PM: carreata do Comando Vermelho mirou vitória de Flávio
Um relatório de inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro apontou o Comando Vermelho como organizador de uma carreata em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O ato foi planejado para comemorar uma suposta vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial de 2026.
Batizado de “Carreata do Flávio Bolsonaro – Fora Lula”, o evento estava previsto para as 21h de domingo, 25 de outubro, logo após o fim da apuração do segundo turno. A mobilização não aconteceu porque o senador perdeu a eleição para Lula (PT), que confirmou a reeleição naquela mesma noite.
O documento foi obtido pela Agência Sportlight e divulgado em 28 de outubro. Desde então, a informação circula em veículos como o Diário Carioca e o Diário do Centro do Mundo.
Carreata do Comando Vermelho: o que diz o relatório do 7º BPM
O informe é uma Ação de Inteligência do Serviço Reservado do 7º Batalhão de Polícia Militar, o P-2, setor que coleta e analisa dados estratégicos da corporação. O destinatário é o P-3, seção responsável pelo planejamento e pelas operações.
O assunto do papel é direto: “Previsão de eventos não autorizados em São Gonçalo”. O período monitorado vai de sexta-feira, 23, a domingo, 25 de outubro de 2026.
No corpo do texto, o serviço reservado relata a expectativa de “grande aglomeração de pessoas, além da presença de indivíduos envolvidos com tráfico e consumo de substâncias entorpecentes”. O parágrafo seguinte atribui a organização ao Comando Vermelho.
O alerta chegou às mãos do setor de operações em 23 de outubro, dentro dos informes semanais sobre atividades ligadas a facções criminosas no estado.
Rolezinho, endereço secreto e arte com “Fora Lula”
Um anexo do relatório resume o evento em tópicos. O nome interno era “Rolezinho”, marcado para domingo, dia 25, na área do 7º Batalhão. A facção responsável, segundo o documento, era o Comando Vermelho. A fonte da informação: o Instagram.
Sobre o ponto de encontro, o informe registra uma frase entre aspas: “concentração será falado na hora”. Os organizadores pretendiam revelar o local apenas no horário marcado, às 21h.
A peça anexada ao papel traz a arte de divulgação do ato. O cartaz anuncia a “Carreata do Flávio Bolsonaro”, edição “Rolê-SG”, com as frases “Vencemos esse câncer do PT” e “Fora Lula”. Ao lado, aparece a imagem do presidente reeleito.
O mesmo informe listava outros oito eventos previstos para aquele fim de semana em áreas sob influência do Comando Vermelho. A maioria era de bailes funk em comunidades. As forças de segurança tratam São Gonçalo como território de hegemonia da facção.
O episódio se soma a uma série de apurações sobre a infiltração do crime organizado na política fluminense, tema já tratado pelo blog em reportagem sobre como o Comando Vermelho chegou ao topo da política do Rio.
O discurso da campanha e os limites fixados pelo TSE
Durante a campanha, Flávio Bolsonaro fez do combate ao crime organizado uma de suas principais bandeiras. O senador defendeu classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas e associou adversários ao tráfico.
Esse discurso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Em 13 de outubro, o plenário do TSE derrubou propagandas dos dois lados que associavam os candidatos a facções de forma genérica, sem base fática, e fixou limites para o tema.
Na Alerj, deputados do PL ligados ao grupo político do senador aprovaram na Comissão de Constituição e Justiça, em 21 de outubro, o Projeto de Lei 7.774/2026. O texto classifica o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas no estado. A proposta ainda depende de votação em plenário.
No Rio, a relação entre crime organizado e política virou alvo de investigações. O ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) foi preso na Operação Unha e Carne e apontado pela Polícia Federal como “liderança do núcleo político” do Comando Vermelho, segundo reportagem do Jornal do Brasil.
Em junho, o deputado federal Alencar Santana (PT) protocolou na Polícia Federal uma notícia de fato. Ele pediu apuração de possíveis vínculos entre integrantes do Comando Vermelho e pessoas do entorno político do senador. A assessoria de Flávio Bolsonaro negou qualquer ligação com facções.
Silêncio e o que se sabe até agora
Procurado para comentar o relatório, o senador não respondeu aos questionamentos da imprensa. A Polícia Militar do Rio também não se manifestou publicamente sobre o conteúdo do informe até a publicação desta matéria.
O caso reacende um debate antigo no estado: o uso eleitoral do combate ao crime e a influência real das facções sobre o voto em regiões dominadas por elas. São Gonçalo tem 896.744 habitantes, segundo o Censo de 2022, e é o segundo município mais populoso do Rio de Janeiro.
Investigações em curso apuram o envolvimento de integrantes do grupo em roubos de veículos e de cargas na região metropolitana. Ferros-velhos e empresas de reciclagem do Complexo do Salgueiro entraram na mira por suspeita de lavagem de mais de R$ 500 milhões.
A carreata de São Gonçalo ficou no papel. O que restou foi o registro policial de um ato que nunca saiu do Instagram.
Com informações da Agência Sportlight e do Diário Carioca
O Ludovico



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