Caco Ciocler resgata meme do 'patriota do caminhão' em filme como diretor: 'dei risada, mas depois achei triste'
Três dias após o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, que resultou na vitória de Lula, uma cena espantou o Brasil: um homem, tentando impedir a passagem de um caminhão por bloqueio feito por apoiadores de Jair Bolsonaro na Rodovia BR-232, próximo de Caruaru, em Pernambuco, acabou pendurado no para-brisa do veículo e arrastado por alguns quilômetros. A cena foi registrada em vídeo e rendeu matérias na imprensa e uma infinidade de memes, com o personagem passando a ser conhecido como o “patriota do caminhão”. Passados quase quatro anos do ocorrido, o caminhão e o patriota chegam aos cinemas em “Eu não te ouço”, longa dirigido por Caco Ciocler que imagina um verdadeiro road movie a partir da história real.
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Com mistos de ficção e documentário, o longa imagina o motorista do caminhão e o patriota dando depoimentos para um entrevistador por trás das câmeras, refletindo sobre o caso que virou piada, mas que é muito sério segundo observa o ator e cineasta.
— Quando essa situação aconteceu, eu dei muita risada, como todo brasileiro, mas com o passar do tempo comecei a achar esse meme triste e trágico. Me deu vontade de subir naquele caminhão e conhecer aquelas pessoas — lembra Ciocler, de 54 anos. — Como meus últimos filmes, este foi uma reação sobre uma coisa que mexeu muito comigo neste período específico do país.
O diretor vê “Eu não te ouço” como o capítulo final de uma trilogia sobre o cenário político do Brasil nos anos de Bolsonaro. A saga foi iniciada com “Partida” (2019), sobre uma atriz que, decepcionada com o resultado da eleição, decide ela própria concorrer à presidência, e “O melhor lugar do mundo é agora” (2022), sobre a dificuldade dos artistas em atuar durante a pandemia e o impacto das fake news no país.
— A partir do momento em que decidi fazer o filme, eu fui entendendo como este meme era a representação simbólica da incapacidade de escuta. Existia um vidro separando os dois e o barulho da estrada e do vento. É uma tradução do que vemos no Brasil e no mundo hoje em dia — destaca o diretor. — Se eles quisessem se ouvir, era só parar o caminhão. Mas a situação mostra como a manutenção dessa falta de escuta interessa aos dois lados.
Ciocler conta que vê o vidro do para-brisa como uma espécie de espelho, em que cada personagem conversa apenas com seu próprio reflexo. Para reforçar esta ideia, o cineasta escolheu um só ator para interpretar tanto o motorista do caminhão quanto o patriota: Márcio Vito, de “A ostra e o vento” (1997) e “A vida invisível” (2019). O papel duplo rendeu a ele o prêmio de melhor ator na mostra Novos Rumos do Festival do Rio do ano passado.
Márcio Vito em cena de “Eu não te ouço”, de Caco Ciocler
Divulgação
Vito, que também foi responsável pelo roteiro do filme ao lado de Ciocler e Isabel Teixeira, conta que abraçou os personagens (e o caminhão) sem julgamentos.
— Eu pensava nele como alguém que estava numa situação que não planejou nem conseguiu sair. Tentei imaginar uma coerência dentro dessa situação e apoiar o personagem num certo desejo de heroísmo de alguém que acreditava de fato estar tomando uma atitude e que aquilo teria uma representatividade muito honrosa, o que obviamente não foi o caso — diz o ator.
‘Ninguém escuta nada’
Tanto o diretor quanto o ator reforçam o caráter ficcional da trama, que é inspirada numa situação real, mas não envolve qualquer maior atenção a detalhes e fatos verídicos. Na vida real, o caminhão percorreu cerca de oito quilômetros ao longo de dez minutos. No filme, a trama se desenvolve ao longo de horas. Ciocler também nega que tenha feito uma obra sobre esquerda e direita no país.
— A intenção do filme nunca foi fazer uma história de oposição entre esquerda e direita. Acho que o filme também critica a ausência de um pensamento mais coerente, seja de esquerda, seja de direita. É um filme em que nenhum pensamento se completa, ninguém escuta nada — esclarece o cineasta.


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