consórcio mineiro
A compra do mobiliário foi feita pela Semad, a Secretaria Municipal de Administração. A pasta optou por adesão a uma ata de registro de preços do Convales, o Consórcio de Saúde e Desenvolvimento dos Vales do Noroeste de Minas, com sede em Arinos (MG). A suspeita apurada é de que a carona tenha favorecido a empresa Flexibase Indústria e Comércio de Móveis, sediada em Aparecida de Goiânia (GO).
A contratação por carona é permitida pela Lei de Licitações, mas exige que o poder público comprove a vantagem do procedimento. Também exige a comprovação da compatibilidade dos preços com o mercado antes de aderir. É exatamente sobre esse ponto que recai parte da investigação da polícia.
À época da assinatura do contrato, a prefeitura era comandada por Eduardo Braide (PSD). Ele renunciou ao mandato em março deste ano para concorrer ao governo estadual. Até o momento, porém, Braide não aparece como investigado no inquérito.
Complexo foi reinaugurado em novembro de 2025
O Complexo Trapiche Santo Ângelo é um antigo conjunto fabril reaberto em novembro de 2025 como sede de secretarias municipais e espaço cultural. O espaço fica no Centro Histórico de São Luís e recebeu investimentos de R$ 60 milhões. Os recursos vieram de fontes próprias da Prefeitura, do BNDES e de outras parcerias.
O prédio foi construído entre o fim do século XIX e o início do século XX. Ele funcionou como entreposto comercial e industrial da capital maranhense. A requalificação transformou o antigo trapiche em um complexo público de grande porte.
A investigação busca confirmar ou afastar a existência de crime e identificar os responsáveis pela contratação. Em maio, o promotor Paulo José Miranda Goulart, do Ministério Público do Maranhão, pediu a prorrogação da investigação por mais 90 dias. O objetivo é ouvir o representante da empresa, juntar laudo pericial contábil e elaborar o relatório final.
Procurados não se manifestaram até o momento
Procurados por e-mail desde junho para se posicionarem sobre a aquisição e a investigação, Esmênia Miranda (PSD) e Eduardo Braide não responderam. A reportagem também tentou contato com a Semad, a Flexibase e o Convales, sem retorno até agora. O espaço segue aberto para manifestações.
O caso reacende o debate sobre transparência nas contratações públicas da capital. A compra de móveis para um espaço recém-inaugurado chama atenção pelo valor elevado e pela forma de aquisição. A apuração deve esclarecer se a carona respeitou as regras legais.
A contratação por carona aparece com frequência crescente nos tribunais de contas e nas investigações de corrupção. A prática, quando usada de forma irregular, pode mascarar o direcionamento de contratos para empresas específicas. A lei exige que o ente público demonstre ganho real antes de aderir à ata de outro consórcio.
No caso do Trapiche, a ata usada pertencia a um consórcio de saúde de Minas Gerais, o que amplia as dúvidas sobre a compatibilidade da contratação. A compra envolvia móveis para secretarias e espaço multiuso, itens sem relação direta com a finalidade do consórcio mineiro. Esse descompasso está no centro da suspeita investigada.
Até a publicação desta matéria, nem a prefeitura nem os envolvidos haviam se manifestado publicamente sobre o conteúdo do inquérito. A Polícia Civil segue com as diligências para esclarecer os fatos. O desfecho depende da perícia contábil e dos depoimentos das partes envolvidas.
O Complexo Trapiche Santo Ângelo tem importância histórica e cultural para São Luís. O antigo entreposto industrial se transformou em símbolo de requalificação urbana da orla da capital. A investigação sobre a compra de seus móveis acrescenta um capítulo de desconfiança a uma obra celebrada pela gestão anterior.
A denúncia anônima que deu origem ao caso foi inicialmente recebida pela Polícia Federal. Como o órgão federal concluiu não haver competência para o caso, o material seguiu para a Polícia Civil estadual. O caminho percorrido pela apuração mostra a integração entre as forças de segurança no combate à corrupção.
Para entender o contexto das obras e projetos na capital, leia a matéria sobre a Nova Lei de Zoneamento de São Luís publicada no O Ludovico.
Com informações de Atual7.
O Ludovico



Publicar comentário