Fim da Moratória da Soja serviu de argumento para nova tarifa dos EUA
NESTA EDIÇÃO. USTR cita decisão de Mato Grosso de acabar com moratória da soja para criticar atuação do Brasil na proteção ambiental.
EUA propõem nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, incluindo o etanol.
País terá um mês para tentar reverter.
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Pode parecer contraditório que o governo de Donald Trump, que tem desmantelado políticas ambientais e climáticas em casa, esteja tão preocupado com o que o Brasil faz para proteger suas florestas.
Mas os argumentos da USTR para justificar novas tarifas deixam explícito quais os mercados ele quer alcançar, enquanto gera desconfianças sobre a origem de produtos brasileiros em um mercado internacional que cobra cada vez mais rastreabilidade.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) divulgou o relatório (.pdf) com as conclusões da investigação aberta em julho do ano passado sobre políticas e práticas do Brasil consideradas “injustas” ou “discriminatórias”.
O processo com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 questionava se determinadas medidas oneram ou restringem o comércio norte-americano.
A resposta do órgão foi que sim, embora o governo e a indústria brasileira discordem e estejam se organizando para contra-argumentar e evitar a imposição de uma taxa de 25%. (Jota)
Etanol e meio ambiente, além do Pix e do combate à corrupção, aparecem entre os gatilhos explorados na investigação dos EUA para justificar novas tarifas contra o Brasil, em uma ofensiva que já está sendo explorada no contexto das eleições presidenciais. (Poder360)
Na avaliação dos EUA, mesmo o Brasil tendo um marco legal para combater desmatamentos ilegais, o país tem um histórico de falhas na sua aplicação eficaz e “o desmatamento ilegal persiste”.
A investigação cita aberturas de áreas para criação de gado e expansão do agronegócio com produção de soja e milho, culturas que competem com as exportações dos EUA.
E usa como exemplo o Mato Grosso, em suas investidas para acabar com a Moratória da Soja.
“Por exemplo, o estado do Mato Grosso, que abrange territórios dos biomas Amazônia e Cerrado, está tentando eliminar benefícios fiscais anteriormente concedidos a empresas que aderiram a acordos voluntários para combater o desmatamento (como a Moratória da Soja)”, diz o documento.
“Essa medida já teve um efeito inibidor, visto que grandes multinacionais começaram recentemente a se retirar da Moratória da Soja, o que pode enfraquecer o impacto do acordo sobre as taxas de desmatamento”, continua.
“Como o Brasil não tem conseguido aplicar — e até mesmo, em alguns casos, revogado — suas leis ambientais, o desmatamento tornou-se sistêmico, atingindo o maior índice em 15 anos em 2021”, completa.
Vale dizer que, embora o auge do desmatamento tenha ocorrido na gestão de Jair Bolsonaro, recentes movimentos no Congresso Nacional conseguiram aprovar leis que também servem de base para questionar a sustentabilidade do agronegócio brasileiro, como a nova lei do licenciamento ambiental.
A resposta do governo Lula (PT) aposta em dados da gestão atual para frear a destruição florestal, considerando as derrotas no campo legislativo quando o assunto é o agro.
Uma nota divulgada pelo Palácio do Planalto nesta terça (2/6) destaca a meta de zerar o desmatamento até 2030 e afirma que a devastação na Amazônia Legal caiu cerca de 50% em comparação com 2022.
“Desde 2023, o Governo estabeleceu e está cumprindo a meta de zerar o desmatamento até 2030. O desmatamento na Amazônia Legal já foi reduzido em cerca de cinquenta por cento na comparação com 2022. A área queimada no País como um todo recuou cerca de quarenta por cento em 2025 frente à média do período 2017-2024. Além disso, dados divulgados semana passada pelo MapBiomas indicam que, em 2025, o desmatamento no Brasil, em seus seis biomas, atingiu seu menor nível em 7 anos”, diz o Planalto.
Etanol entrou na roda
O acesso ao mercado brasileiro de etanol é outro ponto elencado pelos EUA.
O documento critica uma mudança ocorrida em 2017 na relação comercial, que criou uma cota para importação do biocombustível norte-americano isento de impostos, de 600 milhões de litros. Acima desse volume, a taxa é de 18% atualmente.
Na visão da USTR, a cota é resultado de “uma bem-sucedida campanha de lobby das indústrias brasileiras de cana-de-açúcar e etanol, que alegavam que as importações de etanol colocavam em risco a produção nacional brasileira”.
Governo e indústria rebatem: o comércio é equilibrado quando o açúcar entra na balança.
“Os EUA aplicam tarifa de 12,5% sobre o etanol brasileiro, uma diferença relativamente pequena para os 18% aplicados pelo Brasil. Por outro lado, o açúcar brasileiro conta com cota ínfima de cerca de 150 mil toneladas e, acima da cota, está sujeito a tarifa de US$ 340 por tonelada, equivalente a uma alíquota de 80%”, diz a nota do Planalto.
Por trás dessa briga há um outro fator: em março deste ano, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) anunciou flexibilização nas exigências ambientais para permitir o aumento da mistura de etanol na gasolina.
A adoção do E15 no verão tenta reduzir o impacto da alta nos preços dos combustíveis para os consumidores devido à guerra no Oriente Médio, mas o percentual pode se tornar permanente, segundo uuma proposta em discussão.
Isso elevará a demanda pelo produto, abrindo espaço para importações.
Em comunicado também divulgado hoje, Unica e Bioenergia Brasil afirmam que o biocombustível brasileiro é uma das alternativas mais eficientes para a descarbonização dos transportes, com baixa intensidade de carbono e critérios auditáveis de sustentabilidade.
“O etanol brasileiro está alinhado às principais agendas globais de transição energética, segurança energética e desenvolvimento sustentável”, dizem as entidades.
Cobrimos por aqui
Curtas
Leilão de baterias em dezembro. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), disse nesta terça (2/6) que as regras para o primeiro leilão do Brasil para contratação de armazenamento em baterias para o sistema elétrico serão publicadas amanhã (3). A previsão é de realização do certame em dezembro deste ano.
Diesel subsidiado. O Conselho de Administração da Petrobras aprovou a adesão da companhia à subvenção econômica aos produtores e importadores de óleo diesel de R$ 1,12 por litro comercializado. Assim, os preços de venda às distribuidoras seguem sem alteração, mantidos em R$ 3,30 por litro.
Biometano na indústria. A Knauf, fabricante de materiais de construção, vai substituir um terço do seu consumo de gás natural por biometano na planta em Queimados (RJ), a partir deste mês. O biocombustível será fornecido pela Gás Verde. Inicialmente, a fábrica vai adquirir 13 mil m³/dia durante três anos.
Onda de calor. A Organização Meteorológica Mundial pediu nesta terça (2/6) que o mundo se prepare para risco de calor extremo, diante da expectativa de um El Niño moderado ou possivelmente forte no segundo semestre. Um El Niño potencialmente forte exacerbará a seca e as chuvas fortes e aumentará o risco de ondas de calor tanto na terra quanto no
oceano. (Reuters/Forbes)
Escola de Eletricistas. O Grupo Equatorial prorrogou o prazo de inscrições para novas turmas do Programa Escola de Eletricistas 2026 até o dia 5 de junho. A iniciativa oferece qualificação gratuita para quem deseja ingressar no setor de distribuição de energia elétrica. São 300 vagas distribuídas em diversos municípios dos estados do Maranhão, Pará, Piauí, Goiás e Amapá.


